San Lorenzo e Boedo: memórias sobrepostas de um gigante

Foto: Hola Siglo XXI
Foto: Hola Siglo XXI

Em 1979, o San Lorenzo se despedia de seu estádio, o Gasómetro. Atravessando graves dificuldades financeiras, o time argentino se endividou, foi parar na segunda divisão e por alguns anos atuou em estádios de outros clubes antes de inaugurar o Nuevo Gasómetro (Pedro Bidegain), em 1993. Duas décadas depois disso, o Ciclón se prepara para retornar a Boedo e levantar um novo estádio, exatamente onde foi construído e derrubado o primeiro.

Voltar ao local onde aconteceram tantas glórias é mais do que um resgate do passado. É uma medida passional que mostra o quanto o San Lorenzo, apoiado por sua torcida, está disposto a batalhar para honrar as suas origens.

A manobra governamental

Foto: Apertura.com
Foto: Apertura.com

Ao fim da década de 1970, o governo argentino arquitetou a transformação do Viejo Gasómetro em um supermercado enorme do Carrefour. Para isso, foi colocada em prática uma estratégia ardilosa que contou com o apoio de vários dirigentes do clube e a compra do local por um valor baixíssimo. O que fortaleceu a argumentação do governo era a alta incidência de estádios em Buenos Aires, fazendo acreditar que o San Lorenzo estaria colaborando com um novo projeto de habitação. Tudo balela.

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Como Boedo é uma região extremamente valorizada, os membros da ditadura militar acharam que seria uma grande oportunidade tomar posse do estádio para repassá-lo anos depois a um consórcio, com um lucro brutal em relação à verba gasta pela propriedade. Os franceses do Carrefour acabaram arrematando o terreno e lá montaram uma hiperloja, que vive forte até hoje em dia. Mas esta fase está perto do fim.

A torcida fanática sentiu saudades de casa. O passado em Boedo remete a Toto Lorenzo, José Sanfillippo, Héctor Scotta, Rinaldo Martino, entre outros que marcaram seus nomes antes de 1979, última partida no Viejo Gasómetro, diante do Boca Juniors. A partir de 2007, um movimento de sócios-torcedores ajudou o clube a arrecadar fundos para a missão de resgatar as origens do San Lorenzo, fundado na “terra santa” de Boedo.

Em dezembro de 2015, o Carrefour aceitou uma proposta de 150 milhões de pesos e cedeu 75% do prédio atual, que será demolido para a construção do Novo Velho Gasómetro, batizado desde já de “Papa Francisco”, em homenagem ao mais célebre torcedor do Cuervo.

O Carrefour acordou com a Prefeitura de Buenos Aires que irá manter os seus postos de trabalho da franquia de Boedo e que irá construir outra loja na cidade até o fim de 2017. Ao que concerne o San Lorenzo, a obra do Estádio Papa Francisco deverá custar de 50 a 100 milhões de dólares, afirma o site Canchallena. O projeto prevê uma arena multiuso com lotação máxima de 38 mil lugares, marca da nova geração de estádios ao redor do mundo. E as obras para erguer o próximo estádio referência em modernidade na Argentina começam em 2018, com inauguração esperada para 2020. Neste ano de 2016, a inauguração do Viejo Gasómetro completa seu centenário.

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O que fica para trás

Foto: Globoesporte.com
Foto: Globoesporte.com

Não que o torcedor do San Lorenzo se importe, mas voltar à velha casa 40 anos depois vai representar a segunda grande mudança em sua história. É verdade que o cuervo de forma alguma se sentiu órfão de glórias enquanto o clube morava em Bajo Flores, já que nessa fase, venceu o maior campeonato de sua história, a Copa Libertadores.

O plano da diretoria sanlorencista é ceder o estádio para a Prefeitura, que deve utilizá-lo para atividades poliesportivas e como sede dos Jogos Olímpicos da Juventude, em 2018. Não está sob cogitação abandonar o Nuevo Gasómetro e torná-lo um gigante esquecido. Mesmo porque, a grande fase recente do San Lorenzo foi vivida ali.

Foram vencidos quatro títulos nacionais, uma Sul-Americana, uma Mercosul e por último a Libertadores, em 2014. O San Lorenzo foi tão grande em Bajo Flores quanto havia sido em Boedo e por mais que nesses anos todos tenha sentido uma necessidade incontrolável de reatar seus laços com o Viejo Gasómetro, ficará uma nova saudade. Saudade dos gritos de gol e de quando a América foi por três vezes colorida em azulgrana.

Foto: Site San Lorenzo
Projeto do Estadio Papa Francisco / Foto: Site San Lorenzo

Quando entrar na nova-velha casa, o San Lorenzo não vai conseguir enxergar o antigo colosso entre as novas vigas, arquibancadas e silhuetas. A modernidade espera a chegada do novo estádio de braços abertos, enquanto o torcedor corre para reencontrar e exaltar ainda mais seu orgulho. Engana-se quem pensa que são só alguns quarteirões renovados. Voltar a Boedo é acima de tudo uma magia necessária para mover uma das maiores paixões que o futebol já ajudou a cultivar.

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