Desailly, de carrasco a herói do Milan na Champions

Foto: Quattro Tratti
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Imagine como é ser campeão de algum torneio duas vezes consecutivas. Pense na alegria e na satisfação profissional de criar uma hegemonia em alguma competição. Tudo bem, agora pense na Liga dos Campeões e nos que tiveram a possibilidade de vencê-la dois anos seguidos. Feito isso, lembre de Marcel Desailly. Ele conseguiu isso, mas de um jeito diferente, por dois clubes distintos, em uma história de reparação e pioneirismo.

A carreira do zagueiro francês começa em 1986 no Nantes. Ele foi adotado quando criança pelo seu padrasto, diretor do consulado da França em Accra, Gana. Nasceu Odenke Abbey e mudou de nome antes de completar quatro anos, idade em que se mudou para a França.

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Toda a trajetória de Desailly, conhecido como “A Rocha”, foi uma prova de amor à França, a nação que lhe deu tudo na vida. Do Nantes, onde conheceu Didier Deschamps, foi para o Marselha, que montava uma seleção de jogadores internacionais no início da década de 90. Em 1992, assinou contrato com aquele que é o único clube do país a ter vencido a Liga dos Campeões no ano seguinte.

A arrancada do Marselha até a taça é uma das histórias mais interessantes do novo formato apresentado pela Uefa para a Liga dos Campeões. Afinal, as equipes se dividiam em grupos, deixando o modelo de mata-mata apenas com campeões nacionais para trás.

Em 1991, os franceses passaram perto do sonho europeu na decisão contra o Estrela Vermelha, em Bari. Os sérvios venceram nas penalidades com um time que se tornou o último grande suspiro da Iugoslávia como força internacional antes de sua dissolução para Croácia, Bósnia, Sérvia, Montenegro e Macedônia.

O primeiro título francês na Champions

Foto: Eurosport
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Mas em 1993, a sorte dos marselheses mudou. O time era mais forte e experiente, com cancha para bater adversários tradicionais. E assim se fez na decisão contra o Milan, bicampeão em 1989 e 90, mas que não havia logrado sucesso em renovar seu título desde então.

Na decisão, com a base do time que seria campeão mundial pela França anos depois, em 1998, o Marselha peitou os gigantes italianos e fez 1-0 no placar. Naquela tarde, em Munique, o volante Basile Boli viveu um dia de herói inesperado. Quando todos esperavam que Rudi Völler ou Marco Van Basten fossem os marcadores, Boli marcou aos 43 minutos, de cabeça, o gol que sacramentou o título dos alvicelestes. Certamente um sonho realizado para a controversa figura de Bernard Tapie, patrono do Marselha e que se envolveu em escândalos de corrupção para fazer do seu time uma força de nível mundial.

Descobriu-se mais tarde que o Marselha tentou subornar atletas do Valenciennes na reta final do Francês para que eles perdessem e não machucassem ninguém do time, que disputaria a decisão europeia dias depois. A Uefa não alterou o resultado de campo na Champions, mas cassou o direito dos franceses de disputar o Intercontinental em dezembro contra o São Paulo. Em seu lugar, foi o Milan, que acabou perdendo para os meninos de Telê Santana.

Do outro lado

Foto: Uefa
Foto: Uefa

Alguns meses depois de ser campeão europeu pelo Marselha, Desailly saiu do clube em uma debandada de atletas. Os marselheses foram punidos com o rebaixamento para a segunda divisão como punição pelas atitudes corruptas anteriores. Ironicamente, o destino de Marcel foi o Milan, que precisava de um volante respeitável para repôr a saída até então irreparável de Frank Rijkaard, contratado pelo Ajax. O francês podia muito bem executar aquele papel com qualidade.

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Pela equipe italiana, Marcel venceu a Serie A e a Liga dos Campeões em 1994. Na decisão, um duelo inesquecível de arrasar quarteirões: uma surra contra o Dream Team do Barcelona de Romário, Stoichkov e Koeman. Para quem esperava equilíbrio no estádio Olímpico de Atenas, o Milan entrou para matar e fez 4-0 no placar, com um gol de Desailly para fechar a conta.

Massaro marcou dois, Savicevic fez o terceiro e Desailly anotou o quarto, já na segunda etapa, para selar um dos grandes atropelamentos da história das finais da Liga dos Campeões. Uma verdadeira aula de futebol de Fabio Capello contra o experiente e visceral Johan Cruyff. Ali, o Dream Team do holandês começava a desmoronar.

Desailly era campeão europeu pelo segundo ano consecutivo, por uma equipe diferente. Como prova de que queria corrigir o fato de ter atuado pelo Marselha no ano anterior, fez um gol de presente para a torcida milanista. Ainda foi campeão italiano outra vez, em 1996, antes de sair para o Chelsea em 1998.

A façanha de Marcel foi icônica, mas hoje em dia não é mais a única. Foi reprisada mais tarde por outros três jogadores: Paulo Sousa (Juventus 1996 e Dortmund 1997), Gerard Piqué (Manchester United 2008 e Barcelona 2009), Samuel Eto’o (Barcelona 2009 e Internazionale 2010). Mas nos livros de história, Marcel Desailly é o primeiro nome de todos a conseguir tal proeza. E por isso deve ser saudado.

2 pensamentos em “Desailly, de carrasco a herói do Milan na Champions”

  1. Olimpique de Marseilhe não era a base da seleção francesa de 1998… Tinha alguns jogadores…mas muito longe de ser a base do time.

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