A história meteórica do Racing Paris, o PSG que deu errado

Foto: L'Equipe
Foto: L’Equipe

*Colaboração de Ubiratan Leal

Campeão francês em 1936, a divisão de futebol do Racing Club de Paris foi parar nas mãos de um rico empresário local, chamado Jean-Luc Lagardère, no início de 1982. Os planos dele eram ambiciosos: montar um time com craques que batesse de frente com o Paris Saint-Germain até o fim da década. No entanto, precisou investir muito dinheiro e tempo para tirar o clube da segunda divisão. E mudou o nome da agremiação para Paris Racing 1. Ali nascia a meteórica história do Matra Racing, ou o Racing Club de Paris.

Lagardère não tinha só o futebol como foco de investimento. Desde o início da década de 1960 ele comandava a montadora Matra, que tinha equipes de Fórmula 1 (extinta em 1972) e competia também na categoria de Turismo. A ideia inicial era fazer uma fusão entre o Paris FC e o Racing, mas os dirigentes do Paris se recusaram.

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A partir de 1983, o investimento no Racing começou a ser pesado para os reforços. A prática não era muito famosa na época. Os times que mais gastavam eram os grandes, quase sempre em poucos nomes, não em baciada. Os pequenos, por sua vez, se contentavam com apenas um craque de vez em quando, em gastanças pouco chamativas. Mas Lagardère seguiu por um novo padrão, que era transformar um grande e esquecido em gigante com a injeção de altos valores, em curto prazo.

Os primeiros reforços de impacto vieram em 1983-84, com o defensor Viktor Zvunka, ex-Marseille, o meia argelino Rabah Madjer (que fez uma grande Copa de 1982 e marcou o gol do título do Porto na Champions em 1987), Hussein-Dey e o atacante camaronês Eugene Ekeké, que também estava brilhando pela sua seleção. Sob o comando de Alain De Martigny, o Racing subiu para a elite e alcançou seu primeiro objetivo. Dali em diante, estava iniciada a gastança.

Queremos craques

Foto: France Football
Foto: France Football

Até então o Racing dividia o Parc des Princes com o PSG, que ainda experimentava seus primeiros anos de grandeza, fundado na década anterior. A disputa na primeira divisão foi demais para a estrutura do Racing de Lagardère, que não suportou o nível de competição e caiu outra vez. Zvunka, que era veterano e se aposentou em 1984-85, assumiu o cargo de técnico. Mas as coisas iam mal, uma baderna.

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Madjer então pôde contar com mais dois conterrâneos, os defensores Fathi Chedel e Lamri Laachi. Mas não adiantou, algo estava fadado a dar errado. Ninguém ergue uma fortaleza da noite para o dia. E Lagardère sabia que precisaria se empenhar mais para ter sucesso em um esporte tão competitivo. Mesmo na segunda divisão, o mandatário comprou mais jogadores importantes como o veterano Maxime Bossis, do Nantes; o uruguaio Ruben Umpierrez, do Nancy; o meia Daniel Solsona, do Valencia; e o atacante Rúben Paz, que estava no Internacional. Eles foram campeões da Ligue 2 e voltaram para a elite.

Aí Lagardière percebeu que precisava dar o pulo. Logo após a Copa de 1986, comprou alguns ícones: para o ataque, Pierre Littbarski e Enzo Francescoli. E para o meio, os franceses Luis Fernandez e Thierry Tousseau. Os quatro estiveram no Mundial e dariam certa experiência ao time na Ligue 1. O problema é que os jogadores não estavam exatamente entrosados e o Racing ficou em 13º no campeonato, decepcionando a pequena torcida e a diretoria. E o campeão foi o Paris Saint-Germain, em um duro golpe na moral dos alvicelestes.

Queremos títulos

Foto: Applemark
Francescoli disputa a bola em partida contra o Auxerre / Foto: Applemark

De nada adiantou ter Francescoli em grande fase ao lado de Littbarski, se o restante dos titulares não ajudavam. Para tentar contornar o problema, Lagardère seguiu investindo e mudou o nome do clube para Matra Racing. Além disso, trouxe o técnico que fez do Porto campeão europeu diante do Bayern: Artur Jorge.

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O bigodudo chegou para dar um pouco mais de respaldo aos atletas. Chegaram com ele o defensor Sonny Silooy, do Ajax; o goleiro Pascal Olmeta, do Toulon; além do meia Bruno Germain, do Nancy. Com uma verdadeira seleção internacional, o Racing conseguiu ganhar torcedores. Eles começaram a aparecer com mais frequência e em maior número ao Parc des Princes, casa definitiva do clube desde o primeiro acesso da era Lagardière.

Tinha elenco, tinha um técnico capaz e dinheiro para se manter saudável e brigar pelo topo. Tudo isso ficou em xeque com um decepcionante sétimo lugar na Ligue 1, o que irritou ainda mais os cartolas. Em 1988-89, um suspiro de sucesso: na primeira parte da temporada, o Racing se reforçou com Bernard Casoni, David Ginola, Vincent Guérin e Jorge Plácido.

As coisas estavam se encaixando até Artur Jorge sofrer com problemas pessoais. O time se desestabilizou, ficando 12 jogos sem vencer e só não caiu no final por causa do saldo de gols. Jorge acabou demitido antes mesmo do fim da temporada e deu lugar a René Hauss, que deixou o cargo de diretor esportivo para assumir o rojão. E a paciência de Lagardère foi para as cucuias.

Queremos nosso dinheiro de volta

Lagardère, o homem por trás do projeto do Matra Racing / Foto: Le Figaro
Lagardère, o homem por trás do projeto do Matra Racing / Foto: Le Figaro

Irritado e com a sensação de desperdício, o empresário retirou seu investimento em abril de 1989, devolvendo o status de pobretão do Racing Paris 1, nomenclatura adotada a partir daquele momento. Lagardère ainda vendeu suas ações por um valor quase irrelevante, deixando o clube na pindaíba total.

A partir daquele ano, a nova direção precisou se desfazer dos jogadores para sobreviver. Ficaram apenas Olmeta e Ginola para a temporada 1989-90, que culminou em novo rebaixamento com a 19ª posição na liga. Para piorar, na final da Copa da França, o Racing perdeu para o Montpellier de Laurent Blanc e Eric Cantona por 2-1, no Parc des Princes. Um melancólico sinal de que o fim estava próximo.

O planejamento mal feito de Lagardère e seus comparsas tirou o time do ostracismo e devolveu, se não no mesmo lugar, em situação pior. Cerca de 300 milhões de marcos franceses depois, a brincadeira do Matra Racing no futebol acabou. O Racing Paris até hoje vive em dificuldades financeiras, jogando em divisões amadoras. Em contrapartida, o rugby, como outras modalidades esportivas do Racing, seguem fortes na França. E curiosamente, o rugby ainda atua no acanhado estádio de Colombes, primeira casa do clube e sede da final da Copa do Mundo de 1938.

O passado até inspirou alguma esperança, mas o campeão de 1936 certamente sente pesar em relembrar o desfecho de sua breve riqueza, nos distantes anos 80, quando teve Francescoli, Littbarski, Ginola, Fernandez e outras feras internacionais.

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