Como o Ajax traiu a confiança e perdeu os irmãos De Boer

Frank e Ronald de Boer nos tempos de Ajax /Foto: Top Ten sides
Frank e Ronald de Boer nos tempos de Ajax /Foto: Top Ten sides

O ano era 1998. Os irmãos gêmeos Frank e Ronald De Boer estavam em alta pela Holanda e pelo Ajax. A dupla formada nas categorias de base era um dos maiores sucessos produzidos no futebol local. Logo que assinaram um contrato novo, válido por seis anos, se depararam com uma traição do clube: ali começava a queda de braço dos ídolos contra a diretoria.

Vamos colocar esta briga em pratos limpos. O que aconteceu foi o seguinte: depois do desmanche sofrido na segunda metade dos anos 1990, o Ajax ficou com o dinheiro das vendas e poucos jogadores que estiveram presentes no título europeu de 1995. Os De Boer eram os remanescentes daquela geração brilhante. Começaram nos times jovens e em 1988 foram lançados ao profissional. Eram exemplos de desenvolvimento, talento, competência e até mesmo caráter.

Quando o Ajax firmou contrato por seis anos com os De Boer, em 1997, a previsão era que eles se aposentassem no clube, afinal, já estavam com 27 anos e portanto, não eram mais garotos. Os diretores montaram um plano ousado de lançar as ações do time na bolsa de valores, tendência forte nos anos 1990. Sendo assim, no segundo ano de deste vínculo renovado, os dois foram informados de que um acordo verbal não foi respeitado. Neste acordo, ficou implícito que se um dos irmãos fosse vendido, o outro teria de ficar no Ajax até o fim da carreira. Mesmo se a proposta fosse financeiramente boa, esta cláusula teria de ser cumprida à risca.

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O problema é que no momento que o Ajax se lançou ao mercado de ações, houve um pedido tácito dos seus dirigentes aos acionistas: propostas pelos De Boer não seriam aceitas, pois os Godenzonen pretendiam montar ao redor da dupla um time qualificado para voltar à briga por taças europeias. Quando os De Boer ficaram sabendo desse pedido, as coisas ferveram.

Popularizando a Lei Bosman

Foto: Site oficial Ajax
Foto: Site oficial Ajax

Já que naqueles tempos a Lei Bosman estava ganhando força entre os futebolistas internacionais, os De Boer viram uma chance para protestar contra a traição por parte do Ajax. Evidentemente, eles deviam muito ao time de Amsterdã pela chance que ganharam na carreira, mas a atitude de recusar automaticamente as propostas deles somada ao contrato longo significaria que eles estavam presos.

Para piorar as coisas, a relação com o técnico Morten Olsen estava desgastada. O dinamarquês sabia do imbróglio envolvendo os irmãos e declarou publicamente que “jogadores descontentes são inúteis”. Isso só jogou mais lenha na fogueira da disputa.

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Os De Boer foram aos tribunais alegando que houve quebra de acordo e pediam a rescisão unilateral do contrato de 1997. Em julho de 1998, eles ganharam as páginas dos jornais. Naquele momento, contaram com a simpatia da imprensa, que também estava lutando em prol da Lei Bosman, ou seja, visando uma liberdade maior para que os futebolistas fossem donos do seu próprio futuro.

O Ajax se defendeu e insistiu que o contrato deveria ser cumprido, e que se os irmãos não quisessem jogar, não poderiam receber seus salários e ainda teriam de ficar até o fim do vínculo neste impasse. O que inclinou o interesse dos dois em deixar o clube, inclusive com juras de que “nunca mais voltariam a defender aquela camisa”, era uma sondagem vinda de Real Madrid, Barcelona e Arsenal.

O desfecho

Foto: Daily Record
Foto: Daily Record

O precedente era perigosíssimo para as convicções dos clubes. Se os De Boer vencessem a ação e saíssem do contrato, isso poderia representar um grande motim de jogadores ao redor do mundo, um caos completo. A defesa dos gêmeos baseou a argumentação em uma suposta perda de nível técnico em caso de continuidade no Ajax. Como o Barcelona estava em uma liga mais relevante e disputada, permanecer na Holanda poderia gerar prejuízo para os dois.

A primeira decisão do tribunal foi favorável ao Ajax e determinou que os De Boer ficassem no clube até 2004, como mandava o contrato. Nem mesmo uma reunião com agentes, atletas e dirigentes na semana seguinte ao veredito trouxe uma solução.

Neste interim, o técnico do Arsenal, Arsène Wenger, disse que os dois deveriam seguir de acordo com o que assinaram e se fossem liberados antes da hora, isso poderia gerar uma implosão nos princípios do futebol, anarquizando toda a estrutura construída. Ironicamente, os Gunners fizeram algumas sondagens pouco antes disso para comprar Frank e Ronald.

Em janeiro de 1999, Olsen foi demitido do Ajax por maus resultados: o time estava em uma péssima sequência e acabou o Holandês em sexto, com uma mísera vaga para a Copa Uefa. Como os De Boer estavam em uma rixa com o clube e influenciavam diretamente na fase negativa, a solução dos cartolas foi mesmo se render. E eles juraram que nunca mais jogariam pelo Ajax. O Barcelona, sabendo disso, chegou em Amsterdã e pagou 22 milhões de libras pelos dois, promovendo um reencontro dos irmãos com Louis Van Gaal no Camp Nou.

A vida seguiu e eles de fato não retornaram ao Ajax como atletas. Só como diretores, anos depois da aposentadoria. Frank e Ronald atuaram juntos no Barça, no Rangers (em 2004), no Al-Rayyan e no Al-Shamal. Frank, que hoje é o técnico do Ajax, pendurou as chuteiras em 2006, enquanto Ronald durou até 2008.

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