A metamorfose de Alan Smith, o desafortunado

Foto: Daily Mail
Foto: Daily Mail

Em 2011, uma das primeiras editorias da Total Football se chamava “Desafortunados”. Falávamos de atletas que despontaram como promessas, mas por várias razões não seguiram no mesmo nível até o fim da carreira. Cinco anos depois, com o site já sob o nome de Todo Futebol, talvez tenhamos achado aquele que é o jogador que norteia o conceito de desafortunado: Alan Smith.

Sacamos a editoria do fundo do baú para relembrar como a carreira de Alan foi absolutamente diferente do que se esperava. Primeiro porque ele apareceu para o esporte jogando pelo Leeds United como atacante, era a estrela do último time interessante que surgiu em Elland Road, no fim da década de 1990. Em seis anos, virou um dos maiores ídolos da torcida, colaborando bastante para o voo alto dos Whites até as semifinais da Liga dos Campeões de 2000-01.

Foto: The independent
Foto: The Independent

O time eventualmente quebrou e foi rebaixado, com Smith lá de titular. Seu empenho e versatilidade foram reconhecidos pela torcida, que o elegeu duas vezes seguidas como melhor jogador do ano em 2003 e 2004. No entanto, logo após a queda, assinou com o Manchester United, algo considerado uma traição imperdoável para a torcida. Especialmente porque o próprio Alan afirmou anteriormente que jamais jogaria pelos Red Devils. Mas a transação foi na verdade sugerida pelo Leeds, que precisava urgentemente de dinheiro.

Moralmente isso teria explicado a sua queda de rendimento, mas a carreira de Alan não é tão redondinha e simples assim. No Manchester United, diante da alta concorrência que teria a partir de 2004-05, foi reposicionado para o meio-campo a pedido de Alex Ferguson. Nada que ele já não tivesse feito, mas ao invés do diabo loiro que se apresentava no Leeds com dribles e gols, Smith se transformou em um meia de marcação e depois em volante. Tudo para se manter entre os 11 titulares.

Foto: Guardian
Foto: Guardian

Por três anos em Old Trafford, sofreu pra se adaptar. Na primeira, foi para o banco como atacante. Depois acabou pintando como o sucessor de Roy Keane, na visão do próprio volante. Quer dizer, a vontade Alan até tinha, talvez até a força, mas não a mesma capacidade de marcação e a truculência do irlandês. Quando Keane ficou de fora e foi substituído por Smith, criticou as atuações do novato, piorando o clima nos vestiários.

LEIA TAMBÉM: Muito antes do ‘Fergie Time’, o Manchester United perdeu uma final nos acréscimos

As coisas pioraram quando Alan sofreu uma grave lesão e precisou passar nove meses em recuperação, após fratura da perna e deslocamento do tornozelo diante do Liverpool, em lance que tentou bloquear um chute de John Arne Riise. Nunca mais foi o mesmo. Tanto que voltou e experimentou um retorno ao ataque, sem tanto sucesso. Marcou seus gols, inclusive um no histórico 7-1 contra a Roma em Old Trafford, nas quartas de final da Liga dos Campeões. Fez algumas atuações até o fim da temporada, com o título inglês.

Foi negociado com o Newcastle, novamente sendo prejudicado com lesões e passou por longas secas de gol. Por dois anos batalhou para manter a forma física, sem sucesso. Nesse intervalo, os Magpies foram rebaixados para a segunda divisão. Meses depois, Alan reencontrou o Leeds United em um amistoso e foi extremamente vaiado pela torcida adversária. Retornou ao meio-campo como armador e era titular na campanha que devolveu os alvinegros à primeira divisão. Durante a janela de inverno acabou perdendo espaço outra vez e foi para o banco.

Em 2011, virou reserva do marfinense Tioté e só atuava quando o volante era suspenso, o que por acaso acontecia com frequência. Quando estava se firmando, Smith sofreu nova lesão no tornozelo e perdeu o resto da temporada, um belo balde de água fria nas suas ambições. Foi colocado como negociável e emprestado para o Milton Keynes Dons, da terceira divisão, em janeiro de 2012. Firmou contrato efetivo seis meses depois, sem custos.

A última parada do veterano foi no Notts County, que defende desde maio de 2014. Hoje Alan vive longe dos holofotes como jogador-treinador e parece um homem diferente. Daquele menino que surgiu como um fenômeno no Leeds e ganhou a Inglaterra ao sair para o Manchester United em 2004, sobrou pouco. Aliás, a transformação deixou o jogador irreconhecível.

LEIA TAMBÉM: A derrota que selou a despedida de Liam Brady do Arsenal

Foto: The Independent
Foto: The Independent

O atacante, meia-armador, ponta ou volante atravessou várias mudanças cruciais ao longo de sua trajetória, chegando aos 35 anos como uma decepção pelo que era esperado do seu jogo. De talentoso goleador, conseguiu virar um autor de carrinhos e entradas duras, seguindo os ensinamentos da escola de Roy Keane. Sem falar na metamorfose física. Perdeu a cara de moleque franzino, o cabelo espetado e ganhou alguns quilos. Quem vê este rapaz cabeludo e de barba mal feita, com um semblante mais sério, dificilmente reconhece como aquele garotinho que saiu de Leeds para tentar ser um dos principais craques da Inglaterra.

Alan agora mira um objetivo humilde em comparação dos tempos de estrela no United: a missão é levar o Notts County da quarta para a terceira divisão.

Olhando com calma e quase dez anos depois, Alan sabe bem o que deu errado em sua vida como futebolista:

“Mesmo quando vejo o lance em que quebrei a perna, penso como tudo aquilo aconteceu. Esta lesão que sofri me tirou uma parte massiva do meu jogo. Se não fosse por ela eu ainda estaria atuando em grande nível. Meus movimentos ficaram restritos, mas eu nunca quis reclamar disso, tenho sorte de ainda estar jogando. Não é no nível que todos sonhavam, mas eu nunca achei que teria vida garantida no futebol”. (Alan Smith, em entrevista ao jornal The Independent)

3 pensamentos em “A metamorfose de Alan Smith, o desafortunado”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *