Como o Porto recuperou a fase final da carreira de Juary

Foto: Uefa
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Desde que saiu do Santos em 1979, o atacante Juary, um dos primeiros Meninos da Vila, sentiu que a sua carreira poderia ser mais do que realmente foi. Matador do time que foi campeão paulista de 1978, o craque passou por temporadas sem destaque no esporte até ser transferido para o Porto, aos 27 anos. E essa passagem por Portugal marcou para sempre a sua vida e a dos portistas.

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Quando o Santos foi campeão com Juary na sua linha de frente, era de se esperar que ele resgatasse as glórias dos tempos de Pelé, que se aposentou mais cedo na mesma década de 1970. No entanto, o clube não repetiu o sucesso do Paulistão de 1978 e em 1980, vendeu o atacante, em má fase, ao futebol mexicano. Ele foi parar nos Leones Negros. Ficou no México até 1982, quando encaminhou sua transferência para a Itália.

Memórias não tão boas de verões italianos

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Juary em sua primeira temporada pelo Avellino /Foto: Tuttosport

Cercado de expectativas, Juary teria chance de atuar por uma grande liga que vivia uma década dourada. Mas o primeiro clube do carioca na Itália acabou sendo o Avellino, que não era um dos concorrentes ao título. Estar entre os grandes ensinou muito a Juary, mas esportivamente ele não estava desfrutando do futebol. Marcava poucos gols, perdeu o brilho.

Atuou ainda pela Internazionale, pelo Ascoli e pela Cremonese, quase sempre como reserva. Pela Inter, aliás, não conseguiu espaço e viveu o que pode ser considerada a pior fase em sua carreira. Infeliz e sem chances de balançar as redes, admitiria anos depois que gostaria de esquecer a passagem pela equipe nerazzurri, tamanho desgosto com a situação.

Foi então que em 1985, o Porto resolveu acrescentá-lo ao seu plantel. A ideia inicial do técnico Artur Jorge era que Juary fosse o suplente de Fernando Gomes, um dos grandes ídolos dos Dragões na época. Juary seguiu fazendo o que sabia. Quando entrava, dava conta do recado, passou a ser um talismã do Porto na Liga. A concorrência com Gomes, Madjer e Paulo Futre não dava tantas chances para que o brasileiro tivesse êxito. Na primeira temporada, marcou apenas 7 gols. Mas foi na segunda é que finalmente deixou a sua marca.

Os portugueses queriam saber onde estava aquele goleador implacável do Santos. E Juary, que sabia das coisas, adaptou seu jogo para ser um coringa, não um camisa 9. Mais experiente e bom atleta coletivo, o jogador estava pronto para cumprir bem seu papel quando saísse do banco. E assim foi na temporada 1986-87. Dono da Liga Portuguesa em 1986, o Porto se classificou para a Copa dos Campeões da Europa, onde faria mágica.

A arrancada e o gol surpresa

Foto: Uefa
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Mais confiante, mesmo como reserva, Juary tentava aproveitar as chances que tinha. O Porto foi derrubando os adversários, um a um, até chegar na final. Amassou o Rabat Ajax, de Malta, depois o Vitkovice da Tchecoslováquia, o Brondby da Dinamarca e o Dynamo Kiev, adversários não muito complicados quanto os que o Bayern encarou em seu caminho.

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Na decisão, disputada em Viena, o Porto chegava como o azarão, enquanto o forte Bayern de Lothar Matthäus ostentava favoritismo. Os germânicos deram as cartas primeiro com Ludwig Kögl, que abriu o placar aos 24 minutos. Mas o Porto não estava disposto a entregar tão fácil a taça. O intervalo foi marcante para os Dragões, que voltaram com outro espírito para o segundo tempo.

O tempo passava e nada do gol de empate acontecer. Juary, que estava em campo na vaga de Quim, provavelmente não teria ideia de como a sua participação seria importante. O relógio marcava 77 minutos quando Futre costurou a defesa bávara e tocou para trás. O argelino Madjer, com maestria, meteu um calcanhar na bola e empatou o jogo.

Menos de três minutos depois, como um raio, o Porto voltou a atormentar a defensiva do Bayern. E desta vez para resolver tudo. Madjer, o nome da final, bagunçou com Winklhofer e cruzou da ponta esquerda. Bem posicionado, Juary só espetou para o alto, com tranquilidade, sem a interferência do goleirão Pfaff. Bola na rede, Porto 2-1, campeão da Europa em 1987.

O camisa 13 foi de subestimado a herói da maior conquista do Porto naquela época. Por anos eles se viam aprisionados na inferioridade que era ver o rival Benfica ostentar seu título com a genialidade de Eusébio. Duas décadas depois, puderam ser libertados graças a Madjer e Juary, os responsáveis por fazer do dia 27 de maio de 1987 um marco histórico para quem vestia azul e branco em solo lusitano.

Mais do que libertar a torcida do Porto, Juary libertou a si mesmo do estigma de reserva que não cumpriu o que prometeu desde que saiu do Santos para o futebol internacional. A sua carreira, contudo, não teve muito mais sucesso que aquilo: pelos Dragões, foi bicampeão português, europeu, da Taça de Portugal, da Supercopa da Europa e do Mundial Interclubes, apesar de não ter entrado em campo contra o Peñarol em Tóquio.

Juary voltou em 1988 ao Brasil, para jogar na Portuguesa, antes de ser contratado pelo Boavista de Portugal, onde não teve grandes momentos. Ainda defendeu o Santos em 1989, quase irreconhecível. Encerrou a carreira em 1992 após passagens discretas pelo Moto Club e pelo Vitória do Espírito Santo.

O saudosismo acerca do jogador pode ser explicado pela conquista emocionante com o Santos e certamente pelo gol que selou a conquista europeia do Porto, o gol mais importante de sua vida, aquele que eternizou a sua camisa 13 na noite vienense e no imaginário portista.

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