O amor da torcida do Deportivo por Bebeto é fácil de explicar

Bebeto Deportivo

Bebeto deixou o futebol brasileiro pela primeira vez em 1992, saindo do Vasco para assinar com o Deportivo La Coruña. Há quem diga na Galícia que o brasileiro foi a maior contratação da história do clube, pelo que viria a fazer nos anos em que defendeu a camisa azul e branca. Fato é que Bebeto é admirado pela torcida deportivista e isso é facilmente explicado pelo tremendo impacto que ele causou no Riazor.

Para que se entenda o momento em que Bebeto chegou ao Deportivo, é preciso voltar um pouco no tempo. Formado no Vitória e contratado pelo Flamengo como talento para o futuro em 1983, o baixinho atacante baiano conquistou duas vezes o Campeonato Brasileiro com a camisa rubro-negra, ao passo de considerar o Fla o seu time do coração.

Nessas voltas que o destino dá, Bebeto acabou trocando o Flamengo pelo Vasco em 1989, em uma das transações mais bombásticas do futebol brasileiro. Graças a um acordo entre a Federação e o clube cruzmaltino, o pequeno artilheiro emprestou seus gols e sua velocidade ao Vasco, que acabou campeão brasileiro naquele ano, com gol de Sorato.

LEIA TAMBÉM: A história da polêmica transferência de Bebeto para o Vasco

Bebeto ficou três anos no Vasco até aceitar uma proposta do modesto Deportivo La Coruña, que estava montando um time repleto de brasileiros na década de 1990 e ambicionava ser campeão de um troféu na primeira divisão. Até então, os galegos não sabiam o que era levantar uma taça que não fosse da segunda divisão espanhola.

Em três temporadas e meia, Bebeto se consolidou como um dos maiores ídolos da torcida, disputando de forma ferrenha com jogadores formados lá. O mito em torno do atacante cresceu especialmente depois da Copa do Mundo de 1994. Ele já estava em grande forma, mas voltar ao Riazor como campeão mundial ampliou ainda mais a admiração que os fanáticos tinham por ele.

Vindo do Bragantino no mesmo ano, o volante Mauro Silva ajudou Bebeto na adaptação à Espanha. Outros estrangeiros notáveis do Deportivo eram o iugoslavo Miroslav Djukic e o búlgaro Ilian Kiriakov. Destacados também estavam o meia Fran e o lateral Nando, que chegou de graça ao clube depois de uma passagem pelo Valencia.

SPANISH SOCCER

O Depor ainda teria outros notáveis reforços, mas só com estes nomes em 1992-93, surpreendeu e ficou com o terceiro lugar na Liga Espanhola, atrás de Barcelona e Real Madrid. Começava ali a trajetória do Super Depor, que bateu de frente com os gigantes pela soberania nacional. A excelente campanha veio com apoio maciço de Bebeto, que terminou a competição como artilheiro, marcando 29 gols. Nada mal para um estreante.

Para o ano seguinte, o elenco era quase o mesmo, exceto pela saída de Kiriakov e pela chegada de Donato, volante brasileiro que estava no Atlético de Madrid e se naturalizou espanhol em 1994. Ali estava formada a base do time que seria campeão da Copa do Rei no ano seguinte.

LEIA TAMBÉM: Nem sempre a Espanha foi polarizada por Real Madrid e Barcelona

E pela Liga, o Deportivo foi ainda mais longe: peitou o Barcelona e só perdeu o título na última rodada ao empatar com o Valencia em 0-0 dentro de casa. O jogo ganhou contornos de drama porque Djukic perdeu um pênalti no último minuto e isso fez com que o Barça ultrapassasse os galegos na classificação. Foi vice-campeão depois de liderar em 23 jornadas. Um choque para quem chegou tão longe.

O título depois da chuva

Deportivo La Coruña 1995
O primeiro Super Depor, de 1995.

Outra vez o desempenho na Liga foi marcante e o Deportivo terminou em segundo lugar. Mas não foi exatamente por este motivo que 1995 foi tão especial para os torcedores deportivistas. Naquela temporada, finalmente a torcida em La Coruña pôde comemorar. Se no campeonato o vencedor foi o Real Madrid, pela Copa do Rei quem levou foi o pessoal da Galícia.

E não foi com pouco drama não. Sorteado apenas na fase de oitavas de final, o time treinado por Arsenio Iglesias ganhou o reforço dos experientes Emil Kostadinov, um dos craques da Bulgária na Copa de 1994 e de Julio Salinas, titular da Espanha na mesma Copa. Até chegar na decisão, o Deportivo derrubou Lleida, Athletic Bilbao e Sporting Gijón.

Com Real Madrid e Barça fora das finais, restou enfrentar o Valencia, em um confronto que tinha tudo para terminar bem, em uma redenção do pênalti perdido por Djukic no ano anterior. Em 25 de junho de 1995, o Santiago Bernabéu foi o palco de uma história inédita protagonizada pelo meia Alfredo Santaelena. Do outro lado, o também tetracampeão Mazinho alinhava com Mijatovic e Penev para buscar um título para os valencianos.

Quando a bola rolou, o Depor tomou conta das ações. Chutou muito ao gol de Zubizarreta, sem sucesso: o experiente arqueiro estava firme debaixo das traves dos Che. O Valencia respondeu com Mijatovic, que cabeceou e testou os reflexos de Liaño. Um vacilo da retaguarda valenciana resultou no primeiro gol da noite. Manjarín roubou a bola de Giner e saiu de frente para Zubizarreta. O atacante só tocou por cima e abriu o placar aos 35 minutos iniciais.

LEIA TAMBÉM: Como Viola, Romário e Marcelinho viveram fases ruins pelo Valencia

O Valencia reagiu e quase empatou em duas chances ainda no primeiro tempo. A etapa final correu com muita chuva e Mijatovic bateu uma falta perfeita para deixar tudo igual, com 25 minutos no relógio. O campo estava repleto de poças e o clima piorou logo depois, quando uma chuva de granizo inundou o gramado e impediu a realização dos 10 minutos finais. A Federação determinou que estes 10 minutos seriam jogados na segunda-feira seguinte, em 27 de junho. Em caso de empate, eles teriam de fazer a prorrogação, como mandava o regulamento.

Quando o árbitro apitou para que o restante da partida fosse iniciado em 27 de junho, o Deportivo logo se mobilizou. Manjarín carregou até o meio, perto da área, e cruzou. Alfredo Santaelena, que havia substituído Adolfo Aldana, subiu para cabecear. Mas a primeira testada foi fraca. Alfredo ainda conseguiu corrigir a trajetória da bola para dividir uma segunda vez pelo alto, desta vez com Zubizarreta, e venceu: 2-1 para os blanquiazules.

O grande artilheiro

Bebeto Depor

Bebeto também esteve em campo na disputa da Supercopa da Espanha, contra o Real Madrid, quando o seu time venceu por um impiedoso 3-0. O camisa 11 fez o terceiro e último gol do duelo, consolidando mais uma taça para o Deportivo. Donato fez o primeiro e Fran o segundo, em um grande passeio. No banco de reservas não estava mais o professor Arsenio Iglesias. Para o seu lugar, veio o galês John Toshack e o time começou a minguar em consequência disso.

Autor de 102 gols com a camisa dos galegos, Bebeto é o terceiro maior artilheiro da história do Depor, atrás apenas de Diego Tristán e José Luis Veloso. No início de 1996, o atacante voltou para o Brasil para assinar com o Flamengo, tentando consertar a injustiça de 1989, quando trocou o Rubro-negro pelo Vasco. Sem ele, os blanquiazules ficaram em nono no Espanhol e foram até as semifinais da Recopa Uefa, caindo para o Paris Saint-Germain.

O clube apostou em outros brasileiros como Rivaldo e Flávio Conceição em 1996-97, mas foi só em 2000 que a glória tão esperada veio. A mesma base do time de 1995 alçou o Super Depor ao título espanhol, com a adição de Djalminha, Lionel Scaloni, Roy Makaay, Pauleta, Noureddine Naybet e Manuel Pablo.

Gols, grandes atuações e o saudosismo pelo início dos melhores tempos do Deportivo: Bebeto ainda é idolatrado em La Coruña pelo que fez ao ser a principal estrela do primeiro Depor campeão. Ele ainda voltou para a Espanha e defendeu o Sevilla ao fim de 1996, mas não marcou gols nos cinco jogos que fez.

O fim de carreira no Brasil foi longe das expectativas do baiano. Rodou por Vitória, Cruzeiro, Botafogo, pelo futebol mexicano, jogou no Kashima Antlers, outra vez no Vitória e no Vasco e se aposentou pelo Al-Ittihad, em 2003. De todos estes clubes, não há outro que seja tão grato aos seus serviços como os galegos de La Coruña.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *