Como o “homão” Yustrich virou piada no Cruzeiro e se aposentou

Foto: Placar
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Yustrich sempre foi um disciplinador. Desde que iniciou carreira como técnico, nos anos 1950, ganhou fama de durão, encrenqueiro e de temperamento difícil. Por isso e pelo seu porte físico, foi apelidado de “Homão”, tamanha imponência e exigência em relação aos atletas. Mas quando estava no Cruzeiro, em 1982, virou motivo de chacota para os craques.

Dos anos 1930 aos 50, quando era goleiro profissional e passou por Flamengo, América e Vasco, Dorival Knipel ficou conhecido como Yustrich após uma excursão do Fla na Argentina, em que o clube carioca enfrentou o Boca Juniors. A imprensa e sobretudo os seus colegas consideravam Dorival muito parecido fisicamente com o camisa 1 argentino e a alcunha pegou de vez.

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Pois bem: Yustrich tinha um estilo inconfundível de treinar. Era adepto de práticas extremamente rígidas, quase militares, forçava os seus jogadores a treinarem regularmente, sem dar colher de chá aos mais preguiçosos. Criou também a escola de técnicos que batiam de frente com boleiros fumantes e cabeludos, algo que ficou marcado como filosofia dos mais conservadores.

O argentino Doval, atacante que treinou no Flamengo, por exemplo, saiu da Gávea no começo dos anos 1970 por não concordar com os métodos técnicos e morais do chefe. Vez ou outra, Dorival comprava briga com cartolas para defender os seus pupilos, o que ajudou a desmistificar a aura de linha dura. Era capaz de ser paizão ou carrasco, duas faces bem presentes na sua carreira.

Correndo de Saldanha

Outra característica marcante na personalidade de Dorival era usar da imprensa para atacar seus desafetos ou tirar o foco de problemas internos. Um de seus alvos favoritos era João Saldanha, sobretudo na preparação do Brasil para a Copa de 1970. Saldanha era o treinador e estava pressionado por uma série de resultados decepcionantes daquela que é saudada como a melhor equipe já montada em Copas do Mundo.

Vaidoso, o treinador se sentiu incomodado com as alfinetadas de Yustrich e resolveu reagir. Um belo dia, pegou o seu famoso revólver e foi até a Gávea para tirar satisfação. Avisado por pessoas próximas, Yustrich bateu em retirada pelos fundos e evitou contato com “João Sem Medo”. Podia ser grande e imponente, mas não era burro para peitar um homem armado.

Uma das medidas mais impopulares que Yustrich tomou foi banir os palavrões enquanto estava no Cruzeiro, durante a sua primeira passagem pela equipe celeste. Quem violasse a regra, teria de dar três voltas no campo como punição. Mas claro, o pacto não valia para o técnico, que não economizava a sua boca suja para cobrar os jogadores.

Como sempre estava disposto a acabar com a vida noturna dos jogadores e forçá-los a exaustivas rotinas pré-jogo, virou o inimigo número 1 da maioria dos boleiros. A imprensa, por outro lado, adorava os seus ataques de raiva ou de autoafirmação. Dessa forma, ele era um prato cheio para manchetes ou matérias aprofundadas sobre o seu perfil. E até o fim da vida, Yustrich fez questão de dizer que não era um simples “coronelão” de métodos questionáveis: era também um cara sensível. Difícil de acreditar.

Quando o clube sentia que o elenco havia ficado preguiçoso ou inconsequente demais, Yustrich era o cara que chegava para colocar ordem na casa. Essa postura pode ser vista em Luiz Felipe Scolari, Dunga, Felix Magath e outros nomes mais metódicos. Com esses treinadores, não há quem faça corpo mole.

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As práticas renderam certo reconhecimento. Yustrich ganhou o Português e a Taça de Portugal com o Porto após 16 anos de jejum dos Dragões. Também levou o Mineiro com o surpreendente Siderúrgica de Sabará, Cruzeiro, Atlético e América, uma façanha inalcançável, mesmo porque parece impossível ver uma terceira força vencer a taça em Minas. Além disso, Dorival foi campeão da Taça Guanabara com o Flamengo.

A camisa suada de Brito

Brigas como a que arrumou com o zagueiro Brito ficaram para a história do futebol. Em 1972, na Raposa, teve atritos com o defensor, que foi campeão mundial em 1970 com o Brasil. Depois de várias substituições intencionais para minar a confiança do defensor, Yustrich sentiu o gosto da vingança de Brito, que da última vez que saiu de campo, arrancou a camisa e atirou na cara do técnico.

Semanas depois, a diretoria optou por demiti-lo em campo, depois que pediu para o roupeiro do clube recuperar uma camisa dada de presente por um atleta a um torcedor em Araxá. Essa foi a gota d’água para os cartolas, mas 10 anos depois ele voltaria ao time cruzeirense.

Fora de forma e já com certa idade, Yustrich chegou em 1982 para treinar seu último clube da carreira, o Cruzeiro. No alto de seus 64 anos, com a barrigona de fora e seus gestos habituais, virou notícia porque de repente, os atletas não respeitavam mais a sua filosofia.

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Capitão Gay

Yustrich ao lado de Zanata, nos tempos de Flamengo /Foto: Estadão
Yustrich ao lado de Zanata, nos tempos de Flamengo /Foto: Estadão

Na visão dos atletas e até de alguns outros técnicos, a gordura tirava toda a seriedade do seu trabalho. Dorival rebatia, dizendo que trabalhava com a cabeça e não precisava estar em forma e correr em campo, ao contrário de seus comandados. Os rapazes, que não eram bobos e adoravam uma farra, apelidaram logo o chefe de “Capitão Gay”, uma alusão ao icônico personagem interpretado por Jô Soares no programa “Viva o Gordo”. Riram dele por algum tempo, até que a situação ficou insustentável.

Desde a chegada ao Cruzeiro, a sua contratação foi contestada pelos atletas. Nelinho, ídolo da Raposa, se posicionou publicamente contra Yustrich e disse que “não haveria mais diálogo” após a sua demissão em 1982. O comandante tinha perdido a mão e os jogadores não estavam mais correndo por ele. Como resposta à sua queda, o técnico saiu cuspindo fogo, criticando cartolas e craques cruzeirenses como o próprio Nelinho, o que criou um impasse entre os dois.

Aquela foi a última triste cena da carreira de Yustrich, o Homão que arrumou vários inimigos e desafetos em virtude da sua vontade de vencer e suas formas pouco convencionais de liderar um plantel futebolista. Os seus títulos mostram que em alguma coisa, o caráter disciplinador ajudou. Mas a que custo? Dorival morreu em 1990, recluso, esquecido e com uma pecha de intragável.

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