O escândalo que destruiu a reputação do Marselha na Europa

Foto: Soccer Nostalgia
Equipe do Marselha que levou a Liga dos Campeões em 1993 / Foto: Soccer Nostalgia

Um time vence o principal campeonato de futebol da Europa, pela primeira vez na história do seu país. Recheado de estrelas e impulsionado para conseguir o feito, a equipe acaba tendo seu mais recente título francês cassado meses depois, em virtude de um escândalo de suborno, indo parar na segunda divisão. O roteiro, que poderia muito bem ser de um filme francês ruim de baixo orçamento, na verdade aconteceu com o Marselha campeão europeu de 1993.

Desde a década de 1980 o empresário francês Bernard Tapie estava à frente do Marselha como o benfeitor do time que dominou o país no início dos anos 90. Cheio do dinheiro e com planos ambiciosos, comprou vários jogadores de nível internacional para fazer do OM um forte competidor na Europa.

Por oito anos Tapie comandou o clube e é bem verdade que eles conquistaram tudo que planejavam. Mas o custo para isso foi caríssimo. Falar do Marselha como campeão europeu depois de encher os cofres com dinheiro do dono não parece tão absurdo quanto projetar times pequenos que de repente aparecem no cenário internacional com a força de investidores.

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Estamos falando de um gigante mundial, uma grande força com torcida em massa dentro da França. Mas no fim da década de 1990, o Marselha não atravessava grande fase. Estava na segunda divisão depois de sonhar alto fora do país sob o comando do presidente Michel Leclerc.

Como Leclerc queria colocar seus interesses e do Marselha acima dos da Liga e isso poderia trazer graves problemas no futuro, o alto comando do clube optou por demiti-lo em 1972. Os anos que sucederam a queda de Leclerc foram terríveis, com direito a rebaixamento, e o time acabou sem dinheiro, apostando apenas em jovens. O acesso à elite aconteceu em 1984.

Um apaixonado por causas perdidas

Foto: Football Mag
Foto: Football Mag

Se há uma expressão que possa definir o estilo de empreendedorismo de Bernard Tapie, é que ele é um apaixonado por causas perdidas. Em sua carreira no ramo dos negócios, apostou quase sempre em empresas que estavam falidas. Como sabia bem os caminhos para o sucesso, recuperava estas marcas e as tornava fortes novamente. O Marselha foi um deles, assim como a Adidas, na mesma época em que o cartola regia a equipe marselhense.

O problema é que a estratégia de recuperar a Adidas acabou sendo um tiro no pé de Bernard na época. Para entender a grande crise que assolou o Marselha, é preciso falar dos negócios obscuros feitos por Tapie. Em 1989, o magnata comprou a Adidas por 246 milhões de euros, graças a um empréstimo feito no banco Crédit Lyonnais. Com uma estratégia ousada e mudando grande parcela das fábricas para países asiáticos, Bernard estancou o sangramento da fabricante de material esportivo, mas em 1992, não conseguiu pagar os juros do empréstimo e se viu em uma enrascada econômica.

A solução apareceu misteriosamente quando o banco passou a assumir a dívida como da Adidas, não de Tapie. A prática, criticada de forma ferrenha na ocasião pelo mercado de ações, era na verdade um favor ao cartola, que era Ministro de Desenvolvimento Urbano do governo francês. Bernard escapou de entrar na areia movediça das dívidas naquele momento e a Adidas foi vendida para Robert Louis-Dreyfus, seu amigo pessoal, em 1993, pelo dobro do valor pago em 1989.

Queda nos detalhes

Foto: OM 4 Ever
Foto: OM 4 Ever

De 1989 a 1992, o Marselha arrancou para ser tetracampeão francês e parecia ser a grande força imparável no cenário nacional. Com grandes jogadores como Alain Giresse, Jean-Pierre Papin, Chris Waddle, Fabien Barthez, Enzo Franescoli, Didier Deschamps, Marcel Desailly, Rudi Völler e Eric Cantona em uma liga pouco competitiva, os alvicelestes poderiam se dar ao luxo de sonhar com um título maior. E em 1993, ele veio na Liga dos Campeões, contra o Milan. Na decisão, o volante Basile Boli marcou o único gol da partida e coroou o Marselha como grande campeão europeu da temporada, em 26 de maio daquele ano.

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Menos de uma semana antes, em 22 de maio, os jogadores do Valenciennes entregaram ao público uma denúncia grave: em 20 de maio, o defensor Jean-Jacques Eydelie propôs um suborno ao elenco para que eles não entrassem tão firme na bola, a fim de proteger a integridade física do grupo que disputaria a decisão europeia. O Marselha venceu por 1-0 o Valenciennes, sem menores problemas.

Por meses, a Justiça Francesa avaliou a procedência da denúncia, que se mostrou verdadeira em junho, após confissão do atleta Christophe Robert. Policiais encontraram 250 mil francos no quintal da casa dos pais do jogador do Valenciennes.

A Uefa imediatamente cassou o título francês do Marseille de 1992-93, além de impedir que os marselhenses disputassem a Supercopa Uefa e o Intercontinental ao fim do ano. O Milan foi para o Japão no lugar dos franceses e perdeu para o São Paulo de Telê Santana.

Os atletas do Valenciennes (Robert e Jorge Burruchaga) que receberam dinheiro do Marselha também tiveram licenças canceladas dentro da França por um ano, enquanto Eydelie, o intermediário do suborno, tomou uma temporada de punição e ainda cumpriu 17 dias de prisão pelo episódio. Burruchaga nunca mais jogou por equipes francesas e se aposentou em 1998 pelo Independiente.

O Marselha também foi rebaixado para a segunda divisão local por irregularidades financeiras atribuídas a Tapie. Em 1994, menos de um ano depois da decisão judicial, o presidente foi indiciado por corrupção e suborno de testemunhas. Bernard foi condenado a cumprir dois anos de prisão e saiu de cena no Marselha para dar lugar a Robert Louis-Dreyfus em 1996.

O problema aí é que o Crédit Lyonnais também se enroscou, já que em 1993, vendeu a Adidas a Dreyfus pelo dobro do preço pago por Tapie, sem que ele soubesse disso. O Ministério das Finanças, liderado por Christine Lagarde decretou 15 anos depois da prisão de Bernard que ele deveria receber 404 milhões de euros do governo como compensação pela fraude do banco.

Em 2015, Lagarde foi investigada por abuso de poder e negligência, escapando ilesa pelo favorecimento a Tapie. Já o empresário, por sua vez, precisou devolver os 404 milhões com correção monetária pela reparação mal aplicada pela fraude do Crédit Lyonnais. Que cilada.

A vida pós-Tapie

Foto: OM 4 ever
Foto: OM 4 ever

Depois de Tapie, o Marselha teve cinco presidentes em menos de dois anos até que Dreyfus assumisse o controle de tudo, tirando o time da segunda divisão francesa em 1996: Pierre Cangioni, Bernard Caïazzo, Jean-Michel Ripa, Jean-Claude Gaudin e Jean-Michel Roussier.

Foram dois anos de pobreza na segunda divisão para que novos reforços chegassem na gestão Louis-Dreyfus. Fabrizio Ravanelli, Laurent Blanc e Andreas Köpke foram as grandes estrelas escolhidas para conduzir o Marselha de volta ao topo. É verdade que o OM conquistou a segunda divisão logo em 1994-95, mas como a punição pela corrupção da Era Tapie ainda vigorava, apenas Guingamp e Gueugnon subiram e o campeão teve de ficar mais um ano na Ligue 2. Em 1995-96, o acesso como segundo colocado foi confirmado e o Marselha retornou ao seu devido lugar.

O clube viveu um jejum até 2010, quando saiu com estilo da fila ao conquistar a Liga e a Copa da Liga Francesa sob o comando de Didier Deschamps, capitão na conquista europeia de 1993 contra o Milan.

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