Nunca mais existiu alguém como Éder no Atlético Mineiro

Foto: GloboEsporte.com
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Três passagens e sete anos. Essa foi a medida do amor que Éder Aleixo teve com o Atlético Mineiro nos anos 1980 e 90. Revelado pelo América Mineiro e com passagem boa pelo Grêmio, o ponta-esquerda participou de um período vencedor do Galo e saiu para a história como um dos grandes artilheiros do clube. No auge, foi cobiçado por vários clubes europeus, mas a diretoria atleticana não queria deixar ele sair de forma alguma para o Velho Continente.

A história de Éder é cheia de pequenas reviravoltas e momentos de desavença. Ele era apelidado de “Bomba de Vespasiano”, tamanha força que tinha na perna esquerda. Com essa habilidade, fez muitos gols de falta, de longa distância e até mesmo alguns olímpicos, como o do Palmeiras contra o Corinthians na semifinal do Paulistão de 1986.

Depois de sair do Coelhão, o atleta foi para o Grêmio, a pedido de Telê Santana, que cruzou com ele ainda no América e se impressionou. No Tricolor, foi bicampeão gaúcho e ganhou muita moral com as suas atuações e bombas com a canhota. Em 1980, voltou para Belo Horizonte em troca por Paulo Isidoro, que seguiria para a equipe gaúcha. Brigado com Telê (afastado do time, se vingou ao defecar no sapato de Telê na concentração), ganhou a chance de ouro: finalmente jogou pelo seu time de coração.

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Os primeiros anos foram um misto de conquistas e confusões. Temperamental, Éder sempre se envolvia em encrencas, perdia a cabeça com facilidade e acumulava suspensões. Em cinco anos, foi quatro vezes campeão mineiro ao lado de feras como Cerezo e Reinaldo, ídolos absolutos da massa atleticana. Seu estilo incisivo e agressivo com a bola nos pés rendeu muitos gols e façanhas. Logo ganhou o apelido de “Bomba”. Era capaz de fazer um gol de bem longe, surpreendendo goleiros que estavam mal posicionados.

O sucesso foi premiado com a convocação para a Copa de 1982, a única em sua carreira. Éder foi muito bem na Espanha e atuou como titular até a eliminação trágica para a Itália, no quadrangular semifinal. Fez três gols no torneio e passou a ser observado por times do exterior.

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Foto: Acervo Placar
Foto: Acervo Placar

No Galo, também arrumou suas encrencas, não pense que não. Em uma delas, datada em 1983, deu um soco em Murilo, colega de time, durante um treinamento em que reclamava da marcação que recebia. O companheiro prestou queixa e Éder chegou a ser condenado a dois anos de prisão por agressão, mas escapou da pena posteriormente, por ser réu primário.

Jogando, era fenomenal. A zaga adversária tentava dar o mínimo de espaço a ele, que se armasse o chute, certamente castigaria o goleiro. Era imparável. E esse talento, sem falar na atuação no Mundial-82, colocou grandes da Europa atrás do seu futebol.

De repente, o Atlético começou a ser assediado por Roma, Milan, Barcelona, Sporting, Atlético de Madrid e um clube dos Emirados Árabes que queria derramar 7 milhões de dólares para assegurar a sua contratação. Entretanto, o presidente do Galo, Elias Kalil (pai de Alexandre Kalil) disse não a todos eles, com medo de não arrumar um substituto à altura.

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Pressionado, Éder estava sendo cobrado demais pela torcida e em vários momentos não rendeu a genialidade que se esperava dele. O resultado foi um pedido por maiores salários,demanda não atendida por Kalil. De repente, o ídolo e incontestável começou a ser odiado por parte da massa alvinegra. Em 1985, uma série de desavenças com a diretoria e problemas pessoais minaram a passagem histórica do Bomba pelo Atlético.

Éder em entrevista à Placar em agosto de 1985, pouco antes de deixar o Atlético / Foto: Acervo Placar
Éder em desabafo à Placar em agosto de 1985, pouco antes de deixar o Atlético / Foto: Acervo Placar

Ao barrar a saída do craque alegando que não encontraria alguém da sua qualidade, Kalil adivinhou que o futuro do Galo no fim da década de 1980 não seria nada animador. Ficar em BH trouxe vários problemas pessoais e profissionais para o ponta, que saiu em 85 para jogar em outro alvinegro, a Inter de Limeira.

Se tivesse ficado mais um ano na equipe do interior paulista, faria parte do time memorável que bateu o Palmeiras na final do Estadual em 1986. Mas Éder estava do outro lado, jogando no Verdão. Depois da Inter, o atleta rodou pelo Brasil e voltou mais duas vezes ao Atlético, fazendo as pazes com a torcida que tanto empurrou no passado.

Fora do país, jogou no Cerro Porteño, no Matalyaspor e no Fenerbahçe, já depois dos 30 anos e tratado como veterano. Adaptou seu futebol e ainda conseguiu atuar em equipes da primeira divisão nacional, como o União São João, em 1991 e 95. Em 1993, por exemplo, causou certo desconforto enquanto jogou no rival Cruzeiro por alguns meses e saiu da Toca da Raposa com o título da Copa do Brasil, o único nacional na sua longa carreira. Parou só em 1997, com 40 anos, jogando no Montes Claros.

As bombas e golaços ficaram no passado, gravadas na memória de muita gente, nas páginas de jornais, livros e vídeos feitos por torcedores atleticanos. E depois de tudo isso que vimos, é justo dizer Elias Kalil acertou em cheio na sua profecia: nunca nada parecido com Éder pisou na Cidade do Galo…

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