O dia maluco que determinou o primeiro campeão da Alemanha reunificada

Foto: Kicker
Foto: Kicker

Em 1991, a Alemanha ainda engatinhava nos seus primeiros anos de reunificação. Passaram-se os anos de ligas distintas entre as duas Alemanhas. Os últimos dois melhores do lado Oriental foram novamente integrados à disputa principal no país. Depois do surpreendente Kaiserslautern, foi o Stuttgart quem levou o primeiro caneco da Bundesliga completa, em 1991-92.

Naqueles tempos, o Bayern de Munique nadava de braçada e papava todos os títulos do país. A soberania nacional no futebol não passou na mão de muitos outros clubes neste período. Em 1988, o Werder foi campeão, em 1991 o Kaiserslautern chegou lá e em 1992 foi a vez do Stuttgart, que esperou oito anos para conquistar novamente a salva de prata. Durante a década de 90, Werder e Borussia Dortmund e Kaiserslautern romperam novamente o domínio dos bávaros.

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A história do Stuttgart é um ponto fora da curva naquela década. Baseado em atletas nascidos na Alemanha, o time treinado por Christoph Daum só tinha um estrangeiro como titular: o lateral iugoslavo Slobodan Dubaljic. O islandês Eyjólfur Sverrisson também integrava o plantel, mas quase sempre como reserva.

Sammer, o grande jogador do time
Sammer, o grande jogador do time

É verdade que o atleta mais notável atleta daquele elenco veio da Alemanha Oriental: o volante Matthias Sammer, que dançou na corda bamba entre a loucura e a coragem no time dos schwaben. Expulso duas vezes e com outros tantos cartões amarelos, o jogador marcou 11 gols e conseguiu ser um dos principais elos entre o meio e o ataque. Era um meia completo.

Além destes óbvios destaques, estava o capitão e zagueiro Guido Buchwald, o seu parceiro Gunther Schäfer, o atacante Ludwig Kögl e o meia Maurizio Gaudino. Ao longo da trajetória até o título, o Stuttgart de Daum se mostrou muito ofensivo e consciente nos contragolpes. Sammer se acostumou a dar arrancadas em velocidade até o gol adversário. Geralmente, o volante ruivo preferia achar espaços para que o artilheiro Fritz Walter (principal goleador da competição, com 22 tentos) completasse a jogada. A equipe era versátil, mas não trazia um jogo necessariamente inovador.

Buchwald cabeçada
Buchwald cabeceia em lance de bola parada contra o Leverkusen

Em 38 rodadas, o Stuttgart perdeu sete vezes e empatou 10, terminando a tabela com uma campanha oscilante. Só foi líder em três rodadas, entre elas a última, contra o Leverkusen, que culminou na conquista. O Dortmund, que foi vice-campeão, por exemplo, liderou em nove, mas perdeu fôlego na reta final. A grande marca deixada pela formação de Daum foi a defesa consistente. Buchwald e Schäfer formaram uma grande dupla de zaga que foi vazada apenas 32 vezes, a melhor marca da Liga. O saldo de gols só não foi melhor do que o do Eintracht Frankfurt, que marcou 76 e tomou 41.

Os adversários

Os outros clubes que tentaram o campeonato foram Borussia Dortmund e Eintracht Frankfurt. Era o começo do trabalho de Ottmar Hitzfeld nos aurinegros. O treinador conseguiu reunir uma equipe equilibrada em torno do matador Stephane Chapuisat, seu camisa 9. Já o Eintracht, treinado por Jorg Berger, era uma máquina ofensiva e contava com o empurrão de Tony Yeboah para chegar longe. O meia Andreas Möller também se destacava bastante, aos 24 anos.

Foto: Spiegel
Foto: Spiegel

Na antepenúltima rodada, os três primeiros venceram: o Stuttgart venceu o M’Gladbach por 1-0, o Dortmund bateu o Wattenscheid por 1-0 e o Eintracht derrotou o Karlsruher por 2-0. Tudo ficou para os dois últimos jogos. Até então, a ordem era Eintracht e Stuttgart com 49 e Dortmund com 48. Tudo podia mudar em apenas uma jornada.

O Eintracht, aliás, refugou no fim, depois de ter ficado na ponta por 18 rodadas ao longo da competição. Como Stuttgart e Dortmund vinham logo atrás e o Eintracht empatou em casa com o Werder Bremen por 2-2 na penúltima jornada, os concorrentes encostaram. O Stuttgart ainda somou um ponto quando arrancou um empate com o Wattenscheid por 1-1, dentro de casa. O Dortmund pôde sonhar quando bateu o Bayer Leverkusen por 3-1 no Westfalen, permitindo que o trio chegasse no último dia de disputa com chances de título e igual pontuação. Todos tinham 50 e estavam dispostos a uma guerra pelos últimos dois que renderiam a salva de prata.

O último dia: teste para cardíaco

A emoção perdurou até o fim das partidas envolvendo os postulantes. Os três jogavam fora de casa e precisavam vencer, de quebra torcendo por tropeços dos adversários nos outros horários. Os confrontos eram: Leverkusen x Stuttgart, Duisburg x Dortmund e Hansa Rostock x Eintracht.

Yeboah, o craque do Eintracht em 1992
O ganês Yeboah, o craque do Eintracht em 1992

O primeiro gol da tarde do dia 15 de maio de 1992 foi marcado aos nove minutos de jogo, em Duisburg, pelo Dortmund. O suíço Stephane Chapuisat espetou o gol das zebras e abriu o placar. Com os resultados de momento, os aurinegros eram campeões com 52 pontos, deixando com 51 o Stuttgart e o Eintracht.

Eis que aos 20 minutos, saiu mais um gol, agora em Leverkusen: Martin Kree, de pênalti, abriu o placar para os Aspirinas. Stuttgart estava caindo fora da disputa, 1-0 para os donos da casa. O marcador seguiu inalterado até os 43 da primeira etapa, quando em outro pênalti, os schwaben conseguiram o empate: gol de Walter, 1-1.

O gol seguinte foi em Rostock: Jens Dowe foi às redes para o Hansa e colocou o seu time em vantagem contra o Eintracht. Três minutos depois, os rubro-negros empataram com Axel Kruse. Neste cenário, o Dortmund era campeão da mesma forma, pois era o único que vencia.

Buchwald, 88′

Buchwald comemora o gol do título alemão. Foto: N24.de
Buchwald comemora o gol do título alemão. Foto: N24.de

O relógio marcava 88 minutos em Leverkusen. O Dortmund administrava a sua vantagem em Duisburg. O Eintracht tentava desesperadamente a virada em Rostock. Foi aí que a jogada capital do dia aconteceu na área dos Aspirinas. Bola alçada da ponta esquerda, zum zum zum no pagode e o capitão Buchwald subiu para testar: 2-1 para o Stuttgart, festa total da delegação e dos jogadores.

Eles esperavam o apito final nos três confrontos para soltar o grito. E ele veio dois minutos depois, em uma bobeada total da defesa do Eintracht: Stefan Böger recebeu um passe no campo de ataque, completamente sozinho, em contragolpe do Hansa. O zagueiro Uwe Bindewald ainda tentou recuperar e correr atrás, mas assim que Böger fintou o alucinado arqueiro Stein, logo após o círculo central, todos sabiam que a corrida do atacante do Hansa só iria acabar no gol. E assim foi, em segundos que marcaram a trágica derrocada do time que melhor jogava futebol na Alemanha naqueles tempos. Fim de jogo em Hansa, em Leverkusen e Duisburg.

O Stuttgart era campeão novamente depois de oito anos, graças a Buchwald e a sua firme testada para as redes. O último dia temporada 1991-92 acabou com festa dos schwaben, ponderações e confiança para o Dortmund e lamento para o Eintracht, que deixou uma conquista quase certa escapar por entre os dedos.

Abaixo, em alemão, um mini documentário sobre aquele 15 de maio.

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