Fim de jogo. Até a próxima

tiago (1)

Conheci o Tiago em 2011, no meio de uma conversa torta de Facebook em um post da amiga Luciana Zambuzi. Por causa dela, comecei a ter contato com um professor meio maluco que dava aulas de História em uma Federal de Recife. A gente sempre bateu papo sobre tudo, desde as brigas do futebol sul-americano até os tombos que levamos na vida. Tive a feliz oportunidade de conhecê-lo pessoalmente na semana retrasada. E calhou de ser a nossa última. Mas faz parte.

Ricocheteia na minha cabeça que basta estar vivo para morrer do nada. Sei bem que a passagem dele não foi exatamente um golpe brusco do destino ou algo que ninguém esperava. Se eu bem conheço o Tiago, ele não queria nenhum alarde e riria da minha cara se eu fizesse qualquer coisa muito poética ou emocional para lembrar dele depois.

Perder um amigo é um misto de impotência com uma saudade que você não imaginava sentir. Tiago sempre foi aquele cara despojado, um tanto quanto desapegado e bonachão, que gostava de fazer as mesmas coisas: passar o fim de semana assistindo futebol, tomando cerveja e falando bobagem com os amigos. Essas coisas de tiozão.

De todas as nossas conversas, as últimas, ao vivo, foram as que mais me deixaram com uma interrogação na cabeça: se você soubesse que está indo, como iria querer que fosse o seu fim? Provavelmente fazendo tudo aquilo que gosta e não abandonaria nem na iminência da sua última viagem. Não quero ser mais invasivo que isso, então só posso dizer o que percebi dele.

Ele não estava bem, mas fazia um esforço tremendo para passar uma imagem de tranquilidade, e veja só, se preocupando com a nossa preocupação em relação a ele. Vai entender. Ali, sentados no sofá da Tia Lílian e comentando os programas esportivos da TV, a gente gastou um bom tempo fingindo que nada podia acontecer. Como sempre, ele me contou histórias, fantásticas histórias que ainda serão reproduzidas algum dia desses.

A questão, Tiago, é que tudo que você fez certamente lhe trará algum reconhecimento, mesmo que você não possa expressar mais com as suas piadinhas pedindo que a gente não te constranja com as verdades que você sabe e concorda, mas tem vergonha de parecer pateta.

No maior tombo da minha vida, você foi o primeiro a dizer que iria ficar tudo bem. Mas não falou só por falar, como a maioria das pessoas fazem antes de se distanciarem de nós. Você me mostrou por que é que eu não deveria perder nenhum dia a mais lamentando aquele 2013 desgraçado. E tinha razão. Na sua velhice, que eu sempre ridicularizei, você viu muita coisa que eu gostaria de ter visto, mas só posso imaginar ou ter uma ideia pelo Youtube e pelos livros.

Na sua velhice, que eu pretendo imitar em alguns pontos, você teve enorme coragem para lidar com o maior desafio de todos. E por isso merece muito respeito. Foram alguns programas de rádio e milhares de horas jogando conversa fora, sempre fugindo do objetivo inicial. Mas se quer saber, Tiago, nenhum minuto gasto com a sua sabedoria, não importa a forma que você escolhesse para exibi-la, causou prejuízo. Muito pelo contrário.

Agora toda vez que eu ouvir falar no Peñarol ou na seleção do Uruguai, vou lembrar de você. Vou lembrar daquele dia em que você se embebedou ouvindo o clássico contra o Nacional no rádio, do dia em que nós contamos um por um os atores de Cambalacho que já morreram e também quando você me contou desesperado que estava enrolado com uma italiana que na verdade nem era italiana, mas morava lá e quase estragou a sua passagem por Turim.

Eu prefiro não dizer que você é quase um pai pra mim, porque afinal de contas eu já tenho um e ele tem comportamentos parecidos com os seus. Talvez um tio, aquele tio fanfarrão que ensina as lições da vida de um jeito tão escrachado que você nem percebe que está aprendendo, mas de algum jeito leva aquilo adiante.

Estou certo de que muita gente vai sentir a sua falta daqui pra frente. Que vamos ter um vazio esquisito ao conversar sobre os temas que você costumava visitar. Que vamos ter dificuldade em manter a compostura quando lembrarmos da última coisa boa que você fez por nós.

Eu não me lembro de ter ficado triste falando com você. A gente tinha uma dinâmica bizarra de levar tudo com a maior paz de espírito possível. Eu não acredito muito nisso e sinceramente também acho que você não acreditava, mas você foi assim, sem demonstrar o mínimo de apavoro. E ao contrário de muita gente que vai lamentar a sua partida e que adorava o seu jeito, pude me despedir de verdade.

Levantei da poltrona, peguei a mala e a mochila, você estava em pé, com a sua infalível camiseta da Ponte Preta, a da foto acima. A Alice estava prestando atenção no jogo entre Panthers e Cardinals na TV. A gente tinha acabado de jantar a pizza mais rápida de São Paulo (e também a mais cara). Fui na sua direção e guardei todo aquele discursinho meloso de agradecimento. Depois de cinco anos eu pude te dar um abraço, o último abraço, ouvindo de você que a gente se veria por aí.

Bem falei do meu casamento, em dezembro, e que lhe mandaria os convites, você respondeu que “iria ver”, de forma lacônica e misteriosa. Ali eu soube. Mas não passou pela minha cabeça deixar aquilo claro. Você nunca tinha mentido pra mim até aquele momento. E eu também nunca menti ou omiti nada que te dissesse respeito, a gente sempre foi muito franco um com o outro.

“Até a próxima”, você disse. E eu voltei antes pra minha cidade quando o plano era sair junto com você, na terça-feira, quando fosse a hora do seu voo para Recife. Não deu para esperar até lá e a gente não vai ter uma próxima oportunidade. Pelo menos não nessa vida. mas apesar disso, foi possível sentar e conversar como há muito a gente estava planejando.

A sua passagem para Curitiba não vai ser paga, você não vai entrar mais no Facebook pra me contar como é que o Zico jogava no Maracanã e nem porque o Jorginho era um puta pé frio. Então eu acho que fica por isso mesmo. Fim de jogo, apita o juiz, até a próxima… vou ficar te devendo essa.

1 pensamento em “Fim de jogo. Até a próxima”

  1. Seguia o Tiago pelo Twitter, ótimos comentários, estranhei nunca mais ter visto nenhuma postagem dele, senti falta, na verdade, fui atrás e vi a triste notícia. Senti como se tivesse morrido hoje, sentimento de perda de um grande conhecimento e de uma grande experiência. Fará muita falta, com certeza. Fiquei muito triste, pela grande pessoa que ele era, que pude perceber nas suas postagens. RIP Tiago.

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