Seu Raimundo, o maior corneteiro de Sócrates

Foto: UOL
Foto: UOL

Todo jogador, por mais incontestável que seja, terá um crítico ferrenho. Alguém que não é adepto do seu estilo, contesta os seus feitos ou que não se rende a um fenômeno do esporte. No caso de Sócrates, um jogador puramente artístico e capaz de liderar espetáculos em campo, o crítico estava muito perto, dentro do peito. O seu pai, Raimundo Vieira.

Seu Raimundo Vieira nasceu em Fortaleza e era autodidata. Estudioso, era constantemente visto entre páginas de livros os quais ele devorava para adquirir um pouco mais de cultura e preparo para a vida. Nessas voltas do destino, virou funcionário público e se mudou para Belém do Pará em meados dos anos 1940, para trabalhar nos Correios. Lá, conheceu a mulher que seria sua esposa e mãe de seus filhos, Guiomar.

Mudou mais uma vez para Igarapé-Açu, perto de Belém. Depois para Teresina. Eles já eram pais de três crianças quando sentiram a necessidade de fazer outra troca de endereço. Seu Raimundo passou em mais um concurso e virou um fiscal da Receita Federal. Escolheu a cidade de Ribeirão Preto, já na década de 1960, onde veria lentamente a história de uma lenda ser construída.

Seu filho mais velho já era chegado em uma bola desde pequeno, quando viu algumas vezes o Santos de Pelé jogar contra o Botafogo de Ribeirão Preto no estádio Santa Cruz. Depois de uns bons dez anos, o menino mudou de lado e deixou a posição de espectador para virar um futebolista do time da casa.

Sócrates não fazia o estilo raçudo, bravo, aquele cara que saía imundo de campo por dar carrinhos ou correr o jogo inteiro. Muito pelo contrário. Como não dispunha de uma forma física elogiável em virtude do vício no cigarro e na bebida, se virava com seus talentos inigualáveis e na técnica natural que apresentava.

Alto, magro e com passadas largas, o meia se notabilizou jogando pelo Botafogo de Ribeirão Preto e posteriormente no Corinthians. Desde o começo, quando ainda nem usava a famosa barba e tinha o apelido de Doutor, Sócrates ouvia cornetadas infalíveis nas arquibancadas do estádio Santa Cruz.

Seu Raimundo era o mais próximo de um técnico que o Botinha poderia ter. Do concreto duro nas bancadas, o pai de Sócrates berrava com todos os jogadores que não jogavam de acordo com as suas crenças. Sobretudo o filho, que escolhia caminhar ou armar suas jogadas na sombra para fugir do forte sol ribeirão-pretense.

Nos primeiros anos, o garoto já ensaiava momentos de genialidade, mas ficava devendo na entrega e quase sempre ficava parado para recuperar o fôlego após piques periódicos. Originalmente um meia de bons dotes criativos, Sócrates frequentemente ia parar na ponta-esquerda, tudo para ficar no frescor da sombra que era produzida no estádio.

Não basta ser pai, tem de participar

Foto: Minhas Camisas
Foto: Minhas Camisas

O Magrão ganhou a cidade com a sua camisa 8. Mas continuava incomodando Seu Raimundo, que revoltado e a plenos pulmões, gritava: “Oito, sai da sombra! Oito, sai da sombra!” O pai não sossegava enquanto não visse o atleta correndo ou se esforçando para ajudar os colegas na marcação, mostrando verdadeiro empenho.

Em 1974, Seu Raimundo quase pagou pela boca e pela cornetagem. Depois de gastar sua voz para pedir mais movimentação de Sócrates, foi abordado por outros torcedores do Botinha que deixaram as tribunas para agredi-lo. Antes que o pior acontecesse, ele se explicou dizendo que o tão criticado número oito era na verdade seu filho.

Chuta mais ao gol, Sócrates

Sócrates cresceu demais depois daquilo. Foi ídolo no Corinthians, convocado para a Seleção Brasileira e chegou para a Copa do Mundo de 1982 com muita moral, respeitado como o capitão daquele time maravilhoso treinado por Telê Santana. Enquanto o país se curvava ao seu futebol clássico, Raimundo seguia tendo restrições a respeito do jogo do herdeiro.

O Brasil estreou na Copa da Espanha contra a União Soviética e venceu por 1982. Para muitos, a atuação não convenceu como deveria, pois aquele esquadrão não estava em pleno potencial. A Seleção venceu por 2-1 com um golaço de Sócrates e outro de Éder. Mas aquele jogo encardido e suado deixou Seu Raimundo um pouco inconformado.

“O velho não me perdoou. Junto com o parabéns, mandou lenha: ‘Você demorou muito para perceber que precisava participar mais do jogo, chutar mais a gol. Viu como ficou fácil marcar vindo de trás com a bola?” Sócrates, em entrevista à Placar, durante a Copa-82.

Sobre a Democracia

Foto: GloboEsporte.com
Foto: GloboEsporte.com

Seu Raimundo não era o maior fã dos atos patriotas de Sócrates. No livro “Sócrates”, de Tom Cardoso, um trecho em especial ajuda a sublinhar a influência que o pai tinha sobre o filho. Ou pelo menos tentava. Em meio ao assédio de europeus pelo futebol do corintiano, que também articulava o movimento da “Democracia Corinthiana”, Raimundo acreditava que ele deveria aceitar uma proposta e fazer seu pé de meia fora do país, pois ainda era jovem e tinha plena condição para isso.

Ser patriota assim não dá. Eu lhe diria que todo jovem dos 20 aos 30 anos é de esquerda, tem grandes ideias e não dá importância ao dinheiro“, disse Seu Raimundo em março de 1984, à Placar. Exceto a primeira frase, ele estava correto enquanto às convicções de Sócrates.

Quase Ponte Preta

Em 1985, já brigado com a Fiorentina e tentando sair da Itália, Sócrates voltou ao Brasil e por muito pouco não virou jogador da Ponte Preta. Em um negócio ambicioso, a equipe campineira entrou em um pool de empresários que visavam investir uma grana preta na contratação do craque. Um consórcio chamado Luqui-Bandeirantes, intermediado por Luciano do Valle, prometia isentar a Fiorentina de pagar o restante do contrato com o brasileiro e ainda iria dar uma bolada para que o jogador topasse acertar com a Ponte.

Com a promessa diante dos seus olhos, Sócrates pegou o avião e desceu em Guarulhos, não sabendo que os ambiciosos planos estavam indo por água abaixo. Muitos fatores estavam interligados à transação: a CBF marcara um amistoso contra a Fiorentina, a Band estava providenciando um jogo no Morumbi entre Ponte e Real Madrid para a estreia de Sócrates, que receberia 10% do montante envolvido na estratégia e teria metade de seu salário pago pelo consórcio Luqui-Bandeirantes. A Ponte se comprometeu a vender 30 mil carnês para lotar o Moisés Lucarelli em 13 jogos ao longo da temporada 1985.

Foto: Delantero Centro
Foto: Delantero Centro

Nada disso deu certo, ficou tudo no campo da promessa e Magrão não viu nem um centavo. Sócrates brigou ainda mais com a Fiorentina, que se isentou de pagar o resto do contrato que devia ao jogador. Pobre e livre de contrato, o jogador bateu pela primeira vez no fundo do poço e a sua família se sentiu da mesma forma afetada pela rasteira sofrida.

Seu Raimundo foi a cara da decepção com aquele momento:

O importante é o Sócrates voltar para casa com a família. Penso que ele já tenha feito muito pelo futebol. Parar de jogar não traria grande frustração“, disse aos jornais. De um jeito ou de outro, o pai estava correto. Depois de sair da Fiorentina, em 1985, Sócrates nunca mais foi o mesmo e jogar futebol foi algo que ele continuou fazendo apenas por prazer. Quer dizer, nem sempre.

LEIA TAMBÉM: Sócrates no Flamengo, a promessa que nunca foi cumprida

Defendeu o Flamengo, o Santos e o Botafogo em jogos oficiais, parou em 1989, aos 35 anos. Atormentado por lesões e obrigações com as quais não queria mais arcar, largou a bola para viver tudo aquilo que não conseguiu porque estava ocupado demais viajando pelo Brasil e pelo mundo.

De alguma forma, Seu Raimundo tinha razão quando enxergou que ele não teria grande frustração ao parar de jogar. Frustrado ficou o futebol por perder um gênio tão brilhante quanto ele.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *