Heróis da Fila: Giovanni no Santos

Foto: UOL
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O Santos vivia anos nebulosos no início da década de 1990. Sem dinheiro, prestígio, grandes craques e esperanças, o Peixe não conseguia encaixar gerações de jovens formados na base como no fim da década de 1970. Nesse contexto de investimentos pequenos e jogadores desconhecidos, chegou  à Vila um certo meia vindo do futebol do Pará, chamado Giovanni.

Desacreditado do futebol, o meia quase abandonou a carreira depois de uma passagem fraca pelo Sãocarlense, que jogava a segunda divisão paulista. No entanto, antes de se despedir da equipe do interior, o meia teve uma partida transmitida pela TV e foi visto por cartolas santistas, que pediram o seu empréstimo ao Tuna Luso, equipe que era detentora do seu passe. Nesse intervalo, o meia quase atuou pelo Palmeiras, mas não passou em testes da Academia e acabou voltando para o Pará.

Para Giovanni, chegar e encarar a dureza de ser titular pelo Santos foi uma missão cumprida com muita paciência. Foram três meses de espera até a primeira partida como titular, bancado pelo então técnico Serginho Chulapa. Fez sua estreia pelo Santos, contra o Botafogo, em outubro de 1994, dando o passe para o gol de Guga e o Peixe fez 2×0 no placar. O atleta era tão desconhecido para o grande público, que sequer apareceu no Guia da Placar no Brasileirão de 1994.

Giovanni não demorou a conquistar o carinho da torcida depois disso. De repente, o atleta que não tinha feito sucesso no Pará era um novo hit na Vila Belmiro. Os dribles, lances de puro talento e gols fizeram a sua ascensão ligeira com a camisa santista. E para quem pensava que ele sentiria o peso de usar o número 10 de Pelé, o meia deu um banho de futebol, mostrando muita maturidade e domínio dos fundamentos para um jogador da posição.

O desempenho de Giovanni foi tão bom que o craque Neto foi parar no banco. Longe de sua grande fase, o ex-corintiano perdeu espaço e a 10 para o novato paraense. Giovanni decolou e estourou naquele mesmo ano de 1994, sendo um dos principais meias do Brasileirão.

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Tinha facilidade para aplicar chapéus, canetas, sem falar na capacidade de parar o tempo e encontrar a melhor oportunidade para um passe ou uma assistência. Logo, Giovanni virou o “Messias”, o salvador de tempos duros no Santos. A disposição física permitia que o atleta chegasse inteiro em todas as divididas, com grande potência na finalização. E se parecesse pouco versátil, ainda chegava com oportunismo para completar de cabeça. Um verdadeiro craque.

O quase de 1995

Foto: R7
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O Santos vinha desde 1984 sem conquistar títulos. A fila demorou até 1998, na Copa Conmebol. Mas para outros torcedores do Peixe, a redenção veio mesmo só em 2002, com o título brasileiro da geração de Robinho, Diego, Elano, Renato e Léo. Giovanni foi o grande ídolo antes daquele time, a segunda geração dos Meninos da Vila.

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Por pouco (na verdade, por causa de Márcio Rezende de Freitas) o Santos não acabou com o jejum em 1995. Em grande forma, Giovanni foi o maestro que levou o time até a final do Brasileiro, contra o Botafogo. É verdade que aquele time não era um primor técnico, mas com o camisa 10 em campo e a garra dos seus colegas, nenhum desafio parecia impossível. O mesmo podia ser dito a respeito do Bota, que foi impulsionado pelos gols de Túlio e Donizete.

O Santos vinha com a cara e a coragem. Na semifinal, protagonizou um jogo épico contra o Fluminense, vencendo o jogo de volta por 5×2, com dois gols de Giovanni no Pacaembu. Os alvinegros reverteram um incrível 4×1 do Flu no Maracanã, três dias antes. Aquele jogo é marcado como a grande atuação santista na campanha. Não que o time não tivesse ido bem na final, mas a superação foi incrível e marcante.

No entanto, a fantasia do título foi despedaçada com uma arbitragem ridícula de Márcio Rezende de Freitas, no Pacaembu. No Maracanã, vitória botafoguense por 2×1 Era para ser outra virada histórica do Peixe, que estava fulminante e determinado a vencer. O Bota saiu na frente com Túlio, impedido. O Santos quase empatou com Giovanni, que errou livre de cara para o gol.

A igualdade veio com Marcelo Passos, no segundo tempo, e pressão de Giovanni e seus colegas era intensa. Sentindo o golpe, o Fogão se segurou, mas levou o segundo, de Camanducaia. O bandeira, no entanto, anulou enxergando posição irregular de Camanducaia (ele estava em condição legal) e prejudicou o Santos, que teria vencido a disputa por ter melhor campanha que os cariocas.

A frustração foi um duro golpe no emocional de Giovanni, mas assim como o restante do elenco santista, ele deu a volta por cima. Foi o vencedor da Bola de Ouro e começou 1996 em alto nível, marcando 24 gols no Paulistão, vencido pelo Palmeiras. Logo após o Estadual, o meia foi vendido ao Barcelona.

Graças a ele, o Santos reformou a Vila Belmiro com os 10 milhões de dólares, mas não formou um elenco competitivo para repor a perda do atleta. O seu retorno se deu nove anos depois, em 2005, e o craque teve boas atuações antes de ser negociado com Al-Hilal, da Arábia Saudita.

A aposentadoria do craque aconteceu em 2010, com poucos jogos pelo Santos, sendo quase sempre reserva. Teve pouca participação no título da Copa do Brasil daquele ano, o que prova que os seus grandes tempos não coincidiram com o sucesso do clube no cenário nacional.

Messias não precisou de taças para entrar no coração do alvinegro, em um raro caso de admiração e identificação que transcendem a lógica dos viciados em conquistas.

3 pensamentos em “Heróis da Fila: Giovanni no Santos”

  1. monstro! lembro como em 95 ele fez os adversários empilharem derrotas no sprint final da primeira fase. na final em si, tenho a forte impressão de no dia ter ouvido no mundo todo um triste ruido de fundo: túlio merecia mas foi “roubado”…

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