O Huracán que mudou a cara do futebol na Argentina

Foto: El Grafico
Foto: El Grafico

Em 1972, surgia uma grande força no futebol argentino. O Huracán de Cesar Luis Menotti começou a sua meteórica trajetória local e no fim, causou impacto em toda a escola da seleção albiceleste. Aquele time quemero é um dos mais marcantes da história da Argentina, pois serviu de laboratório para o futebol vistoso praticado pela seleção de 1978, campeã do mundo com o mesmo Menotti.

Para fazer frente ao estilo duro e cascudo do Estudiantes, tricampeão da Libertadores, o Huracán trouxe uma nova proposta para a época. Sabendo que a Argentina não fazia bonito em Copas desde a década de 30 e que o estilo estava comprometido com a obediência tática e violência dos Pincharratas, Menotti começou a executar um plano sublime que resultou em título nacional.

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Com aquelas estratégias, o Estudiantes dominou a América do Sul em 1968, 69 e 70, mas as artimanhas de certa forma envergonhavam os entusiastas do futebol bonito. Quem acreditava que o futuro estava em um bom toque de bola e na ofensividade pura como solução, torcia contra os Pincharratas de Osvaldo Zubeldía.

Em 1972, veio o Huracán, maior opositor do jogo feio e bruto, da catimba desnecessária, da malandragem sudaca. Para colocar em prática a trama de dominar o país, Menotti contava com atletas talentosos e que formaram “La delantera magica”: Houseman, Babington, Avallay, Brindisi e Larrosa.

Viva o Globo

Foto: Xenen.com.ar
Menotti, sem risadinha, no canto esquerdo /Foto: Xenen.com.ar

Além do setor ofensivo riquíssimo, Menotti confiava em Alfio Basile e Nelson Chabay, campeões mundiais com o Racing em 1967, diante do Celtic. Somando a experiência destes com o talento do restante, o Huracán se tornou em um grande candidato. Desde 1928, ainda na era amadora, a equipe de Parque Patricios não sabia o que era levar um título.

Graças ao esquadrão montado em 1972, a conquista no Metropolitano de 1973 foi possível. E depois disso, o Huracán nunca mais chegou ao topo da Liga. O único título neste intervalo veio em 2014, pela Copa Argentina, em cima do Rosario Central.

O ataque de 1973 era fortíssimo. Usava a inteligência e o toque de bola refinado para criar chances. O efeito foi devastador no primeiro turno do Metropolitano: 46 gols em 16 jogos, uma média absurda e que chocou o país. Ali, nascia a lenda do Globito, um time que abusava de sua força ofensiva para castigar os adversários. Um dos surrados foi o Racing, ex-Academia, que tomou de 5-0 na quinta rodada.

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Outros foram goleados e humilhados pela maravilha quemera: Argentinos Juniors (6-1), Atlanta (5-2) e Rosario Central (5-0). O problema é que com tamanha demonstração de talento, vários integrantes do time titular passaram a ser convocados para a seleção e desfalcaram o Huracán no segundo turno. Neste ponto, vitórias simples e empates foram mais incidentes, incluindo uma derrota acachapante para o Boca Juniors, por 4-1, em La Bombonera. O Boca viria a ser o vice-campeão.

A tabela final expôs a superioridade do Globito de Menotti: 46 pontos, 62 gols e 19 vitórias em 32 partidas. Foram quatro pontos a mais do que o Boca, que ficou em segundo.

O que a seleção aprendeu

Menotti ficou até 1974 no comando do Huracán e saiu com missão cumprida. Três anos depois de chegar ao Tomás Alfonso Ducó, o técnico que chegava sem grandes pretensões era aclamado como o grande comandante da geração. A Federação Argentina enxergou nele o futuro da Albiceleste. Assumiu a equipe no Mundial de 1974, mas com pouco tempo para implantar seus ensinamentos.

Gradualmente, o estilo de jogo da Argentina estava mudando. A tática rígida e a truculência deram lugar ao clássico bem sucedido de valorizar o toque de bola e fundamentar nele as ações ofensivas. Para o Mundial seguinte, as características eram muito mais marcantes pelo talento do que pela força, o que elevou o nível da competição.

Foto: El Grafico
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A Argentina virou uma boa realidade em 1978. Continuava sendo um time de pegada, mas que aliava a técnica apurada ao seu arsenal. Houseman e Larrosa, do Huracán, foram ao Mundial. Ardiles, que jogava no Globo na ocasião, foi titular e um dos principais destaques no torneio. O primeiro foi titular até o fim e o segundo teve a chance de entrar na final diante da Holanda, vencida por 3-1.

Polêmicas de manipulação de resultados à parte, a Argentina foi campeã contra uma forte Holanda com a base do time vice-campeão quatro anos antes. A equipe montada por Menotti era um sonho realizado por cada argentino, que além de ver o primeiro título de sua nação na história das Copas, ainda se viu encantado com o que viu em campo.

Dificilmente a Argentina teria reunido os craques de 1978 não fosse aquele Huracán, que por sua vez, ganhou força com a filosofia de Menotti. E de seus ensinamentos, saiu Alfio Basile, seu zagueiro no Globo. Basile, herdeiro de “El Flaco”, assumiu a Argentina em 1991 e conquistou a Copa das Confederações e duas vezes a Copa América, ironicamente a última taça da Albiceleste. Outra façanha que saiu daquele time de 1973, a gênese do sucesso argentino nos anos que seguiram.

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