O dia que Casagrande apareceu de vez para o futebol brasileiro

Foto: Pinterest
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A Democracia Corinthiana ainda estava engatinhando quando o Timão enfrentou o Palmeiras pelo Campeonato Paulista de 1982. Os grandes arquitetos da revolução, Sócrates, Wladimir e Casagrande, ainda estavam se apresentando como ídolos e referências de toda uma geração. Para Casagrande, jovem promessa do time, aquele duelo contra o Verdão, em agosto de 82, foi bem marcante. Ali ele se tornava uma força confiável e o artilheiro que a torcida tanto louvaria até o fim de sua carreira.

Para se ter uma ideia do impacto que a atuação trouxe ao atacante, ao fim da campanha, o Corinthians foi campeão e fortaleceu demais as demandas do elenco, que pedia passagem para mudar o clube e o país. Com o título estadual, a Democracia Corinthiana se consolidou e eternizou o trio que encabeçava o movimento.

Mas Casagrande não tinha caído nas graças do povo antes daquilo. De temperamento difícil, o menino carregava consigo a ansiedade da juventude e a necessidade de lutar por mais liberdade, algo que era apenas um sonho em tempos de Ditadura Militar. Pois se os militares do governo achavam que tinham total controle sobre as massas, coube a Sócrates e seus companheiros mostrarem que aquela geração estava disposta a transformar tudo.

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Um ano antes, Casão estava vivendo o ostracismo de uma passagem pela Caldense, no Campeonato Mineiro. Só foi repassado aos alviverdes em virtude de um desentendimento com o técnico Oswaldo Brandão, que não aceitava a sua postura insolente e resolveu lhe dar uma “geladeira” com o afastamento.

Para quebrar o tabu

Adílson Monteiro Alves e Casagrande / Foto: Frank Geyer
Adílson Monteiro Alves e Casagrande / Foto: Frank Geyer

Meses antes, em fevereiro, o camisa 9 fazia a sua estreia como profissional diante do modesto Guará, de Brasília, pelo Brasileiro, como titular do Timão. Logo conquistou a confiança do técnico Mario Travaglini, que assumiu após o Nacional, e se firmou no elenco. Em agosto, pela sexta rodada do Paulistão, Casão botou fogo no dérbi contra o Palmeiras e mostrou seu cartão de visitas.

O Corinthians não vencia o rival desde 1980. A vontade de superar o pequeno tabu contra um time na fila como o Palmeiras estava corroendo o bom humor dos alvinegros, que entraram em campo no dia 1º de agosto com a faca entre os dentes. No Morumbi, 55 mil pessoas estavam nas bancadas para acompanhar mais um grande clássico e com enorme peso histórico. Mas eles só saberiam disso depois do apito final.

Aos 19 anos, Casagrande se preparava para fazer seu primeiro dérbi diante do Verdão. O relógio marcava 34 minutos da etapa inicial quando uma bela troca de passes colocou Biro-Biro de cara para o goleiro Gilmar. Com frieza, o meia cutucou no canto e abriu o marcador. O Corinthians virou para o intervalo em vantagem, mas logo aos cinco da segunda etapa, Jorginho deixou tudo igual em um contragolpe rápido.

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De repente, em outro lance de encher os olhos, a ofensiva corintiana foi tocando a bola até que Sócrates recebeu na ponta esquerda, ensaiando finta no volante Rocha. O drible teria dado certo se o palmeirense não tivesse colocado a mão na bola. Pênalti assinalado por Ulysses Tavares da Silva Filho. O Doutor mesmo se encarregou de cobrar e fez 2-1 para o Timão, com 23 minutos redondos na etapa complementar.

O oportunismo de Casão

Foto: UOL
Foto: UOL

Dali em diante, começava o show de Casagrande. O meninão de cabelos revoltados e meias abaixo da canela fez um carnaval na defesa palmeirense e dos 37 aos 40 minutos, fez o que seria uma das grandes atuações de sua vida, em tão curto espaço de tempo. E veja só, em um clássico da maior magnitude contra o Palmeiras.

Alfinete recebeu uma bola primorosa de Zenon na direita e meteu no meio da área. Sozinho, Casão só completou e fez o terceiro do Corinthians na tarde, aos 37. A trama do quarto tento alvinegro foi quase a mesma para o segundo de Casagrande, que estava um pouco mais ao lado do que o lance que originou o gol anterior. Exceto que Alfinete cruzou, Ataliba chegou para finalizar, o goleiro João Marcos espalmou e o camisa 9 rebateu para as redes, aos 38.

O Palmeiras estava rendido e tocava a bola para gastar tempo e evitar uma humilhação maior. Porém, o Corinthians resolveu tripudiar em cima do sofrimento do rival e marcou o quinto, em outra grande jogada. Mauro desarmou o ataque alviverde na área, tocou em Biro-Biro, que devolveu para Zenon no círculo central. Zenon jogou em Sócrates, que com a maior calma do mundo, carregou alguns metros, teve tempo de olhar para os lados e mandar uma bola venenosa por cima.

Zenon vinha pelo meio e correu feito louco para dominar, partiu para cima de Polozzi e levou a bola para a ponta direita da área. Saiu o chute do camisa 10 e a bola estourou na trave de João Marcos.

Para o azar do arqueiro, lá estava Casagrande, que só teve o trabalho de empurrar outra vez no rebote para marcar seu terceiro gol da tarde, um triplete de puro oportunismo, aos 40 minutos. Em questão de três lances o Corinthians amassou o Palmeiras e Casão apareceu de vez no cenário nacional. Placar do duelo: 5-1.

Alinharam naquela tarde pelo Corinthians de Travaglini: Solito, Alfinete, Gomes, Mauro e Wladimir; Paulinho, Sócrates (Eduardo) e Zenon; Ataliba, Casagrande e Biro-Biro. O Timão acabou campeão paulista de 1982, derrotando o São Paulo na final. Casagrande fez 28 gols e se sagrou artilheiro da competição. E a Democracia Corinthiana ganhava seu primeiro troféu.

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