Quando o futebol consagrou o carisma de Zé do Carmo

Foto: Memórias do Santa Cruz
Sorridente, Zé do Carmo é o capitão do Santa Cruz em 1985 /Foto: Memórias do Santa Cruz

Tetracampeão pernambucano pelo Santa Cruz, campeão carioca e brasileiro pelo Vasco, com passagem pelo futebol português e certamente muito carisma. Este é o currículo de Zé do Carmo, um volante diferenciado que foi parar na Seleção Brasileira e tem muita história para contar.

Duas torcidas em especial podem falar e muito sobre o atleta. Formado no início da década de 1980 pelas equipes de base do Santa Cruz, Zé do Carmo surgiu como um bom cabeça de área que cobria a defesa e ainda era capaz de ajudar na distribuição de bola ao ataque. Em 18 anos de carreira, defendeu sete clubes e ganhou sete taças, a maior delas pelo Vasco.

Antes de ser contratado por uma das principais equipes brasileiras do fim dos anos 1980, Zé do Carmo desenvolveu seu futebol no Santa e conheceu algumas figuras importantíssimas no Arruda, como o zagueiro Ricardo Rocha e o meia Henágio, dois craques que estiveram presentes no título estadual em 1983.

Prata da casa, ganhou muito cedo a braçadeira de capitão do Santinha e quando foi campeão em 1983, pela primeira vez na sua carreira, já era o líder do time, com 22 anos. Dividia com Ricardo Rocha o papel de xerifão. Fez muito sucesso em Recife e é considerado um dos grandes ídolos do clube tricolor. Em 1987, pela Copa União, protagonizou um episódio curioso contra o Flamengo, no segundo turno da competição.

A falta de Zico

Zico estava com a bola toda e marcou três gols no placar de 3×1 diante do Santa, dentro do Maracanã. A rede só balançou no segundo tempo. O Fla vencia por 2×1 quando uma falta foi marcada em Alcindo. Birigui, o goleiro do time pernambucano, organizava a sua barreira quando deu uma bronca no volante: “Vira, Zé! Vira, Zé!”, o capitão estava virado de costas para o flamenguista, que se preparava. Mas Zé do Carmo tinha um motivo para estar olhando para o outro lado, pois disse que também queria ver o gol do Galinho. Dito e feito, Zico meteu a bola no ângulo direito de Birigui, fechando o placar. O Flamengo ganhou por 3×1 e avançou para a semifinal.

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Dono do time

Zé, como membro da comissão técnica do Santa / Foto: Diário de Pernambuco
Zé, como membro da comissão técnica do Santa / Foto: Diário de Pernambuco

Ainda pelo Santa Cruz, o volante foi o responsável por um dérbi marcante frente o Sport, na decisão do segundo turno do Campeonato Pernambucano de 1987. O Leão vencia e dominava a partida por 2-1 quando Zé fez um pênalti em Robertinho, depois de ter sido driblado algumas vezes no clássico. O Sport tentava ampliar para 3-1 e o juiz Oséias Gomes expulsou o capitão, deixando o Santa com oito em campo, já que Ivan e Lula também tinham visto o cartão vermelho.

Inconformado, Zé do Carmo decidiu que acabaria com o jogo, também porque queria evitar uma goleada histórica do Sport. O capitão avisou aos colegas que se o Santa ficasse com seis em campo, a partida teria de ser encerrada por Oséias. Antes mesmo da cobrança da penalidade, Rinaldo xingou o árbitro e também foi expulso. Pouco depois foi a vez do atacante Luís Oliveira, que além de ofender, ainda empurrou o pobre juiz.

Resultado: cinco expulsos do Santa e fim de jogo. O goleiro Birigui ainda tentou ser o sexto coral a tomar o vermelho, tirando a bola das mãos de Oséias e chutando para a torcida adversária, mas nem foi preciso. O Sport venceu o segundo turno do Pernambucano por 2-1, mas não conseguiu uma goleada. O Santinha eventualmente venceu o estadual de 1987.

Campeão folclórico no Vasco

Foto: O Globo
Zé do Carmo, quarto da esquerda para a direita na fileira de cima, entre Nonato e o capitão Fernando /Foto: O Globo

Quando chegou ao Vasco, em 1988, com seus 26 anos, Zé do Carmo viveu o que seria a melhor fase de sua carreira. A titularidade veio com grandes atuações e até mesmo uma convocação para a Seleção de Sebastião Lazaroni em 1989, antes da Copa América, vencida pelo Brasil.

Nas quatro temporadas em que jogou pelo Vasco, viveu bons momentos e até chegou a ser capitão do cruzmaltino. Chegou já sendo campeão carioca em 1988, em um time que contava com Bismarck, Romário, Geovani e Mazinho. Na primeira decisão, vitória contra o Flamengo por 2-1. Vingança pessoal de Zé contra os rubro-negros, pela derrota na semifinal do Brasileiro em 1987 ainda quando atuava no Santa Cruz.

Romário fez um golaço aplicando um chapéu em Zé Carlos, mas quem foi o herói da decisão foi Cocada, de forma inesperada. O Vasco levou a melhor nos dois jogos, vencendo por 2-1 e 1-0, o segundo em 22 de junho de 1988, diante de 31 mil pessoas no Maracanã.

Ao fim de novembro, o bicampeão carioca foi mandante em um amistoso esquecido: contra um mistão da Dinamarca, que seria campeã europeia em 1992. Zé do Carmo marcou o único gol do jogo, com uma dancinha inconfundível.

O bicho garantido contra o Flamengo

A rivalidade com o Flamengo estava ardendo em 1988. Durante todo o ano no Clássico dos Milhões, os vascaínos puderam comemorar vitórias em cima do rival. Quando a série do Vasco chegou a cinco triunfos consecutivos, Zé do Carmo apareceu para dar uma entrevista após o jogo contra os rubro-negros, na primeira rodada do Brasileiro, tripudiando ainda mais da freguesia flamenguista.

“Com todo respeito que nós temos a este grande adversário, mas o zoológico lá de casa está ficando bastante grande, de tanto ganhar bicho. Eu entro em campo pensando em fazer uma grande partida, no final o Vasco vai e me dá isso aqui. Não é que está ficando fácil, mas é que a batalha em campo é tão grande para vencer que no final a diretoria do Vasco sabe muito bem remunerar seus jogadores.

Esse ano não quero mais jogar, não, com o Flamengo não. Eles têm de fazer por onde para jogar frente a equipe do Vasco. No caso, chegar à final como o Vasco da Gama, porque o Vasco da Gama é um dos sérios candidatos a levar este título (do Brasileiro)” (Em entrevista ao repórter Mauro Naves em São Januário, em setembro de 88)

Fato é que Zé do Carmo não era só craque nas entrevistas. Também desempenhava um grande papel nos gramados. Em 1989, ano do título brasileiro do Vasco, se consolidou como capitão e pôde erguer a taça ao fim do ano contra o São Paulo, dentro do Morumbi. Mas o único gol marcado pelo volante em toda a campanha foi contra, na 16ª rodada, diante do Botafogo, no placar de 2-2.

A atuação defensiva do Vasco foi muito boa contra o Tricolor no dia 16 de dezembro. Destaque para o equatoriano Quiñones e o goleiro Acácio, que evitaram um bombardeio são-paulino. Aos 5 do primeiro tempo, Sorato fez de cabeça o único gol daquela tarde, coroando mais uma conquista da equipe de São Januário.

Primeiro da esquerda agachado, Zé do Carmo também jogou em Portugal
Primeiro da esquerda agachado, Zé do Carmo também jogou em Portugal

Zé deixou o Vasco em 1991 e assinou com a Académica de Coimbra. Ficou lá até 1993, quando fez o caminho de volta e atuou novamente com a camisa do Santa Cruz. Venceu mais duas vezes o Pernambucano e saiu para o CRB, em 1997. Encerrou carreira no ano seguinte com rápidas passagens pelo Ituano e Uniclinic, aos 37 anos. Seu filho Breno, de 29 anos, atua como zagueiro no Guarany de Sobral, do Ceará. Já jogou pelos juvenis do Vasco e pelo Náutico, inclusive defendeu o Braga em 2007-08, por alguns meses.

A carreira de Zé do Carmo como treinador é curta. Passou por ABC, América-RN e também pelo Santa Cruz, mas alterna entre a vida de comentarista pelos canais Premiere. É idolatrado pela torcida coral e também desfruta de certo prestígio com a massa vascaína, porque além de entender o que precisava ser feito para ser campeão, ainda alfinetava os flamenguistas quando tinha oportunidade. Mesmo que hoje o elenco liderado por Jorginho não tenha um Zé do Carmo presente, a sensação de triunfo diante do rival é a mesma. Algo que não muda entre 1988 e 2016.

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