A volta por cima que fez de Baggio um fenômeno mundial

Roby em seus tempos de Vicenza / Foto: VK
Roby em seus tempos de Vicenza / Foto: VK

Para quem via o menino de apenas 15 anos aparecer como profissional pelo Vicenza, na Serie C italiana em 1983, mal imaginava que ele seria um dos grandes nomes e referências do futebol italiano. Mas para que o jovem Roberto se tornasse uma realidade, ele teve de sofrer e dar a volta por cima para encontrar a fama.

Quem conhecia o menino tímido de Caldogno, uma comuna próxima a Vicenza, sabia que ele era um talento a ser explorado. Antes de ser promovido ao time profissional da cidade, que jogava a terceira divisão, marcou 110 gols em 120 partidas como juvenil, uma marca memorável para um atacante.

Com esse cartel, o Vicenza quis apostar no menino, que pagou lentamente o investimento feito. Não que estejamos falando de uma fortuna, afinal, o clube pagou apenas 300 libras no seu passe, em 1981, quando ele tinha apenas 13 anos. Em 1984, portanto em seu segundo ano como profissional, Roberto conseguiu marcar gols em competições relevantes na Itália. Preparado desde cedo para ser uma estrela, Baggio ganhou muita experiência para estourar antes dos 20 anos no cenário nacional.

Em 1985, quando o Vicenza foi promovido para a segunda divisão, Baggio ficou em evidência como o maior tesouro do elenco. E foi contratado pela Fiorentina, que queria ver o seu futebol na elite. Fã de Zico e talentosíssimo no trato com a bola, Roberto se viu seduzido pelo sucesso rápido. Tinha apenas 18 anos e já interessava aos grandes clubes. Mas um acidente quase impediu a sua ascensão.

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O primeiro baque

Foto: Roberto Baggio.org
Foto: Roberto Baggio.org

O seu passe seria comprado pela Viola por cerca de 1.3 milhões de libras, um valor alto para um jovem que vinha de divisões inferiores. Mas dois dias antes que pudesse ser apresentado como reforço da Fiorentina, o garoto sofreu uma grave contusão diante do Rimini, antes do fim da competição que levou o Vicenza à Série B. Ele havia marcado 14 gols na temporada, mas sua carreira estava ameaçada: os ligamentos cruzados do joelho foram rompidos e ele estava por um fio de abandonar o esporte.

A Fiorentina quis pagar para ver e insistiu na contratação de Baggio, mesmo com ele inapto para atuar. O clube arcou com as despesas e mandou o menino para a França a fim de passar por uma cirurgia. Contudo, mesmo com a inovação no método aplicado para a reconstrução dos ligamentos, Roby se viu em um dilema. Foram dados mais de 200 pontos internos para a cicatrização da sua lesão, mas como ele era alérgico aos remédios receitados, precisou aturar por mais de um ano as dores no local operado.

Foram quase duas temporadas de molho até que a recuperação natural finalmente terminasse. Com fisioterapia e acompanhamento psicológico, Baggio voltou completamente só em 1987, no fim da disputa da Serie A, quando não sentia mais fortes incômodos que atrapalhassem o seu desempenho.

“Eu passei por uma operação muito arriscada para aquela época. Eles tiveram que perfurar minha patela para a reconstrução dos ligamentos. Eu sou alérgico aos analgésicos mais poderosos, então fiquei em uma agonia absoluta por dias a fio nos meses seguintes. Mas eu segurei firme porque tinha muita paixão pelo jogo”, disse Baggio.

Mas o próprio Roberto admite que até o fim da carreira sofreu com pequenas sequelas daquela contusão de 1985. Na temporada de 1986-87, dando passos largos para retornar e mostrar seu talento, fez três gols. Só em seu terceiro ano com a Fiorentina é que pôde realmente ser titular e ficar longe de problemas físicos.

Por essa razão, Baggio mostra tanto apreço com a Viola sempre que é perguntado sobre os momentos favoritos de sua carreira. Neste intervalo, se converteu ao budismo e passou a frequentar o templo da Soka-Gakkai, que lhe ensinou a ter disciplina e motivação para encarar os grandes desafios. A crença é tão forte na sua vida que ele passou a usar a bandeira da doutrina em sua faixa de capitão.

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A ressurreição

Foto: Goal.com
Foto: Goal.com

A aposta da Fiorentina vingou. De 1987 a 90, a torcida ficou absolutamente encantada com o estilo de Baggio. Um jogador que se movimentava com intensidade, tinha excelente faro de gols, poder de finalização e ainda sabia cobrar faltas com qualidade. Era um exímio armador e artilheiro, algo que a Itália esperou por muito tempo para conhecer.

Logo, o menino que era dado como derrotado anos antes, estava de volta e era uma promessa dourada para o futuro. Convocado para a Copa de 1990, na Itália, foi um dos grandes artistas do time que chegou até as semifinais e parou nos pés da Argentina de Maradona, nos pênaltis.

O penteado com mullet encaracolado deu lugar a um icônico rabo de cavalo, que foi a marca registrada de Roby fora dos campos. Dentro das quatro linhas era um jogador incrível e exemplar em cobranças de falta, tanto é que virou um simpático joguinho de computador, anos depois. 

Após a Copa do Mundo, Baggio assinou contra a vontade pela Juventus, nunca superando a sua saída do Artemio Franchi, que esquentou a rivalidade entre os dois clubes. Certa feita, atuando pela Juve, se recusou a bater um pênalti contra a Viola pela Serie A e perdeu um pouco do prestígio conquistado. Nada que ele não reconquistasse pouco depois com a sua mágica.

Roby de Turim

Foto: Juventuz Forum
Foto: Juventuz Forum

Com a camisa alvinegra, foi votado como Melhor Futebolista da Europa e Bola de Ouro da France Football em 1993, campeão da Copa Uefa no mesmo ano e depois venceu a Serie A, em 1995, seu último ano no clube turinense. Astro da Itália na Copa de 1994, era o principal jogador do time que foi vice-campeão, perdendo nos penais. Infelizmente, quem lembra de Roberto, acaba diminuindo a sua carreira ao fato dele ter perdido a cobrança que deu o Tetra ao Brasil.

Só mesmo a escalada de outro gênio do futebol viria a tirar o lugar de Baggio como queridinho da torcida juventina. E este nome, por acaso, é o grande ídolo da história recente da Velha Senhora: Alessandro Del Piero.

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Depois de ter saído em baixa da Juve, muito por causa da derrota na final da Copa Uefa contra o Parma, em 1995, Baggio jogou pelo Milan. Ainda disputou outro Mundial, em 1998, defendeu o Bologna, a Internazionale e o Brescia, se aposentando em 2004 com uma reputação muito boa com o povo italiano. Para quem passou quase um ano comendo o pão que o diabo amassou, o fim da história é feliz, mostrando que vale a pena acreditar na bonança.

2 pensamentos em “A volta por cima que fez de Baggio um fenômeno mundial”

  1. Craque!!! Aos mais novos quero dizer: imaginem um italiano que sabia driblar, habilidoso, de fino trato com a bola. Atualmente, nenhum jogador da Itália lembra Baggio. Nenhum!!!

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