O que você faz quando perde um ídolo?

Trifon Rapid

(Trifon Ivanov 1965-2016)

Geralmente, perder um ídolo é como velar alguém que você não conhece e não esteve perto, mas que mesmo assim tem uma grande responsabilidade na formação do seu caráter. Seja pela música, pelos ensinamentos ou pelos grandes feitos esportivos. Lamentavelmente, estou acostumado a lidar com ídolos que partem. Primeiro eles se aposentam no que fazem, depois morrem. É um ciclo natural da vida, mas por alguma forma temos certa dificuldade em aceitar que a pessoa não estará mais ali.

O que é o luto se não o respeito que fica por quem morreu e o início da manifestação da saudade? Ser fã de uma pessoa remete a uma admiração platônica, nem sempre explicada por a + b em torno das suas razões. Você pode ser fã do campeão mundial de tênis porque ele é um talento implacável, pode ser fã daquele cantor com uma história de vida difícil e que quando solta a voz, encanta até mesmo os mais céticos.

Pode não ter visto aquele piloto maravilhoso correr, mas por tudo que viu, leu e ouviu a respeito, criou uma relação esquisita de ser saudosista com aquilo que não pôde testemunhar. E assim, quando percebe, não pode ter a chance de conhecê-lo um dia ou outro para agradecer pelas lembranças. Por que somos gratos a um ídolo? Porque ele mesmo não tendo rigorosamente nada a ver com a nossa vivência, fez com que algum ou alguns dias acabassem bem. Não é qualquer pessoa que tem a capacidade de fazer com que os outros sejam felizes sem estar por perto.

Trifon Ivanov era um ídolo diferente. Ele transmitia um recado importante nas suas patadas, gols e carrinhos dentro de campo. Fosse um zagueiro que atuasse por grandes seleções ou tivesse a reputação de um Paolo Maldini, talvez não causaria um grande impacto. Mas Trifon, um búlgaro nascido em Veliko Tarnovo, notabilizou-se por ser o porta-voz dos menos favorecidos pelo dom de jogar bola. E não há como não identificar-se com ele por isso.

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Bem, a minha história com Trifon começa aproximadamente em 1998, quando eu abro um pacote de figurinhas da Copa do Mundo e tiro o retrato dele. Meu pai, ao lado, dono de outro álbum do Mundial, também se vê contente com o jogador que saiu entre cinco outros aleatórios. Rasguei todo o papel que cobria os adesivos para revelar os cinco craques da vez. E a verdade é que para toda criança, qualquer jogador que saia no álbum da Copa é um craque e vai colorir uma porção de memórias até a vida adulta. Até hoje eu sou colecionador de figurinhas.

Trifon já havia sido destaque em 1994, quando jogou muito bem na defesa titular búlgara. A seleção dele foi quarta colocada naquele mundial. Aliás, não há nada na Copa de 1994 que não nos traga nostalgia. Foi marcante não só pelo tetra do Brasil, mas pela profusão de gênios que pisaram nos gramados americanos. Ali aprendemos a respeitar Hagi, Stoichkov, Larsson, Baggio, Brolin, Al-Owairan, Pagliuca, Trifon, Balakov, muitos outros talentos daqueles tempos e que estouraram em um torneio fascinante. Quem esperava uma disputa entediante sob o sol infernal dos Estados Unidos, acabou ganhando uma Copa para nunca mais esquecer.

Tenho poucas memórias de 1994 e para ser bem sincero, nas figurinhas que tanto gosto, a que mais me recordo é a da seleção da Romênia que tirei no meu quarto. O resto são só recortes dos quais não consigo mais resgatar conforme envelheço. Talvez os jogos do Brasil, talvez o escudo de plástico de Camarões que tirei no chocolate Surpresa, talvez o dia em que ganhei uma arminha de espoleta quando a Seleção eliminou os americanos com gol de Bebeto, pode até ser que eu consiga refazer a imagem de todos os meus parentes na sala da casa da vó durante os pênaltis contra a Itália e que a Tia Helô tenha sentado em cima do Bubbaloo de uva que ganhei minutos antes do meu pai.

Trifon jogou a Copa de 1998 e não posso deixar de citar que lembro dele inicialmente pela feiúra. Aliás, este é um dos grandes referenciais que o mundo tem de sua pessoa. Depois da aposentadoria ele viveu recluso na sua cidade como diretor de esportes da Prefeitura de Veliko Tarnovo. Sorte de quem tem os álbuns com as figurinhas originais dele. Eu não tenho mais, minha mãe deve ter jogado fora antes mesmo da Copa de 2002.

Por assim dizer, quando comecei a jogar videogame de forma criativa, criei várias vezes com os meus amigos alguns times no marcante Winning Eleven. Eram equipes bizarras, com atletas bizarros, mas eu tinha uma necessidade de reeditar alguns caras que me marcaram no passado. Trifon era um deles. Lembro até a primeira vez que trouxe Ivanov para o meu mundinho maluco de cartola imaginário: novembro 2005, como beque do recém-fundado Unidos United, time que uso até hoje no PES.

Depois disso, Ivanov acabou transferido para vários outros clubes, foi campeão de torneios e outros campeonatos da Master Liga, virou um xerifão seguro com o qual eu podia contar. Confesso que fui generoso nos atributos e Trifon era bem melhor do que a versão real.

Ele nunca atuou de verdade por nenhum dos times que simpatizei, mas o seu boneco virtual tratou de resolver essa distância entre nós. Sempre esteve ali, meu camisa 3, meu beque, o cara da bola aérea e dos gols de cabeça em decisões. O Trifon feito de pixels me ajudou a vencer Henry, Messi, Ronaldinho, Cristiano Ronaldo, Falcao García, Pirlo, Zidane, Shevchenko e muitos outros através desses anos em que passei ocupado atrás da tela do meu videogame. Mas em algum momento, parei de levantar clubes do zero, parei de inventar craques ou trazê-los em uma versão otimizada para a realidade paralela do PES. Só ficou mesmo o Portes, um volante magrinho que não se parece muito comigo, mas quebra o galho.

A Copa dos pernas de pau

Os capitães da II Trifon, vencida pelo Raja Casaverde do Bruno Bonsanti
Os capitães da II Trifon, vencida pelo Raja Casaverde do amigo Bruno Bonsanti

Quando pensamos em nomes para um novo torneio de futebol entre amigos de São Paulo, em 2013, eu sugeri Gilmar Fubá, porque ele era uma referência em carisma e não era lá um gênio da bola. Mas quem arrematou o que seria um dos nossos maiores feitos na vida foi o amigo Léo Rossatto: Copa Trifon Ivanov. Eu e o Emanuel Colombari nem quisemos discutir mais, estava batizado o campeonato. Chamamos os outros capitães e ali começava a brincadeira.

Hoje vocês devem conhecer a Trifon pelo gigante que ela virou com os seus 16 times masculinos e 12 femininos, com tanta gente linda que é melhor nem citar, pois daria um post à parte. A Trifon, uma homenagem mais do que merecida ao búlgaro Ivanov, tirou muita gente do sedentarismo, fez muito perna de pau ser campeão uma vez na vida (eu, por exemplo), permitiu que várias pessoas fossem apresentadas e virassem grandes amigas, entre outras coisas fenomenais que vocês podem atestar nas redes sociais.

A gente vem se inspirando no Lobo de Lipnitsa nestes últimos anos e a grande satisfação em tudo isso é que ele soube da existência da Copa, graças ao jornalista francês Alban Traquet, que em viagem à Bulgária para uma entrevista com Trifon, mostrou o site e o texto que chamava os interessados para a inscrição na segunda edição. Nunca vou me esquecer do dia em que Traquet me enviou um e-mail avisando que Trifon sabia:

E-mail alban

“Olá, eu sou um jornalista francês trabalhando para a revista do L’Equipe, o suplemento de sábado do jornal. Recentemente, fui para a Bulgária, onde conheci Trifon em sua cidade natal, Veliko Tarnovo. Eu vou escrever uma história sobre ele e como está a sua nova vida, que será veiculada no início de 2014.

Só queria saber por que você decidiu nomear o seu torneio como “Copa Trifon Ivanov” e sobre o que se trata tudo isso. Você acredita que o espírito que quer trazer para a Copa está ligado ao carisma e ao jeito de ser de Trifon? E você tentou convidá-lo para o Brasil? Por que quando eu o vi, mostrei um print do seu site, mas ele não sabia anteriormente da competição.

Espero que você tome ciência do meu pedido, atenciosamente, A.T.”

Foi um dos dias mais felizes que tive notícia por eventos relacionados à Trifon. Certamente vivi grandes momentos graças a vocês que estiveram presentes. E toda a alegria concentrada no Playball, na Lapa Esportes e em qualquer outro lugar que receba a Copa, deve servir para honrar o legado do homem Trifon Ivanov.

Foto: Soccer Museum
Foto: Soccer Museum

Hoje ele nos deixou, aos 50 anos, sem nunca ter vindo para o Brasil ver de perto o que fizemos com o nome dele. Essa é uma coisa que lamentaremos bastante. Entretanto, para quem não conhece ou sequer sabia quem era Trifon Ivanov, a comoção em torno da sua morte explica tudo e mais um pouco.

Adeus ao zagueiro, ao mito, ao patrono e ao grande atleta dos meus times imaginários. E se alguém me perguntar como é perder um ídolo, posso responder: deixo toda a gratidão possível de se expressar por alguém que mesmo de longe mudou a minha vida nos pequenos detalhes. Descanse em paz, mestre Ivanov.

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