Como a chegada de Dalglish mudou o Liverpool de patamar

Foto: Getty
Foto: Getty

Certos jogadores deixam uma marca tão grande por onde passam, que o nome fica eternamente vinculado a algum clube, o número da camisa vira uma espécie de amuleto e o torcedor fica de certa forma mal-acostumado com o sucesso e com a exclusividade que tal ídolo proporciona. Afinal, de contas, quem é que pôde ter Kenny Dalglish jogando pelo seu time? Só Celtic e Liverpool. E foi pelos Reds que ele fez mais história.

O ano era 1977. O Liverpool acabara de ser campeão europeu pela primeira vez em decisão contra o Borussia M’gladbach de Allan Simonsen, em Roma. Só naquela década, foram três títulos ingleses e uma Copa da Inglaterra, em 1974. Os Reds de Bob Paisley estavam por cima da carne seca. Mas para a temporada seguinte, a torcida sofreu um duro golpe: o atacante Kevin Keegan acertou com o Hamburgo e o time titular ficou carente de sua estrela.

Evidente que o Liverpool já era uma força e tinha vários atletas de nível internacional. Mas perder Keegan foi o indício de que as coisas iriam mudar. Para achar o substituto de “King Kev”, a diretoria viajou até a Escócia, mais precisamente em Glasgow, para fechar negócio.

LEIA TAMBÉM: “Leões de Lisboa”, a história do Celtic campeão europeu de 1967

A primeira temporada

Foto: Daily Mail
Foto: Daily Mail

O substituto que tinham em mente era um baixinho, branquelo, com cabelos loiros. Seu penteado era a marca da época: a costeleta enorme, o cabelo repartido, parecia um menino de 12 anos. Ou um quinto Beatle que chegou atrasado na gravação de “Let it Be” e perdeu a chance de fazer parte do maior quarteto musical deste planeta.

A parte boa é que Kenneth Mathieson Dalglish fez parte de outro grupo memorável: o Grande Liverpool dos anos 1980. Ele provavelmente não sabia cantar ou tocar guitarra, baixo, bateria como o Fab Four. Mas jogava bola como ninguém. Com o cartel de quatro títulos da Liga Escocesa e da Copa da Escócia, um atarracado e ligeiro atacante deixou o Celtic para assinar com os ingleses de Merseyside pelo valor impactante de 440 mil libras, uma fortuna para a época, que foi visto para os torcedores dos Hoops como alta traição.

Muitos não acreditaram que ele poderia estar à altura de Keegan. E diante de uma chuva de ceticismo, Kenny Dalglish se firmou como o novo camisa 7 de Paisley. O primeiro gol de Dalglish, aconteceu em 20 de agosto de 1977, contra o Middlesbrough, sem grande alarde pelo Inglês. Já na Supercopa Uefa, o antigo 7, Keegan e o seu sucessor ficaram frente a frente no tira-teima. O Liverpool amassou o Hamburgo por 6-0 no jogo de volta. O agregado somou 7-1 para os ingleses, que levaram a taça. Dalglish fez um dos gols na volta, mas quem brilhou foi Terry McDermott, que anotou três e levou a bola do jogo para casa.

Com o passar dos meses, Dalglish provou que era um jogador de alto nível. Suas jogadas de arranque e com excelente finalização deram o tom de um time que só não venceu a Liga inglesa em 1978 porque o fenômeno de Brian Clough no Nottingham Forest estava começando. O time de Cloughie levou o Inglês e viu o Liverpool sobrar na Europa novamente. Pela segunda final consecutiva, o vencedor era o time de Paisley. O adversário foi o Club Brugge e para a satisfação de Kenny, o único gol da noite foi dele, o que coroou mais uma campanha arrebatadora dos Reds.

Um novo rei

Foto: Daily Mail
Foto: Daily Mail

Dali em diante, a trajetória de Dalglish arrancou para o sucesso absoluto. Ele era tão talentoso quanto os seus colegas e conseguia fazer coisas incríveis. Sabia ser artilheiro, assistente e colocava a bola onde queria. Mesmo que sem ângulo, caindo, desajeitado, cercado por marcadores. De algum jeito, o gol saía. Do jeito de Kenny, de certo.

O primeiro título inglês de Dalglish veio em 1979, superando o Nottingham Forest por oito pontos na tabela. Só que o troco do Forest veio na Copa dos Campeões, eliminando os rivais ainda na primeira fase para ficar com o título. Em 1980, o feito foi repetido e a Liga permaneceu do lado vermelho de Merseyside, com vantagem de apenas dois pontos em cima do Manchester United.

LEIA TAMBÉM: O dia em que a torcida do Forest disse adeus a Clough

Até a quarta temporada, os gols de Dalglish diminuíram pelo Liverpool, o que não quer dizer que ele tenha feito poucos. Dos 31 inaugurais em 1977-78, o escocês reduziu o montante para 18 em 1980-81. Isso pouco importava, já que o time continuava com o seu reinado: os Reds faturaram a Copa dos Campeões em cima do Real Madrid e a Copa da Liga Inglesa, superando o West Ham. Era o sexto título de Dalglish, pulverizando por completo a saudade que os torcedores tinham de Keegan. Se alguém ainda duvidasse de que ele podia ser um bom nome para o lugar do seu antecessor, os gols e taças aos montes eram a resposta.

A única mancha grande neste período foi a derrota no Intercontinental de 1981, contra o Flamengo. Era a primeira participação do Liverpool na decisão, já que se recusaram a participar em 1977 e 78. O Fla de Zico e Nunes castigou os ingleses, que entraram em campo com certa arrogância. O placar acabou em 3-0 para os brasileiros, que comemoraram ali o grande título da sua história.

Depois disso veio o terceiro campeonato inglês, em 1982, espantando o Ipswich Town de Bobby Robson. Vieram mais três em 1983, 1984 e 1986, o terceiro com gosto especial, superando o rival Everton na tabela. Os Toffees foram campeões da temporada anterior, deixando o Liverpool em segundo. Naqueles tempos, o clássico de Merseyside esquentou demais com os constantes choques decisivos entre os clubes da cidade.

Foto: Independent
Foto: Independent

Além do tricampeonato inglês, o Liverpool também foi tricampeão da Copa da Liga de 1982 a 84. Em 1984, aliás, o time ainda varreu a Europa e derrotou a Roma em pleno Olímpico, em uma decisão de pênaltis. O gol foi marcado por Phil Neal e Dalglish esteve muito visado pela marcação, não conseguindo exercer seu jogo.

À aquela altura, Kenny já era o dono do time. Grobbelaar, Neal, Thompson, Souness, Hansen, Kennedy, Johnston e Rush. O grande craque era mesmo Dalglish, arquiteto de jogadas ofensivas e quase artísticas, com a bola no pé e driblando por onde ninguém esperava.

O veterano chegou para a temporada 1985-86 com 35 anos e já sem o mesmo gás de antes. Era aclamado como grande ídolo da torcida que nunca permitiu que ele andasse sozinho. Assumiu o cargo de treinador-jogador e viu mais do banco de reservas do que de dentro do campo o resto de seus anos memoráveis em Anfield.

O Liverpool levantou a taça do Campeonato Inglês e da Copa da Inglaterra, ambas batendo o Everton. Em Wembley, na final da Copa, Rush fez duas vezes e o placar foi de 2-1, completando a dobradinha. Dalglish participava bastante, mas fazia poucos gols. Se preparou melhor para ser técnico e abriu espaço para que outros jogadores fossem protagonistas. A base era praticamente a mesma do time campeão em 1984, envelhecendo pouco a pouco. De 1987 em diante, o camisa 7 apenas fez participações esporádicas, sem tanto brilho.

O chefe

Foto: Liverpool Echo
Foto: Liverpool Echo

Os últimos anos de Kenny em Anfield foram igualmente bem sucedidos. Ele curtia a sua nova posição como comandante e de vez em quando emprestava o seu velho talento aos titulares. Contudo, era raro vê-lo participar de grandes jogos. Em 1986, já havia sido campeão como o técnico em campo, mas o papel foi ficando restrito conforme a idade chegava.

Em 1988, 89 e 90, o Liverpool venceu seus últimos troféus na Era Dalglish. Duas vezes campeão inglês e uma da Copa da Inglaterra (depois da tragédia de Hillsborough), outra vez batendo o Everton. Ian Rush foi novamente o herói na decisão de Wembley em 1989, marcando duas vezes. Dalglish nem sequer entrou em campo, só ficou dando as ordens que achava necessárias.

O sucesso se encerrou em 1990, quando o Liverpool venceu o Inglês e entrou em um jejum que não foi quebrado até hoje. Ali, Dalglish se aposentava. Com cinco taças como técnico, mostrou que tinha maturidade para fazer a transição de uma vez por todas. Pendurava as chuteiras com a taça vencida com certa antecipação, já que os Reds não poderiam mais ser alcançados pelo Aston Villa. O reinado de Kenny durou até 1991, quando ele deixou o posto para se tornar dirigente. Alguns meses depois, aceitou o convite do Blackburn e ficou lá por cinco anos, até que os Rovers fossem campeões da Premier League.

O Liverpool deixava de ser a grande força do país quando Kenny se afastou de Anfield. E até hoje, a torcida espera outro título como aquele de 1990, o último antes da fila. Com Dalglish, os Reds conquistaram quase tudo que disputaram e foram por consequência os mais temidos do mundo nos anos 1980. Os 18 troféus que ele levantou como protagonista ou técnico (incluindo o da Copa da Liga de 2011 contra o Cardiff, em seu retorno como interino) mostram que o status de lenda é mais do que justificado, é o mínimo que o futebol pode fazer diante de tantas vitórias.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *