A batalha que pode causar o fim da Era Totti na Roma

FBL-ITA-SERIEA-JUVENTUS-ROMA

Aos 39 anos, Francesco Totti vive uma situação complicada em sua carreira. O grande ídolo romanista está em pé de guerra com o técnico Luciano Spalletti. Entretanto, pela primeira vez, ele não está em posição favorável e uma derrota política pode culminar na sua aposentadoria.

O noticiário esportivo italiano tem sido movimentado pelas declarações dos dois lados, inflamadas por um desabafo de Totti no último sábado, dizendo que merece mais respeito. Mas a queda de braço não consiste só nisso. O problema é muito maior do que pode parecer.

É o que conta o blog Romanista por um ano, que destrinchou toda a situação entre Totti-Spalletti-Pallotta, com um histórico das mudanças a que a Roma tem sido submetida nas recentes temporadas, explicando a rusga entre os envolvidos.

Confira no texto abaixo, publicado neste domingo:

Divórcio à italiana

O futebol atual é feito de treinador estrela, que gosta de aparecer mais do que seus comandados. As coletivas antes dos jogos viraram espetáculos, gerando sempre manchetes. O que acontece no gramado, às vezes, tem menos impacto que declarações de Mourinho, Van Gaal, Klopp, Conte & cia. ‘Special one’, ‘Normal one’, escolha o seu.

Rudi Garcia era um técnico de perfil discreto. Chegou falando e colocar a igreja de volta ao centro da vila e falando um italiano, que se não era perfeito, era bastante acima da média. Desde o primeiro dia, Garcia entendeu que na Roma quase tudo pode mudar, mas ninguém mexe com Totti. Nos dois anos que o francês dirigiu o time, a relação entre os dois foi bastante amigável.

Com Luciano Spalletti, Totti viveu uma das melhores fases da sua carreira. Não era incomum o técnico toscano ir jantar na casa do capitão. Eram amigos, mas na época da saída do treinador, as coisas entre os dois não andavam lá muito bem. Aquela era a fase final dos Sensi à frente da Roma e tudo funcionava como uma família.

American way

A nova propriedade liderada por James Pallotta chegou prometendo mundos e fundos. Prometendo, principalmente, respeitar a história, a torcida e os jogadores. A primeira mudança foi o escudo. O que já me deixou com a pulga atrás da orelha. Foram fazendo pequenas mudanças, mudando a cara da Roma, com a desculpa da modernidade. Trouxeram Luis Enrique, que não deu certo, entre outras coisas, pela peculiaridade do ambiente romano.

Futebol não é um produto nem pode ser administrado como uma empresa. Futebol mexe com a paixão das pessoas e isso os americanos nunca entenderão.

Já deixei claro que não gosto da direção da Roma. Acho que eles não têm respeito pelo esporte nem pela torcida. Acho vergonhoso como lidaram com a mudança de técnicos. Sobre os jogadores, prefiro não falar, uma vez que o mote é ‘Vim, vi e vendi’.

Sai Garcia, entra Spalletti

A saída de Garcia era iminente. O desgaste entre o francês, a torcida e parte da imprensa romanista era insuportável. Dentro de campo, a coisa era diferente. A cada gol, um abraço; a cada entrevista, um elogio. O time gostava do técnico e, mesmo sabendo que era impossível mantê-lo, tentava fazer a sua parte.

Se os jogadores tinham o treinador em alta conta, o mesmo não se pode dizer da diretoria. Durante semanas, vários nomes foram sondados. De Ancellotti a Mourinho, todos pediam muito dinheiro e contratações de peso, concessões que a direção não estava disposta a fazer. Nada além do velho ‘bom e barato’. Como uma ex-namorada stalker, Spalletti estava sempre rondando o Olimpico. Volta e meia pipocava uma entrevista sua, dizendo o quanto gostaria de voltar a treinar a Roma.

A maneira como a Roma gerenciou a saída de Garcia foi, no mínimo, constrangedora. Spalletti foi encontrar o presidente Pallotta em Miami. Saiu do encontro técnico da Roma com um contrato de 18 meses e um salário maior do que o combinado. O abraço entre o treinador e o presidente marcava não só uma nova era, mas o fim da vigente: a de Totti.

R-E-S-P-E-C-T

Nos dias que antecederam a partida entre Roma e Real Madrid, pela Champions League, Trigoria foi invadida pela imprensa espanhola. O objetivo, um só: entrevistar Totti. Os maiores jornais da Espanha dedicaram páginas ao capitão da Roma e teceram loas à sua parte na história do time.

Totti entrou em campo na partida, aos 42 minutos, 2 minutos depois que o Real tinha marcado o segundo gol. Pegou três vezes na bola. Saiu cabisbaixo. Na zona mista, respondeu ironicamente uma pergunta de um jornalista espanhol. Tudo devidamente registrado por um sacrossanto celular e colocado na internet em minutos.

Na coletiva pré-partida, quando perguntado sobre a reação de Totti ao jornalista espanhol, Spalletti respondeu:

“Eu considero Totti um jogador tão forte que o avalio como os outros. É importante que ele se sinta tratado como os outros. Nosso objetivo são os resultados, e para conseguir os resultados eu devo considerar o equilíbrio justo no contexto do time. Estou convencido que ele pode dar uma ajuda imensa na qualidade de nossa equipe e deverá fazê-lo de dentro do grupo. Não deve estar muito longe, caso contrário há o risco de que outros não consigam segui-lo. Ele precisa do grupo. Eu considero todas essas coisas. Esta semana Totti treinou bem. Faz algum tempo que treina continuamente, com exceção de algumas contusões que teve. Por mim está pronto para jogar. Eu não faço o corneteiro, no entanto, até eu, às vezes, contribuí para fazê-lo se sentir fora do grupo, na gestão anterior e isso não fez bem a ele e ao time. Ele consegue dar qualidade à equipe e tudo deve coincidir. Ele ultimamente tem estado comprometido e, portanto, posso chegar no contexto em que Totti será titular amanhã e isso não exclui Dzeko. Digo isto porque senão se coloca os jogadores em disputa por posição, algo que não existe.”

Poucas horas depois, Totti gravou uma entrevista com a jornalista Donatella Scarnati para a RAI, que teve um trecho exibido no TG1, telejornal da noite:

“Ainda me sinto um jogador de futebol e eu quero jogar, a contusão é coisa do passado: estou bem e se não entro é por escolha técnica.” “Assim não é possível, o banco me faz mal, entendo que na minha idade se jogue cada vez menos: mas terminar a carreira assim é horrível como homem e como alguém que fez tanto pela Roma.” “Spalletti? Com ele é só “Bom dia”e “Boa noite” “Eu estava esperando que as coisas que leio no jornal ele me dissesse na cara, mesmo como técnico eu o respeito, acho que tem as credenciais para ficar”. “Pallotta? Eu o espero para conversar sobre o contrato, que acaba em junho. Vou avaliar tudo. Espero que sejam corretos comigo e que me digam a realidade das coisas.” 

Na manhã desse domingo, algumas horas antes do jogo contra o Palermo, Spalletti comunicou Totti que ele não ficaria nem no banco. O capitão deixou a concentração e foi para casa. Os companheiros ficaram chocados. Nas redes sociais, a torcida condenou o Capitano, pela primeira vez. Surreal é a única definição para este dia.

OK, vamos ser racionais. A entrevista foi inoportuna e Totti é muito mal assessorado, porque uma coisa dessas sempre tem uma consequência. A coisa mais impressionante é que alguém aponte a saída de Trigoria para Totti, como se ele fosse um Balotelli, como se 25 anos de história não significassem nada. Alguém que chegou há um mês, se sente tão à vontade que manda embora o dono da casa. Que ano é hoje?

Filme antigo

Não é a primeira nem será a última vez que uma coisa do tipo acontece. Entre treinadores e jogadores sempre existirá uma fogueira das vaidades. A história que até hoje me gela o sangue é entre Conte e Del Piero. Pensando agora, não é muito diferente.

Del Piero sempre foi um ‘estorvo’ para Andrea Agnelli. Alguém com o carisma e o talento que ele nunca teve, amado pelo velho Agnelli como ele nunca foi. Para o vaidoso Antonio Conte não foi nenhum trabalho relegar Del Piero ao banco de reserva. De outubro a maio de 2012, quando fez sua última partida com a camisa da Juventus, Del Piero era o primeiro a chegar aos treinamentos. Treinava em separado e só se juntava ao grupo no coletivo da tarde. Nunca disse uma palavra.

Totti e Del Piero não poderiam ser pessoas mais diversas, mas representam o mesmo para suas torcidas. Os Spallettis, os Contes passam, e nós sabemos quem ficará pra sempre na história.

Para mais análises e cobertura do cotidiano giallorosso, visite o Romanista por um ano.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *