A lata que acabou com o sonho europeu do M’gladbach

Foto: Bundesliga Classic
Foto: Bundesliga Classic

O Borussia Mönchengladbach era certamente um dos times mais fascinantes da década de 1970. Com muita força no cenário alemão, os Potros chegaram muito perto de dominar o torneio principal da Europa, mas falharam duas vezes de forma histórica. Uma delas se desenrolou de forma polêmica após uma goleada por 7-1 contra a Internazionale de Boninsegna, Facchetti, Jair da Costa e Mazzola. Aquela noite ficou conhecida como a do “Jogo da Lata”.

Logo nas oitavas de final da edição de 1971-72 da Copa dos Campeões da Europa, o sorteio colocou fortes clubes em confronto de mata-mata. Naquele tempo, apenas os vencedores de ligas nacionais e os defensores do título podiam representar seus países no certame.

Quis o destino que Internazionale (bicampeã europeia em 1964 e 65) enfrentasse o emergente M’Gladbach, que a aquela altura era o bicampeão alemão. Em 20 de outubro de 1971, os dois se enfrentaram no acanhado estádio Bökelberg, antiga casa dos Potros, em Mönchengladbach. Acontece que o local era um verdadeiro alçapão para os adversários.

Capitaneado por Günter Netzer, o maior craque que já passou pelo clube, o Borussia impôs seu jogo para tentar levar vantagem até o duelo de volta, em Milão. Com muita ofensividade, foi exatamente isso que aconteceu no decorrer dos 90 minutos. A partida foi conduzida pelo holandês Jep Dorpmans, que mal sabia que iria viver o dia mais importante de sua vida.

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O começo tenso

Foto: The Wild Bunch
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Diante de sua torcida, os germânicos tinham tudo para fazer uma grande exibição contra os interistas. Um aperto de mão protocolar entre os capitães Mazzola e Netzer selou um início pacífico para o encontro. Aos sete minutos de jogo, o baile começou para os mandantes. Jupp Heynckes driblou bem dentro da área, tirou Giubertoni do lance e bateu rasteiro para vencer o arqueiro Vieri, 1-0 para os donos da casa.

A Inter reagiu aos 19 minutos, em gol do perspicaz Boninsegna, deixando tudo igual no marcador. Um torcedor italiano até invadiu o campo com uma bandeira de seu país, causando certa controvérsia na partida. Só que aos 21, Le Fevre marcou outro para o Borussia, de cabeça, inflamando a torcida local.

A lata da discórdia

Foto: Storie di Calcio
Boninsegna, o homem capital do “Jogo da Lata” / Foto: Storie di Calcio

O confronto estava favorável aos alemães, que pressionavam em busca do terceiro, quando aos 29, deu-se a desgraça: Boninsegna estava na lateral do campo e foi atingido na cabeça por uma lata cheia de Coca-Cola. O italiano precisou ser substituído e uma verdadeira confusão se iniciou. O capitão interista Mazzola foi conversar com o juiz e avistou um torcedor do seu time se aproximar da grade com uma lata similar, para entregar ao árbitro, como se ela fosse a usada na agressão a Boninsegna.

Todo o time da Inter fez pressão em Dorpmans para que a partida fosse cancelada, sob a alegação de que não havia segurança para continuar. Os jogadores do Borussia, irritados, se separavam em pequenos grupos dentro do campo para discutir e tentar fazer com que o jogo tivesse sequência. E conseguiram, já que as ações foram retomadas após sete minutos de paralisação, com uma sonora goleada.

Aos 34, Le Fevre encaixotou outro de cabeça e aumentou para 3-1 a vantagem do M’Gladbach. Tudo parecia caminhar para uma grande vitória dos Potros, que aproveitaram a fragilidade da Inter no restante do encontro para ampliar o agregado. Em falta perto da área, Netzer caprichou na pontaria, bateu no alto e o goleiro Vieri espalmou para dentro, 4-1.

O massacre

Foto: Bundesliga Classic
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A cada ofensiva, o Borussia chegava perto de mais um gol. Para fechar o placar do primeiro tempo, Heynckes completou para as redes depois de um passe na diagonal e tirou ainda mais sangue da Inter, 5-1. Estava claro que os italianos iriam fazer um vexame. De um lado, a euforia dos vencedores. Do outro, a desolação de uma equipe que se assustou com o ritmo do oponente e com a lata que atingiu a cabeça de Boninsegna. Giampiero Ghio foi o substituto de Boninsegna, mas nada fez em campo.

Netzer fez um lance magistral aos 52 minutos, lançando Heynckes com precisão ao ataque. O centroavante parou, esperou e devolveu a bola para o camisa 10, que da entrada da área tocou por cima do arqueiro Ivano Bordon, substituto de Vieri, que deixou a partida ao intervalo: 6-1.

Os Potros ainda acharam tempo para mais um gol, de pênalti, com Sieloff, aos 83. Estava desenhado o 7-1, fora o baile, contra uma inerte Internazionale que já se considerava eliminada da competição. Já sem expectativas e irritado com a marcação do pênalti, o meia Mario Corso agrediu o juiz com um chute e tentou atribuir a atitude ao pobre substituto Ghio, que mal foi acionado. Corso foi punido posteriormente pela Uefa e ficou alguns meses sem atuar por competições internacionais. Quando Dorpmans apitou para o fim do encontro, porém, o imbróglio estava apenas começando.

O tapetão

Foto: Bundesliga Classic
Discussão entre Mazzola, o árbitro e Netzer / Foto: Bundesliga Classic

A Uefa não deixou barato e apurou os incidentes envolvendo Boninsegna. Mesmo com provas confusas como a que um torcedor italiano entregou ao juiz alegando ser a lata usada na agressão, a Inter levou a melhor. Quer dizer, pôde ter um suspiro de tranquilidade, já que precisou deixar a cidade de Mönchengladbach para fugir da hostilidade dos ultras interistas, que quase invadiram o vestiário do time após a derrota.

Os advogados da Inter pediam a anulação do jogo e uma vitória por 3-0. Enquanto isso, a defesa dos alemães apontava para a falta de provas conclusivas sobre a lata verdadeira, inclusive apresentando a versão de que um interista havia atirado o objeto de forma intencional para causar uma cena. A reunião com dirigentes da Uefa durou até a manhã seguinte e ficou decidido que eles jogariam novamente a partida, com agregado zerado e mando invertido no mês seguinte.

A Inter recebeu o M’Gladbach com sede de vingança no dia 3 de novembro de 1972. Mas o jogo ficou restrito ao confronto técnico, vencido pelos locais em Milão por 4-2. Marcaram Bellugi, Boninsegna, Jair da Costa e Ghio para os nerazzurri; Le Fevre e Wittkamp para os alemães. Tudo seria decidido em solo germânico, em dezembro. A Uefa então ordenou que o Borussia mandasse seu jogo em Berlim, portanto longe de seu estádio. Ao contrário do que aconteceu no Bökelberg naquela fatídica noite de outubro, o placar não saiu do zero e os italianos festejaram a classificação.

A Inter passou adiante, derrotando Standard de Liège, Celtic (vingança por 1967) e foi até a final, sendo derrotada pelo Ajax de Johan Cruyff. Depois disso, os nerazzurri só voltaram a disputar uma decisão do principal torneio europeu em 2010, quando bateram o Bayern de Munique em Madrid. Pela Copa Uefa, foram três conquistas, em 1991, 94 e 98.

Já o M’Gladbach, venceu a Copa Uefa em 1975 e 1979; fez a final da Copa dos Campeões com o Liverpool em 1977, perdendo por 3-1, e até hoje projeta o que teria sido daquela edição de 1971-72 decidida por fatores extra-campo. O Borussia teve usurpada no tapetão uma de suas atuações mais memoráveis na Europa, que certamente teria impulsionado uma trajetória segura até uma hipotética decisão contra o Ajax.

Não fosse por aquela lata, estaríamos contando uma história completamente diferente. Talvez a arrancada dos alemães rumo ao título ou como o sonho europeu de Netzer e seus companheiros caiu por terra nos pés do Futebol Total de Cruyff e do Ajax…

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