Ainda estamos à espera da modernidade no futebol brasileiro

Edição de Junho de 1993 da Placar. O que mudou? /Foto: Acervo Placar
Edição de Junho de 1993 da Placar. O que mudou? /Foto: Acervo Placar

A matéria que é carro-chefe da Revista Placar de junho de 1993 é uma sentença sobre o que o Brasil esperava do seu futebol para a segunda metade dos anos 1990. Os três grandes exemplos eram São Paulo, Palmeiras e Fluminense, que se reinventavam para tentar encarar o futuro. No entanto, 20 e poucos anos depois, vemos que as promessas douradas e visões de empreendedorismo entraram pelo cano.

Foto: Reprodução
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Logo na capa, vê-se o esforço de reportagem da Placar ao pegar quatro mercados diferentes e enxergar neles alguma tendência para os anos que viriam. O estafe do veículo entrevistou muita gente, incluindo João Havelange, então presidente da Fifa e ainda longe de escândalos de corrupção.

“A competência entra em campo”

A ideia da Placar é muito boa. Tentar enxergar tendências no presente. Mas como toda previsão, não tem 100% de chance de se concretizar. Mas vamos focar no futebol brasileiro: a reportagem principal da revista traz São Paulo, Palmeiras e Fluminense como bastiões do profissionalismo. E para a época, as práticas realmente serviram. O problema é que os modelos venceram ou foram prejudicados por acontecimentos externos. Ou seja, o planejamento foi feito pela metade.

“Palmeiras, uma receita para os anos 2000”

Foto: Acervo Placar
Foto: Acervo Placar

O Palmeiras começou a contar com a ajuda da Parmalat em meados de 1992. Daquele ponto em diante, a empresa italiana começou a injetar dinheiro para modernizar o clube, que estava desde 1976 sem ganhar títulos e por muitos anos acumulando campanhas miseráveis no Paulistão e no Brasileiro. O modelo de co-gestão previa que a Parmalat iria arcar com as contratações e outras obras de infraestrutura não só no futebol, mas no basquete e no vôlei, por exemplo. A parceria durou até o fim de 2000.

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Enquanto o dinheiro vinha, o Palmeiras montava elencos fantásticos. E venceu vários campeonatos em virtude disso. Com a Parmalat, o Verdão foi uma potência e um exemplo de gestão, já que o amadorismo passava longe. No entanto, o aparato trazido pelos italianos não foi mantido depois da saída. O time, presidido por Mustafá Contursi, mamou nas tetas da leiteria lombarda e ao invés de se reciclar, parou no tempo, enquanto contava com o gordo investimento. Foi só a Parmalat sair de cena que as coisas pioraram para o alviverde: sem dinheiro, passou a sobreviver de migalhas e pagou a conta da irresponsabilidade com dois rebaixamentos.

Fato é que o Palmeiras ficou tão órfão e dependente da Parmalat, que até 2014 estava sofrendo as consequências dessa relação. Coube a Paulo Nobre, presidente eleito em 2013, fazer um empréstimo de mais de 100 milhões de reais do seu próprio bolso (questionável, mas não vem ao caso neste ponto) para evitar que o clube quebrasse. A Placar acertou ao dizer que a receita era para os anos 2000. Só não podia imaginar que a Parmalat iria beirar a falência e que justamente em 2000, bateria em retirada do Parque Antárctica. Todos os timaços dos anos 1990 ficaram para trás.

Em 2015, as patrocinadoras Crefisa, juntamente com a Faculdade das Américas e a Prevent Senior (empresas de José Roberto Lamacchia e Leila Pereira, sua esposa), pretendem implantar novamente um modelo de co-gestão e investimento no Palmeiras, admitindo até a inspiração na Parmalat. A diferença é que o clube parece um pouco mais preparado para absorver a possível saída da parceira. Quer dizer, é o que o cenário atual indica, com plano forte de sócio-torcedor e um estádio moderno. Em linhas gerais, o Palmeiras aprendeu com o tombo da Parmalat? É o que saberemos quando a Crefisa deixar de estampar sua marca no projeto.

“São Paulo, o grande exemplo de eficiência”

Foto: Acervo Placar
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O São Paulo, na época, colhia os frutos do título mundial de 1992 e do bicampeonato da Libertadores. O plano da diretoria era ter sequência no trabalho de cartolas qualificados e com boa visão de mercado. A eficiência tricolor citada no título da matéria passava por alguns fatores: bom investimento nas categorias de base, tecnologia no preparo dos atletas, além da exploração da marca do clube em ações promocionais e produtos registrados.

É correto dizer que o São Paulo é um dos clubes que mais teve segurança financeira nas últimas duas décadas. Tanto é que varreu a América e o Mundo em 1992 e 93, foi campeão paulista em 1998 e 2000, depois voltou para conquistar outra vez a Libertadores em 2005 e três vezes o Brasileiro. O ciclo vitorioso se encerrou (e parou) na Sul-Americana em 2012. Tudo isso sem um grande parceiro como muleta. Mérito do clube.

Entretanto, a coisa começou a dar errado a partir de 2014, na gestão de Carlos Miguel Aidar. Atrapalhado e equivocado em conceitos financeiros, o presidente começou a gastar mais do que podia e gerou um impacto horroroso: no ano seguinte, a conta veio. Salários atrasados, dívidas com direitos de imagem e pouco dinheiro para contratar. Como solução, o São Paulo começou a vender seus principais jogadores e passou o resto do ano remendado sob o comando do técnico Juan Carlos Osorio.

Onde estava todo o profissionalismo das décadas passadas no Morumbi? A responsabilidade em gastos, a força de uma boa gerência, as ideias inovadoras e o compromisso com a seriedade? Aidar terminou de estragar o castelinho de areia tricolor e as futuras gestões terão de lidar com o impacto da dívida que vai crescendo. Quem vai estancar esse sangue?

“Tricolor sociedade anônima”

Foto: Acervo Placar
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Já o Fluminense, fecha a matéria com o ambicioso projeto de se transformar em clube-empresa. A gestão de Arnaldo Santiago estudava lançar o Flu como “Sociedade Anônima”, visando maximizar o lucro e sanar as dívidas que ameaçavam a sede social e o estádio das Laranjeiras. Esse plano seria feito por meio da venda de 49% das ações do Flu na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro.

Em 1994, o CT de Xerém ficou pronto e de lá saíram alguns jogadores importantes para o clube, como os laterais Fábio e Rafael da Silva, Arouca, Marcelo, Carlos Alberto, Roger Flores e Diego Souza. Porém, o plano do clube-empresa nunca foi efetivado. Até 1995, o Flu tinha o que comemorar: com o título carioca no gol de barriga de Renato Gaúcho, o time sonhava em retomar os tempos de glória vividos na década de 1980.

Daí em diante, só decadência: as dívidas acumularam e viraram uma bola de neve. Frágil, o Flu sofreu rebaixamentos em 1996 (continuou na Série A após virada de mesa), 97 e 98, o Tricolor das Laranjeiras foi parar na Série C. Com Roger, Roni e Magno Alves, a equipe escapou do inferno e conseguiu no campo o acesso para a Série B, mas voltou direto para a elite com a criação da inchada Copa João Havelange.

O maior problema do Fluminense foi resolvido: com o patrocínio da Unimed, a partir de 1999, dinheiro não faltou. Em teoria, a ligação Unimed-Flu é parecida com a da Parmalat. A empresa de Celso Barros bancou a parte majoritária de salários e contratações de jogadores, permitindo que a equipe das Laranjeiras saísse da turma do fundão para conquistar entre outros títulos, a Copa do Brasil de 2007 e o Brasileirão de 2010 e 2012. Para o Flu, a obrigação era apenas em parte dos salários (registrados em carteira) e verbas de contratação. Estava tudo estava às mil maravilhas.

Mas ninguém contava que a Unimed pudesse enfrentar sanções fiscais e retirasse gradualmente seus investimentos. Em 2013, retrato da fonte que secou, o time caiu outra vez e foi salvo por uma decisão no STJD que rebaixou a Portuguesa. A Unimed de fato quebrou e rompeu a parceria com o Flu ao fim de 2014. O clube então passou 2015 inteiro apostando em jogadores sem tanta expressão e tentando vender jovens para levantar recursos.

Resumo da ópera

O dirigente médio brasileiro ainda não entendeu um jeito de evitar o endividamento e manter a responsabilidade financeira, que reflete diretamente na saúde dos clubes. A solução apresentada por esses três gigantes em 1993 era aplicável, na teoria. Na prática, interesses pessoais e tiros no pé das administrações fizeram ruir qualquer saída inteligente para os perrengues vividos no Brasil.

Enquanto os cartolas não tratarem do problema com a devida seriedade e empenho, a modernidade será uma eterna promessa. Daqui a 20 anos estaremos discutindo como fulano do time x tentou implantar uma mudança significativa sem sucesso e o clube foi para o buraco. Estudamos demais desde 1993, mas é uma longa estrada até que esse conhecimento seja aplicado e salve de uma vez por todas o futebol brasileiro do amadorismo e da lama.

4 pensamentos em “Ainda estamos à espera da modernidade no futebol brasileiro”

  1. Uma correçāo à matéria para dar mais credibilidade ao veículo. Em 2013, a escalação irregular que salvou o Flu foi a de André Santos do Flamengo. A escalação de Heverton da Portuguesa salvou foi o clube de regatas do rebaixamento. Se a Portuguesa não tivesse cometido a infração, ainda assim, o Flu não cairia. Cairia o Fla. Não é tão difícil contar a real hstória. Basta olhar para a tabela de classificação final.

  2. A real história é que os jogadores e torcedores do Fluminense choraram ao final da 38ª rodada, depois do jogo contra o Bahia, pois sabiam-se rebaixados. O erro da Portuguesa foi, de fato, suspeito, e favoreceu o tricolor carioca. Não fosse assim, o que faziam torcedores do Flu fora do tribunal, comemorando a decisão de punir a Portuguesa? Eles estavam felizes pelo tribunal ter salvo o Flamengo??? Não, eles estavam felizes pela salvação do Flu. A matéria está corretíssima neste ponto.

    Onde a matéria escorrega um pouco é ao falar da relação do Palmeiras com a Crefisa, comparando-a com a Parmalat. Não existe nenhum trabalho de co-gestão, nem a Crefisa passará a “comprar” jogadores para o clube, como fazia a multinacional italiana (o único adquirido com dinheiro da Crefisa foi o jogador Lucas Barrios, mas o modelo não deve ser repetido). Os donos da Crefisa até consideraram essa possibilidade, mas o clube não pretende seguir esta via, entre outros motivos, para não criar um laço de dependência com a empresa. O que me parece absolutamente correto. No mais, ótima matéria, foi legal viajar um pouco no tempo e lembrar quais eram as perspectivas para o futebol brasileiro duas décadas atrás.

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