Quando o elenco do Bayern derrubou o técnico e o presidente

Foto: Bundesliga Classic
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Como formar um elenco de atletas vitoriosos e que marca época no futebol de seu país? O Bayern tem a receita. Como formar um time recheado de estrelas que, reconhecendo a sua influência, mostram que mandam mais que o presidente? O Bayern também sabe. E isso aconteceu em 1979.

A geração bávara que assombrou a Europa e serviu de base para a Alemanha campeã europeia e mundial em 1972 e 74 estava em um momento complicado ao fim da década de 1970. Em 1979, o time amargava o quarto ano sem título nacional e a espera incomodava. Na Europa, a última conquista aconteceu em 76. Na Bundesliga, os atletas do Bayern viram o Borussia M’Gladbach levar três vezes a salva de prata, enquanto Colônia e Hamburgo venceram uma cada.

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Ingerências

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Wilhelm Neudecker, presidente do Bayern de 1962 a 1979 /Foto: Bild

A espera por uma nova equipe campeã incomodava também o presidente Wilhelm Neudecker, que não estava mais disposto a trocar de treinador de acordo com a vontade de seus jogadores. À aquela altura, o Bayern havia contado com Dettmar Cramer e Gyula Lórant como treinadores. E o segundo pagou o pato em um motim do elenco, que mirava o presidente.

A temporada de 1978-79 representou um grande momento da história do Bayern, porque além da rebelião dos jogadores, o goleiro Sepp Maier estava em seus últimos momentos no futebol, depois de 14 anos de carreira defendendo o clube. Neudecker, por sua vez, estava desde 1962 no comando, bem antes da chegada dos principais astros.

A desavença entre Neudecker e os rapazes se originou em decisões arbitrárias do mandatário de escolher treinadores sem consultar o elenco. Como Gyula não desfrutava de prestígio com o grupo e seria mantido por Neudecker fosse vencedor da Copa da Alemanha, a primeira saída prática foi perder de 5-4 do modesto Osnabruck, logo na segunda rodada do torneio, de propósito. Ali, o presidente deveria ter notado que perdeu o comando, mas ao invés de rever seus conceitos, preferiu desafiar seus craques.

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Arquitetando a queda do professor

Gyula Lorant, o impopular técnico do Bayern em 1978-79/ Foto: Welt
Gyula Lorant, o impopular técnico do Bayern em 1978-79/ Foto: Welt

Observe-se que o Bayern tinha nomes como Paul Breitner, Gerd Müller, Karl-Heinz Rummenigge, Sepp Maier e Hans-Georg Schwarzenbeck. E eles fizeram questão de impor as suas necessidades acima das do treinador e do presidente. O cabo de guerra não acabou naquela eliminação para o Osnabruck: um turrão e intransigente Gyula ousou sacar Müller de uma partida, algo que nunca havia acontecido em toda a carreira do goleador.

A atitude irritou tanto o Bomber que ele anunciou a sua saída para o Fort Lauderdale Strikers na mesma semana, de forma a expor a sua insatisfação com o técnico. A segunda represália, esta do time todo, veio no jogo seguinte, em uma derrota alarmante por 7-1 diante do Fortuna Dusseldorf, na primeira semana de março de 1979, já na reta final do Alemão. Gyula caiu.

Pal Csernai, assistente do titular, que sairia muito mais barato, tinha a confiança dos atletas. Mas Neudecker quis fazer o seu poder curvar os jogadores diante de sua mão pesada. O que parecia uma receita para o caos virou um problema para o dirigente, já que o revolucionário Breitner resolveu dar as cartas no jogo. Liderou um levante entre os rapazes e fez uma reunião. Quando o Bayern recebeu o Arminia Bielefeld, em 10 de março, uma surra provou um ponto ao mandatário: 4-0 para os visitantes, em mais uma dura prova de resistência dos rebeldes.

Quem manda são os jogadores

Foto: Tagesspiel
Foto: Tagesspiel

Breitner, com seus ideais socialistas, foi o nome-forte da derrocada de Neudecker. Ao lado de Maier, um ícone daquele esquadrão, conseguiram com que o presidente efetivasse Csernai no comando, em contrapartida de uma reabilitação na tabela do Alemão. Fez-se então um esforço coletivo para que o jogo contra o Eintracht Braunschweig, fora de casa. O Bayern saiu de lá com um 0-0, mas foi possível ver o esforço e o suor de cada um, sobretudo o de Breitner, que segundo a imprensa germânica, entrou em campo mesmo com forte gripe.

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Ali o grupo sentiu que estava no controle. Mas no avião de volta para Munique, Neudecker desfez sua palavra e disse que estava assinando com o austríaco Max Merkel, que treinava o Augsburg na ocasião. Os jogadores ficaram possessos e iniciaram novo motim. Juntamente com Csernai e um tesoureiro que era aliado de Neudecker, fizeram em uma semana uma bagunça tão grande, que o presidente se viu encurralado.

Como a união de todos os profissionais, mais o técnico e Wilhelm Hoffmann, o tesoureiro em questão, ficou decidido que qualquer um que fosse punido pelo presidente, desencadearia uma greve por meio de uma nova derrota humilhante. O mandatário descobriu que Hoffmann deixou de apoiá-lo e nem sequer se deu ao trabalho de apresentar Merkel como novo chefe: se dirigiu aos jogadores antes do treinamento seguinte e disse que estava fora, renunciando ao seu cargo.

A suada vitória

Csernai e Uli Hoeness, na temporada 1978-79/ Foto: Bundesliga Classic
Csernai e Uli Hoeness, na temporada 1978-79/ Foto: Bundesliga Classic

Depois de conseguir o que esperavam, os craques bávaros tiveram um duro desafio: provar que a era de derrotas intencionais estava encerrada. O problema é que o rival seria o Borussia M’Gladbach. Era uma questão de vida ou morte aquela vitória e o Bayern se superou. Fez 7-1 nos Potros e retomou a confiança, inclusive fortalecendo a imagem de Csernai. Ao fim da competição, o Bayern arrancou e terminou em quarto, nove pontos abaixo do campeão Hamburgo.

O que se viu na temporada seguinte foi a despedida de Sepp Maier, que saiu em grande forma, com 36 anos e o título da Bundesliga. Csernai ficou para ser campeão com 50 pontos, dois a mais que o vice-líder Hamburgo. E assim Neudecker, carta fora do baralho, aprendeu a duras penas que não se pode comandar um time de futebol sem dar satisfação a quem joga para fazer os resultados possíveis.

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