Heróis da Fila: Jorginho no Palmeiras

Foto: Placar
Foto: Placar

Falar de Jorginho Putinatti no Palmeiras é contar uma história que não teve final feliz. Dentre as grandes injustiças do futebol, a passagem do meia pelo esporte acabou sem nenhum troféu. Mas que isso não seja um argumento para diminuir a sua importância.

Para o palmeirense que não conhece a trajetória de Jorginho, a imagem principal que fica é a da capa da Placar em que ele abraça um porco e encerra um tabu da torcida a respeito do apelido dado por rivais. Pois o porco, como uma ofensa, remetia o Palmeiras à imagem dos fascistas italianos, apelido que pode ser melhor explicado neste texto aqui.

Foto: IG
Foto: IG

A capa foi emblemática porque representou a aceitação palmeirense ao porco. Depois disso, o periquito que era mascote e referência ao clube, foi trocado pelo porquinho. Muito embora o Verdão ainda utilize imagens dos dois em seu estádio, como pode se ver no Periquitão, o mascote fanfarrão que brinca com a bola e bate pênaltis no intervalo.

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Jorginho foi muito mais do que um simples abraçador de porquinhos na capa da Placar. Foi um jogadoraço. Chegou em 1979, vindo do Marília, e ficou até 1987 no Palmeiras. Exímio cobrador de escanteio, também marcava seus gols em chutes venenosos, tinha boa qualidade de passe e muita presença no meio-campo. Só não teve tantas chances na Seleção em virtude da forte concorrência na posição.

Um dos primeiros bons momentos dele com a camisa alviverde aconteceu no Maracanã lotado, diante do Flamengo de Zico. A atuação marcou época e foi o que impulsionou o Palmeiras de Telê Santana até a boa campanha no Paulistão de 1979. O problema é que um adiamento da rodada de semifinal provocou uma parada de mais de um mês e estragou a forma física dos alviverdes, que estavam em grande fase. O Corinthians levou a melhor e eliminou o rival, para bater a Ponte Preta na decisão. No Brasileirão, o Inter de Falcão foi o carrasco, nas semifinais.

De 1979 em diante, o Palmeiras teve alguns outros momentos de depressão. Não por culpa de Jorginho. Se dependesse dele, as taças viriam aos montes, mas a sorte e talvez uma maldição, impediram que isso acontecesse. Franzino, era cobrado por não ter muita força nos combates. Entretanto, a criatividade e a movimentação compensavam a fragilidade física.

De 1976 a 1993, o alviverde da Turiassu não venceu absolutamente nada, mas por esquizofrenia do destino, teve alguns jogadores memoráveis em seu elenco: Jorge Mendonça, Éder Aleixo, Mendonça, Mirandinha, Darío Pereyra, Pedro Rocha, Edu Manga, Edu Marangon, Neto, Edmar, uma infinidade de atletas que pagaram a conta do jejum.

O pé frio

Foto: Folha
Foto: Folha

Mas Jorginho foi o maior crucificado. Ele estava nas grandes derrotas para pequenos e que causaram feridas profundas na identidade palmeirense. Os anos 1980 foram ricos em piadas para os rivais, algo que como dizem por aí, “forjou caráter”. Se as derrotas tem esta força de forjar caráter, Jorginho saiu da história como o craque que era ídolo, mas pé frio. Algo que ele mesmo reconhece.

Veio a derrota para o XV de Jaú em 1985 e a final histórica contra a Inter de Limeira. O Palmeiras entrava definitivamente na lama. De 1976 até 86, muita coisa mudou. Os craques da Academia não estavam mais lá. Alguns até voltaram, como Leão e Luís Pereira, mas não estavam na mesma forma física e claramente o elenco palmeirense não tinha tanto peso quanto aquele que dominou o Brasil na década anterior.

Voltamos a Jorginho: ele estava em campo nestes dois vexames pelo Paulistão em 85 e 86. O Palmeiras completava com ele uma década inglória e repleta de decepções, quases, para não dizer a desgraça que é ver um campeão decadente. Mas o futebol é cíclico e nenhum clube vence ou perde para sempre. Com Jorginho, naquele que muitos se referem como o pior Palmeiras, foram 160 vitórias, 131 empates e 82 derrotas até fevereiro de 1987, quando ele assinou com o Corinthians.

Aliás, a transferência para o Timão é outro capítulo curioso dessa trajetória. Jorginho se sentia culpado pelos fiascos do clube e foi embora para não viver mais momentos traumáticos como aquele diante da Inter de Limeira. Mas afinal, por que Jorginho era tão identificado com a torcida?

Ele não falhou como Denys e Martorelli no segundo e crucial gol da Inter em 86. Não errou um pênalti, não fraquejou na hora H, muito pelo contrário. Quanto pesa o azar na construção de um jogador? O lado emocional pode impedir alguém de ser um craque, um atleta especial? Jorginho foi o cara que se transformou em um torcedor dentro de campo, uma representação clara e talentosa de alguém que tinha a sua vida afetada pelo que o Palmeiras causava. Como todo palmeirense que se preze.

Em fevereiro de 1987, fez seu último jogo pelo Verdão, aos 26 anos. Acertou direto com o Corinthians, onde não foi bem e acabou hostilizado pela Fiel. Um ano depois de trocar o Parque Antárctica pelo Parque São Jorge, foi para o Fluminense. Não durou muito nas Laranjeiras e ainda rodou por Grêmio, Santos, XV de Piracicaba e Nagoya Grampus, onde encerrou a sua carreira, sem nenhum título.

2 pensamentos em “Heróis da Fila: Jorginho no Palmeiras”

  1. Um adendo: em 1987 Jorginho fez parte do elenco gremista que foi tricampeao gaúcho, embora tenha sido dispensado antes das finais daquele ano. De qualquer modo, ele também foi campeão.

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