Giannini, o príncipe romanista ofuscado por Totti

Foto: Roma
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Em 9 de junho de 1991, a Roma conquistava a Copa da Itália diante da Sampdoria, em pleno estádio Luigi Ferraris, em Gênova. Com um empate por 1-1, os romanistas ficavam com a taça depois de terem feito 3-1 no Olimpico, pelo jogo de ida. Naquele momento, o capitão Giuseppe Giannini levantava a última de suas quatro taças pela equipe giallorossa. A última de uma era gloriosa.

Giannini era remanescente de uma geração brilhante em Trigoria. Formado nas categorias de base do time da capital, subiu ao profissional em 1982, mas só foi ter chances reais em 1984, ano que sucedeu o scudetto do time de Falcão, Di Bartolomei, Conti e Pruzzo.

Giuseppe cresceu acompanhando estes craques atuarem e até teve a chance de jogar um dia ou outro com eles pela Copa da Itália e amistosos desimportantes. Mas em 1984 pediu passagem para mostrar seu futebol, que não era pouco, só tinha forte concorrência. Falcão voltou ao Brasil para jogar no São Paulo e se aposentar. Foi neste contexto que Giannini deslanchou de vez. Não porque não tentou o suficiente, mas porque não podia peitar as estrelas já estabelecidas.

Quando evoluiu e ganhou chances efetivas como titular na campanha 1984-85, com 20 anos, provou que era um verdadeiro talento. O técnico não era mais Nils Liedholm, mas seu conterrâneo e promissor Sven-Goran Eriksson. A Roma foi parar nas quartas de final da Recopa Uefa, pelo título da Copa da Itália em 1983-84, um consolo pela perda da Copa dos Campeões da Europa, para o Liverpool, dentro do Olimpico.

A Roma queria se reerguer da maior frustração de sua história. E seus heróis estavam envelhecendo. Falcão fazia a última temporada na Itália, aos 31 anos. Bruno Conti, Roberto Pruzzo e Toninho Cerezo estavam com 30, enquanto o atacante grandalhão Francesco Graziani tinha 32 nas costas. O capitão Di Bartolomei, outro veterano, foi negociado com o Milan de Liedholm, sendo a ponta do iceberg de mudanças a que os giallorossi foram submetidos. Carlo Ancelotti, queridinho da diretoria, foi um dos que ficaram para testemunhar o lento naufrágio da agremiação.

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Luz no fim do túnel

Foto: Corriere dello Sport
Foto: Corriere dello Sport

Mas Giannini, para dar esperanças ao seu povo, era mesmo muito bom. Sua forma de carregar a bola, driblar e fazer seus passes, era uma injeção de juventude e motivação naquele time que um dia fora fantástico. Os tempos mudaram e a torcida se acostumou a ver o menino entre os gigantes. O menino cresceu até se tornar uma lenda, capitaneando o time com a mesma competência que Losi, Di Bartolomei e Ancelotti fizeram antes dele, entre outros que vestiram aquela braçadeira.

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Ninguém ousa questionar o quanto ele jogou bola. Mesmo porque, foi o grande craque da transição entre as vitórias e as vacas magras. Ao todo, foram 15 anos de dedicação ao clube, que se afundou em dívidas e perdeu seus ídolo, substituindo-os com jogadores não tão empolgantes assim. Quem tinha talento, se sobressaía, como fez Aldair, o Pluto, ou Rudi Völler, entre outros alemães de igual reconhecimento que passaram por Trigoria.

Os anos foram passando. Em 1986, por exemplo, houve o que comemorar. A Roma bateu a Sampdoria na final da Copa da Itália e Giannini conquistou seu terceiro troféu pelo clube. Cerezo fez o gol do título, aos 44 do segundo tempo. Pela Serie A, ficaram em segundo lugar, atrás da Juventus, por quatro pontos. Contudo, era nítido que  esquadrão grená não causava mais delírio ou encantava a torcida. Estava caminhando para anos difíceis.

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Giannini destoava demais do elenco. Era um craque natural, um camisa 10 completo que sabia orquestrar seu meio-campo e ainda mostrar excelência para encostar no ataque e fazer gols. Se precisasse, acelerava seu tempo de reação para deixar adversários para trás, uma técnica repetida à exaustão ao longo da sua carreira. A bola colava nos pés enquanto o maestro romanista disparava no gramado.

Depois de se tornar uma realidade, Giannini virou o Príncipe. Não como o Rei Paulo Roberto, mas sim um claro sucessor do camisa 5 brasileiro que tanto fez pelo povo romanista. Em 1987-88, Giannini, o capitão teve grande destaque como artilheiro da Roma na temporada, com 12 gols. O time acabou em terceiro na Serie A, perseguindo o Milan e o Napoli de Diego Maradona. Os napolitanos, aliás, roubaram o lugar dos giallorossi entre os principais concorrentes ao título, batendo com Milan, Juve e Inter.

A fase final

Foto: Calcio e Finanza
Foto: Calcio e Finanza

Ao lado de Bruno Conti, Giuseppe sobrou e viu o seu amado clube amargar anos fora das disputas na Itália. Foram campanhas medianas e times cada vez mais fracos até 1991, quando um valente time treinado por Ottavio Bianchi conseguiu ser campeão uma vez mais, na Copa da Itália. Outra vez, contra a Sampdoria. Quando chegaram craques ao elenco, Giannini impunha seu peso e mostrava quem é que mandava nos vestiários. Nada muito diferente de capitães com vida longa dentro de alguma equipe. Renato Gaúcho foi um deles, falhando miseravelmente em ter boas atuações pela Roma em sua passagem por lá.

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O que veio depois disso não foi nada animador. Uma derrota para a Inter na final da Copa Uefa, participações fracas na Serie A, outra decisão perdida em 1993, na Copa da Itália, contra o Torino, em um jogo maluco que terminou em 5-2 para os donos da casa no Olimpico. Entretanto, o Toro conseguiu ser campeão graças aos gols marcados no campo do adversário.

Começava ali uma era de decepções que durou até 2001, com o scudetto. Mas Giannini comeu o pão que o diabo amassou sendo o líder de um bando que esteve muito abaixo do que a Roma poderia fazer dentro e fora da Itália. Em 1993, surgiu na base o nome que viria a ser o legítimo sucessor de Giannini. E o menino era bem fã do camisa 10: Francesco Totti.

Os dois jogaram juntos por três anos, com ênfase em 1994-95, quando Totti se firmou. O meia tinha diversos pôsteres de Giannini no quarto e para ele, foi surreal se juntar ao ídolo para defender o time do coração, mesmo que naqueles tempos fosse uma tarefa hercúlea continuar lá para fazer parte de um trabalho mediano.

Foto: Romanticamente Calciofili
Foto: Romanticamente Calciofili

Giannini não quis ficar para saber como seria se aposentar com o peso da frustração de não ter dado mais um troféu ao seu torcedor. Em 1996, saiu para o Sturm Graz da Áustria, onde ficaria apenas um semestre. E deixava um legado para os mais jovens. Ao lado do técnico Carlo Mazzone, deixou o clube e a faixa de capitão para Aldair, porque a Roma já pertencia ao moleque que ele ensinou tão bem.

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Totti é o que é porque conseguiu conviver com Giannini e aprendeu com ele a jogar o seu exuberante futebol. Os dois possuem algumas coisas em comum, como o fato de terem conquistado uma vez a Serie A (Totti foi titular, capitão e líder, Giannini era só parte do elenco) e também deixarem boas memórias a quem acompanhou a seleção da Itália. Francesco também vence neste quesito, com o título de 2006. Giuseppe leva a melhor nos títulos da Copa da Itália, com três, superando os dois de Totti.

Homens talentosos e saudados por todo romanista ao redor do mundo. Dois camisas 10 geniais e lendários. Mas só um ficou até o fim da carreira no mesmo time, apesar de partilhar da agonia do outro em ficar muito tempo sem disputar nada. O que não quer dizer que Giannini tenha sido um traidor. Pelo contrário: foi atleta do Napoli e o último grande craque do Lecce, que conseguiu subir para a Serie A em 1998-99. Giannini se aposentou ali.

Um pensamento em “Giannini, o príncipe romanista ofuscado por Totti”

  1. Itália tinha um dos melhores elencos de todos os tempos. Donadoni, Giannini, Baresi, Maldini, Bergomi, Zenga, Vialli, Mancini, Baggio. Perdeu pela burrada do técnico Vicini em não escalar Baggio desde o início contra a Argentina. Time muito mais técnico (e melhor) que o de 2006. Difícil outro elenco desses.

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