Por que Zico não vingou como deveria na Udinese

Foto: RAI
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Em 1983, o Flamengo perdia o seu grande ídolo para o ambicioso futebol italiano. A Udinese venceu a briga contra Juventus, Napoli e Roma e pagou 4 milhões de dólares pelo melhor jogador do Brasil na época. Por dois anos, o Galinho emprestou sua magia aos friulani, com altos e baixos.

O impacto de Zico foi imediato. Mesmo sem um time qualificado como os rivais, o técnico Enzo Ferrari tirou do camisa 10 atuações fantásticas. Para tentar ajudar o seu craque a fazer gols e boas campanhas, o elenco contava com o zagueiro Edinho, ex-Fluminense, o meia Luigi De Agostini, os atacantes Franco Causio (o capitão), Paolo Virdis e o iugoslavo Ivica Surjak.

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Contra Genoa e Catania, primeiros compromissos da Udinese na Serie A, Zico detonou marcando quatro gols e dando quatro assistências, decidindo os jogos. Os placares chamaram a atenção: 5-0 fora de casa diante dos grifoni e 3-1 contra os sicilianos.

Foto: Storie di Calcio
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Uma sequência ruim de cinco jogos sem vitória tirou a Udinese do bolo que estava na frente da tabela. Tudo que o ataque fazia de bom, a defesa desconstruía com más atuações. Zico seguia bem, com três gols, mas o time só voltou a vencer na oitava rodada, diante da Roma, no Friuli. Aliás, o gol saiu dos pés do Galinho.

Irregular demais, a equipe de Enzo Ferrari penava para fazer pontos com frequência. Passava três ou quatro jogos sem vencer, sucumbia contra adversários complicados. E Zico tentava fazer a diferença, no maior estilo “exército de um homem só”.

A Udinese teve pontos altos na disputa: além da vitória contra a então campeã Roma, conseguiram emplacar em um 4-1 no Napoli, outro triunfo sobre o Genoa, por 3-1, um bom 3-1 contra a Fiorentina e um 2-0 contra a Lazio.

Ao fim da campanha, fez-se a discrepância entre o coletivo friulano e o individual por parte do carioca: nona colocação com 11 vitórias, 9 empates e 10 derrotas, 47 gols marcados e 40 sofridos, a terceira pior defesa da Serie A. Zico, por sua vez, se destacou e marcou 19 gols, ficando apenas um atrás do artilheiro Michel Platini, da Juventus, com 20.

Com um plantel mais apropriado, a Udinese teria brigado por alguma coisa, mas Zico era uma ilha de criatividade e gols no time de Ferrari. Pela Copa da Itália, o Verona foi a pedra no sapato dos friulani, nas quartas de final. Mesmo com a superioridade do brasileiro demonstrada em solo italiano, o esforço não foi o bastante para uma campanha mais digna.

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A desastrosa segunda temporada

Foto: Storie di Calcio
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Muitas mudanças abalaram a Udinese para 1984-85, segunda temporada de Zico no clube. Com a saída de Causio para a Inter, o time perdeu o capitão e a referência no ataque. O Galinho herdou a faixa e continuou como regente dos alvinegros. O treinador Ferrari também saiu, dando lugar ao brasileiro Luis Vinicio, que teve longa carreira na Itália. Mas as coisas estavam fadadas ao insucesso, sobretudo com a queda no nível técnico.

Zico, que já não era nenhum menino com seus 32 anos, sofreu com contusões e problemas fora de campo: foi alvo de uma investigação de sonegação de impostos e a sua contratação lá em 1983 acabou na mira da Justiça por irregularidades financeiras. Ele só foi absolvido das acusações três anos depois, quando já estava de volta ao Brasil.

Os números ruins de Zico tiveram um reflexo imenso no desempenho dos colegas: com ele em campo apenas 16 vezes, a Udinese amargou 15 derrotas. O capitão e camisa 10 fez só três gols pela Serie A, em uma caminhada tão desastrosa que quase culminou em queda para a segunda divisão. Veja bem: com um dos grandes craques que passaram pelo Friuli, o time foi motivo de chacota e flertou com a queda, ficando na 11ª colocação, três pontos acima do primeiro rebaixado, o Ascoli.

Era frequente ver Zico sofrendo em campo. As baixas temperaturas castigaram o seu corpo, assim como fizeram com Sócrates em sua fraca temporada na Fiorentina. Desesperada, a Udinese lutava por pontos cruciais nas últimas rodadas. O último jogo do brasileiro pelo clube foi em maio de 1985 contra o Napoli de Diego Maradona, na jornada 29, que acabou cercado por polêmicas.

A primeira Mão de Deus

Foto: Storie di Calcio
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O placar foi de 2×2 e Maradona foi o dono da partida. Fez um golaço de falta e outro de mão, como repetiria contra a Inglaterra em 1986, na Copa do Mundo. O lance foi originado em um chute no travessão que encobriu o arqueiro Brini, da Udinese. Maradona então foi para dividir com o goleiro e saltou para tocar com a mão na bola, marcando o segundo gol napolitano. O juiz validou e não enxergou a irregularidade.

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A Udinese jogou em alto nível, mas esbarrou no goleiro Castellini, que evitou vários lances de perigo para segurar o empate. Galparoli e De Agostini fizeram os gols friulanos que salvaram a equipe bianconera do rebaixamento. A passagem de Zico terminava com um gostinho amargo de que tudo poderia ser melhor, especialmente no segundo ano.

O convite do Flamengo para trazê-lo de volta (meses depois, o rubro-negro viabilizou a repatriação de Sócrates) foi crucial para a retomada e para os anos finais de sua carreira como ídolo flamenguista, com mais títulos no Maracanã. Aquele momento, em 1985, não era o mais propício para o estouro de um jogador como Zico na Itália, visto que ele não conseguiu vencer os obstáculos para ser bem sucedido.

No fim, a estadia em Udine foi mesmo marcante pelo seu talento e pela sua grande primeira temporada. Difícil de questionar a sua volta ao Brasil, já que foi a melhor decisão a ser tomada com tantos problemas extra-campo acumulados.

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