Litmanen: as lesões que mataram o futebol do craque do Ajax

Foto: Pinterest
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Louis Van Gaal estava recrutando quase todos os seus melhores jogadores do passado no Ajax para o Barcelona. Em junho de 1999, aproveitou da saída dos irmãos De Boer para o Camp Nou e aproveitou para fechar também com outra fera. Ele vinha de um lugar pouco tradicional no esporte e você nunca mais verá de novo naquela terra chamada Finlândia alguém como ele: Jari Litmanen.

No Barça desde 1997, Van Gaal ganhou impulso e uma grande quantia em dinheiro para montar o elenco que bem entendesse. Sem cerimônia, trouxe logo um caminhão de holandeses que viriam a fazer parte de uma identidade tão sonhada por Johan Cruyff no passado. Os patrícios que Cruyff sempre quis ter ao lado, Van Gaal pôde escolher a dedo.

Dos campeões europeus em 1995 com o Ajax que estavam no elenco de 1999 do Barça, estavam os De Boer, Patrick Kluivert, Michael Reiziger e até mesmo Winston Bogarde. Outros holandeses também marcavam presença como o goleiro Ruud Hesp, Boudewijn Zenden e Philip Cocu. Os reforços não poderiam reclamar de problemas de adaptação. Mas Litmanen, o camisa 10 daquele Ajax e idealizado como o cérebro do Barça de Van Gaal de 1999, não conseguiu repetir o sucesso.

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Foto: Ajax
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O finlandês passou sete anos com a camisa dos Godenzonen e com muito esforço e grandes jogadas, se tornou um dos favoritos da torcida. Chegou em 1992 a Amsterdã e brilhou nas conquistas do Ajax na década de 1990. Sabia muito fazer gols, mas essa não era a sua única especialidade. Também era um garçom, um artista de lances que não se vê todo dia. Os chapéus, voleios, rolinhos e assistências com certo grau de dificuldade fizeram dele uma estrela.

Jari não era um jogador complicado, ao contrário do que se pode pensar. Era um cara determinado. Saiu da fria e esquecida Finlândia para ganhar o mundo. Com ele, a tarefa de balançar as redes parecia fácil. Não fosse ele a empurrar a pelota para o gol, costumava deixar algum colega em condição de fazê-lo. Kluivert e Marc Overmars, por exemplo, foram consagrados por essa habilidade ímpar do meia.

Antes de partir para o Barcelona com os irmãos De Boer, Litmanen deixou algo grandioso para a sua torcida: foi quatro vezes campeão holandês, três vezes da Copa da Holanda, campeão da Liga dos Campeões, Supercopa Uefa e Mundial Interclubes. De 1990 a 2000, conquistou nove vezes o prêmio de maior futebolista da Federação Finlandesa. Mas isso, no caso, não era mais que a obrigação. Ele jamais teve um concorrente à altura. E nem terá.

A força física e o estilo incansável de jogo colocaram Jari no mapa dos grandes clubes da Europa. Artilheiro da Champions em 1995-96, estava em alta conta com rivais do Ajax fora da Holanda. Estimado até mesmo por seus companheiros como o “Mago Merlin”, Litmanen só tinha um problema: não conseguia evitar de se machucar.

De Merlin a Homem de Vidro

Foto: Colgados por fútbol
Foto: Colgados por fútbol

Especialmente nos últimos dois anos de Ajax, Jari ficou uma boa porção de jogos de fora por que sofria com problemas musculares, pequenas torções, entre outras enfermidades. Van Gaal provavelmente não sabia disso e mesmo assim insistiu em contratar o finlandês no segundo semestre de 1999. Chegou com pompa de craque, o novo camisa 10 e até deu conta do recado na primeira temporada.

O Barcelona ficou em segundo lugar e perdeu o título espanhol para o Deportivo La Coruña. Na Champions, eliminação para o Valencia, nas semifinais, resultados inaceitáveis perante o alto investimento feito. A frustração da diretoria resultou na demissão de Van Gaal, que em seguida assumiu a Holanda. Enquanto isso, Litmanen estacionava no departamento médico. Na temporada seguinte, em 2000-01, fez apenas 11 jogos, todos pelo Liverpool, clube pelo qual jogou emprestado no segundo semestre. Não voltou a atuar pelo Barcelona depois disso.

Litmanen chegou empolgado ao Liverpool e alegou que era torcedor do clube desde pequeno. Deu sorte de entrar em um time encaixado por Gérard Houllier e liderado por um inspirado Michael Owen. Das três finais disputadas pelo Liverpool naquela temporada, o finlandês ficou de fora das três, por diferentes contusões. A mais recorrente era no tornozelo. Os Reds levaram a taça da Copa da Inglaterra, Copa da Liga e da Copa Uefa, esta em dramática decisão contra o Alavés, vencida por 5-4.

As dificuldades retornaram na temporada seguinte, quando ele mal conseguia completar 90 minutos jogando. Fortes dores impediam que ele mostrasse seu total potencial. Aos 30 anos, o ex-camisa 10 e mágico do Ajax estava quebrado. Nem mesmo uma volta a Amsterdã recuperou o brilho.

Ele rodou, rodou, rodou, jogando mais com o nome do que com o que tinha de bola restante. Como ícone finlandês, aturou bons anos defendendo a seleção, até 2010, um ano antes de se aposentar. Já que o futebol lhe concedia espaço espaço, ele continuava tentando bater uma bolinha de vez em quando, longe do nível que o consagrou, atormentado pela sua fragilidade, mas com a mesma alegria de sempre.

A longa turnê de despedida

Litmanen pelo Lahti: foi o clube por qual ele mais jogou depois de sair do Ajax em 1999. Foto: Finnish Football
Litmanen pelo Lahti: foi o clube por qual ele mais jogou depois de sair do Ajax em 1999. Foto: Finnish Football

Jogou pelo Ajax por mais dois anos e ainda teve seus momentos, quando levou o título da Eredivisie em 2004. Daí em diante, fez praticamente uma turnê de despedida que durou até 2011. Passou duas vezes pelo Lahti, da Finlândia, pelo Hansa Rostock, da Alemanha (foi rebaixado), pelo Malmö, da Suécia (jogou 12 vezes em três anos), Fulham (nem sequer atuou em partidas oficiais) e HJK, o mais tradicional clube finlandês, por último.

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Enquanto esteve no Fulham, de janeiro a maio de 2008, teve de voltar para a Finlândia para fazer exames cardíacos, depois de passar mal e tomar um susto nos treinamentos. Os médicos na sua terra natal não detectaram nada que preocupasse e ele pôde ser liberado para retornar ao esporte. Fez apenas um jogo pelo time reserva dos Cottagers, três meses mais tarde, e foi dispensado. Assinou contrato com o Lahti e fez boas atuações como um bom e velho coringa.

Entrava pouco ou saía cedo nos jogos, mas dava resultado. A técnica ainda estava ali em algum lugar, ele insistia em continuar atuando porque sentia que podia dar mais de si. A história no Lahti acabou mal com o rebaixamento no Finlandesão em 2010. No ano seguinte, pelo HJK, continuou com o mesmo papel de “talismã”, fazendo aparições esporádicas e decisivas.

Acabou, Jari

Em outubro de 2011, acabou com o jogo da Liga contra o FC Haka, dando três assistências na vitória do seu clube por 5-2. Foi a sua despedida e coincidentemente, a partida de número 200 em sua carreira no país. Aposentou-se aos 40 anos como uma lenda, mas devendo muito uma sequência consistente de aparições em suas últimas 11 temporadas, tudo por causa das malditas lesões.

1 pensamento em “Litmanen: as lesões que mataram o futebol do craque do Ajax”

  1. Era um dos jogadores que eu mais gostava de ver que jogavam fora do Brasil. Anos 1990, os craques (ou boa parte deles) atuavam por aqui. Aquele Ajax de 1995 me fascinava ao ver jogar, e ele era um dos melhores que vi, na época imaginava ele, Francescoli e Romario como os melhores do mundo. Me recordo dele na ultima passagem no Ajax, poderia ter jogado mais (não fosse as lesões) e liderado um time fortíssimo: Sketelenburg; Grygera, Heitinga, Escudé e Maxwell; Galasèk (De Jong), Van der Vaart e Sneijder; Pienaar, Ibrahimovic e Mitea. Quase todos viraram jogadores de grande nível e poderiam ter ido além das fronteiras holandesas e erguido taças continentais pelo Ajax…

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