Antes de Henry, houve Rocastle no Arsenal. Mas sem final feliz

Foto: Daily Mail
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De 1999 a 2007, a torcida do Arsenal festejou a presença de um monstro na sua linha ofensiva. O francês Thierry Henry ganhou o posto de líder técnico em uma equipe inesquecível que conquistou quase todos os troféus que podia, de forma imponente. Titular e craque dos “Invincibles”, equipe dos Gunners que foi campeã invicta do Inglês, Henry foi o sucessor de um homem que hoje pode parecer desconhecido para o grande público: David Rocastle.

Em 1984, David estreava pelo time profissional do Arsenal. Era meia e também atuava pelas laterais do campo, não fazia muitos gols, mas compensava com boa técnica, força física e assistências. Foi ganhando espaço no time até se tornar titular. O começo foi complicado, já que o garoto não enxergava bem e teve de ganhar lentes de contato depois dos primeiros meses. Mas deslanchou como um ótimo armador e evoluiu demais até o fim da década de 1980.

Os gunners mais antigos guardam doces lembranças de Rocastle, a quem chamavam de Rocky. Uma prova deste carinho é o livro “Fever Pitch” (Febre de Bola), de Nick Hornby. Por mais que as derrotas afetassem a autoconfiança de Hornby durante a juventude e o início da fase adulta, Rocastle e o Arsenal de George Graham redimiram o sofrimento de toda uma geração.

O título mágico

Foto: Arsenal
Foto: Arsenal

O primeiro título de Rocky com o Arsenal veio em 1987, na Copa da Liga inglesa, diante do Liverpool. Mas não foi isso que fez dele um ídolo em Highbury. Foi a assiduidade e a presença em uma das partidas mais épicas da história dos Gunners. Na temporada 1988-89, o Arsenal lutava para tirar o título da mão do Liverpool, assim como na Copa da Liga em 1987. Pela última rodada, os dois se enfrentaram e o time de George Graham precisava fazer 2-0 no placar, em pleno Anfield.

Os Reds entraram em campo com a vantagem de jogar em casa e de poder perder por até 1-0 para levarem o título. Uma semana antes, conquistaram a Copa da Inglaterra contra o Everton em Wembley. O que todos viram em Anfield e pela TV foi um verdadeiro drama.

Rocastle teve uma atuação sublime, apesar de não ter marcado nenhum gol naquela tarde de 26 de maio de 1989. Ao lado de Michael Thomas, Rocky ganhou status de lenda com os torcedores visitantes. O primeiro gol do Arsenal saiu graças a Alan Smith, de cabeça, já no segundo tempo. As chances eram pequenas de que os Gunners levassem a taça, mesmo porque não venciam em Anfield desde 1974 e o Liverpool não perdia por dois gols de diferença em casa desde 1986. Tudo jogava contra os meninos de Graham.

Foto: Daily Mail
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Aos 89 minutos, o Arsenal vencia por 1-0, mas o campeão era o Liverpool. Só outro gol deixaria o time em vantagem sobre os Reds, no saldo de gols, já que empatariam em número de pontos. Barnes perdeu a bola na área do Arsenal e iniciou-se ali um contragolpe inesquecível.

O goleiro Lukic repôs a pelota e acionou Lee Dixon, que lançou Alan Smith na intermediária. O atacante fez a parede, dominou e jogou por cima para Thomas, que vinha embalado de trás. O meia recebeu, ajeitou e ainda contou com um desvio em Nicol, após um chapéu que não deu certo. Quando entrou na área, Thomas estava sozinho de cara para Grobbelaar, mas deu alguns passos, hesitou e chutou metendo uma casquinha na bola. O lance parecia que resultaria em interceptação da defesa do Liverpool, mas para a sorte dos londrinos, parou no fundo das redes.

Rocastle viveu alguns dramas nos três anos seguintes. Foi cortado do elenco que iria disputar a Copa do Mundo de 1990 pela Inglaterra e ainda se lesionou repetidamente, perdendo muito da sua técnica que pôde ser vista naquela campanha memorável de 1989. O ídolo ainda estava ali, mas sofrendo para poder mostrar seu jogo. Em 1990-91, atuou apenas 16 vezes, enquanto na temporada 1991-92, fez 39 partidas, claramente demonstrando empenho.

A transferência contra a vontade

Foto: Old School Panini
Foto: Old School Panini

O que poucos entendiam é que David era parte da torcida. Virou Rocky por causa dela e de seu talento, incontestável e prejudicado pelas lesões. De repente, o maestro da camisa 7, aclamado por qualquer gunner, virou uma moeda de troca na visão da diretoria. Alegaram que ele estava acima do peso e sem o mesmo brilho de antes quando venderam-lhe para o Leeds United por 2 milhões de libras.

Em 1992, os Lilywhites ganhavam uma reposição futura para uma eventual saída do escocês Gordon Strachan, enquanto o Arsenal perdia um carismático meia que aos 25 anos era considerado “acabado” para os padrões dos titulares. Rocastle não queria sair, mas foi praticamente obrigado a deixar o Highbury por causa da verba de transferência.

A história, por si, não é nova. Quantos outros jogadores não eram craques em um ano e dispensáveis no outro? A ingratidão de clubes e muitas vezes até da torcida é um elemento bastante comum no futebol. Rocastle, que não era lá um Liam Brady, acabou sem tanto prestígio, vendido contra a vontade. Infeliz em Elland Road, passou novamente por um período repleto de contusões e sem tantas partidas. David ainda encontrou forte concorrência na posição, o que pesou em uma nova mudança, desta vez para o Manchester City, em 1993.

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Rocky ainda jogou no Chelsea, de 1994 a 98, pelo Norwich e pelo Hull City em 1997 e encerrou a carreira jogando no Sabah, da Malásia. Obviamente à sombra do que foi com a camisa do Arsenal. Mas o duro golpe de ter sido preterido pela diretoria viria anos mais tarde. Em 2001, David morreu depois de anunciar que estava tratando um linfoma que atacou seu sistema imunológico. Rocky chegou a se submeter a sessões de quimioterapia, mas não resistiu e faleceu em março, com 33 anos.

Em entrevista ao Guardian, no obituário de Rocky, o ex-atleta do Arsenal Paul Davis, declarou que o meia nunca superou sua saída do clube e que a queda de rendimento nos anos seguintes podia ser explicada pela sua decepção no momento da despedida.

“Ele chorou. Falamos sobre isso muitas vezes. Ele não entendia por que deixaram ele sair. O clube afirmava que ele estava lesionado, sofrendo e fora do peso ideal, ele operou o joelho meses antes. Creio que ele nunca se recuperou do fato de ter saído do Arsenal”, disse Davis.

Ficamos apenas com as interrogações. Poderia o Arsenal ter sido um pouco mais grato ao que Rocastle fez em campo? Ou realmente o jogador não estava à altura do time que o lançou ao estrelato? Foram 260 jogos e 34 gols com a camisa dos Gunners. Falando do ponto realista e desprendido de saudosismo ou paixão, é compreensível que ele tenha sido descartado. O futebol é mesmo cruel com os seus artistas, eles precisam estar sempre em alto nível para comprovar o status que desfrutam.

Mas Rocky jamais será esquecido enquanto houver um torcedor vivo que tenha testemunhado a sua passagem por Highbury. Lendas são feitas quase sempre em momentos mágicos, inacreditáveis, diante de obstáculos que parecem impossíveis. Aquele título de 1989 contra o Liverpool e quem quisesse duvidar é uma prova disso.

Até hoje se ouve se ouve a frase de Rocky nas arquibancadas do Emirates Stadium, por mais que elas nunca tivessem ovacionado o meia em seus tempos áureos: “Lembre-se de quem você é, o que você é e quem você está representando”.

Apenas em 2006, portanto 14 anos depois de sua saída, o Arsenal prestou a devida homenagem. O centro de treinamento de jovens no futebol de salão do clube leva o nome de David Rocastle.

O meia, por outro lado, nunca mais foi nada no futebol fora do Highbury. E talvez este seja o aspecto cruel da sua venda forçada. É sem dúvida uma lição de que devemos saber reconhecer e respeitar nossos ídolos. Henry, retratado no início do texto, ganhou até uma estátua na frente do Emirates Stadium. O francês, mais do que ninguém entendeu a célebre frase do falecido camisa 7.

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