A final que nunca acabou

Foto: IG
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Em 1986, os destinos de Internacional de Limeira e Palmeiras se cruzaram em uma memorável decisão do Paulista. Enquanto a equipe do interior derrubava o Santos em uma semifinal, o Palmeiras superava demônios e o rival Corinthians na outra. No dia 3 de setembro daquele ano, a história foi escrita, mas não do jeito que os alviverdes planejavam.

A história da vitória épica e da derrota retumbante no Morumbi não foi tão simples e rápida assim. Antes disso, uma semifinal de arrasar quarteirão abalou o mesmo estádio em dois jogos entre Palmeiras e Corinthians.

A trama foi a seguinte: no primeiro jogo, o Corinthians venceu por 1-0, gol de Cristóvão, com pelo menos três lances polêmicos de arbitragem. Em um, o árbitro anotou falta de Vágner e anulou o primeiro gol palmeirense. No segundo, Edu Manga, do Verdão, viu o cartão vermelho direto após reclamar de uma falta que o lateral Denys cometeu. No terceiro, Edivaldo tirou uma bola que ia a caminho da baliza alvinegra com o braço e o juiz deu escanteio. A torcida palmeirense ficou maluca com as marcações e taxou de “roubo” o que aconteceu naquela tarde de domingo.

A desforra

Foto: Jornal da Tarde
Foto: Jornal da Tarde

Dias depois, no mesmo estádio, pelo jogo de volta, o Palmeiras estava pressionado a vencer. Precisava derrotar o rival e ainda fazer um gol na prorrogação. A injustiça do domingo ficou exposta no rosto e na postura de cada palmeirense, incluindo os onze que entraram em campo. Antes da partida, ecoou a polêmica declaração de Rubens Minelli, técnico corintiano, que disse categoricamente que tinha um jantar marcado para 23h, pouco após o encerramento da partida, que na visão dele, não teria prorrogação. A empáfia dos rivais foi punida com um espírito de batalha dos palmeirenses, sobretudo do capitão Vágner, que avisou a Minelli: “Ele vai comer de madrugada a comida fria, e de cabeça quente”. Nuances de um dérbi decisivo.

Ao longo dos 90 minutos, o Palmeiras marretou o Corinthians para conseguir o resultado que precisava. E a cada 60 segundos o torcedor entrava em uma espiral pessimista em virtude do 0-0. Naquele momento, quase 10 anos separavam o time do último título, em 1976, ainda nos tempos de Ademir da Guia. A agonia só aumentou com os lances desperdiçados pela ofensiva palmeirense.

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Mirandinha comemora gol pelo Palmeiras no Paulistão-86 /Foto: GloboEsporte.com
Mirandinha comemora gol pelo Palmeiras no Paulistão-86 /Foto: GloboEsporte.com

Os aflitos palmeirenses aguardaram transtornados até que Jorginho metesse a bola na área, encontrasse a cabeça do uruguaio Diogo e que Mirandinha, o herói improvável, fizesse o gol de canela mais comemorado na noite, aos 42 do segundo tempo. 1-0 para o Palmeiras, que chamou a prorrogação. Massagens e preleções improvisadas feitas, os times voltaram ao gramado e o Corinthians não parecia ter forças para impedir a virada do inimigo. Mirandinha, de novo ele, saiu de cara para Carlos e bateu rasteiro no canto para fazer o 2-0. Era só daquilo que o time de Carbone precisava para se classificar.

Mas Éder, o Bomba, fechou com chave de ouro o placar de 3-o, com um gol olímpico caprichado. O chute vindo do canto direito fez uma curva maldita para Carlos, que não conseguiu evitar o toque na trave e o mergulho na rede. Com classe, o Palmeiras era finalista.

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Foto: Site oficial Palmeiras
Foto: Site oficial Palmeiras

O Palmeiras chegou cheio de confiança para enfrentar a Inter de Limeira, que derrotara o Santos na outra chave. A aura alviverde brilhava, era como se a era de vacas magras estivesse perto do fim. A diretoria optou por marcar os dois jogos no Morumbi, visando grande renda e público para a festa dos campeões. Nada poderia abalar a moral dos palmeirenses, sobretudo depois da mágica reviravolta diante do Coringão.

O problema é que do outro lado estava um time conhecido como “Dinamarca caipira”, treinada pelo ex-jogador Pepe e que jogava um futebol atraente para a época. Contando com os gols do artilheiro Kita, a Inter queria aprontar e sabia que poderia fazer isso apostando no erro palmeirense. Afinal, o plantel de Carbone nem era tão bom assim e estava rachado.

Foto: Gazeta Press
Foto: Gazeta Press

E veio a Inter para fazer o mesmo bom trabalho que vinha fazendo nas fases anteriores. Como toda equipe que enfrenta um grande em uma decisão, o alvinegro de Limeira cozinhou o Verdão e saiu do primeiro embate no Morumbi, em 30 de agosto, com um valioso 0-0. Estava tudo aberto para os 90 ou 120 minutos finais.

Três dias depois, 68 mil pessoas testemunharam um evento que até hoje gera sentimentos mistos, dependendo do ponto de vista. Um ano antes, os palestrinos sofreram o primeiro golpe vexatório da fila, quando perderam para o XV de Jaú em casa e foram eliminados do Paulistão, de 1985. Naquela ocasião, uma combinação de resultados favorecia o Verdão no Palestra Itália, mas apático e muito ineficiente, o time da casa tomou de 3-2 e deixou muita gente catatônica no duro concreto da Turiassu. O resultado tinha cara de ser fácil, mas acabou assombrando a memória dos que lá estavam.

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O trauma e a consagração dos caipiras

Não era para ser um aviso, mas alguma coisa estava fadada a dar errado na noite de 2 de setembro de 1986, no Morumbi. Assim como em 1985, o fantasma estava dentro de cada jogador. Eles sabiam das dificuldades que enfrentariam contra a Inter, mas o peso da camisa poderia desequilibrar a balança. Tudo isso e outras mandingas ficaram apenas no plano teórico. Na prática, o desfecho foi outro.

Kita divide a bola na memorável final do Paulistão /Foto: Globoesporte.com
Kita divide a bola na primeira memorável final do Paulistão-86 /Foto: Globoesporte.com

Quem torcia para a Inter e não conseguiu ingresso, viu da sua cidade o improvável acontecer. Nos 45 minutos iniciais, duelo franco, disputado, boas chances para ambos. Já na etapa complementar, o duro golpe: Kita pegou chute de muita sorte na entrada da área e espetou a meta de Martorelli. O camisa 9 se sagrava ali artilheiro do Paulistão.

Depois, Tato enfiou e girou a faca no peito palmeirense em um lance que tinha elementos de oportunismo e desastre: uma bola de Gilberto Costa voou para a área do Palmeiras. O pobre lateral Denys se embananou, pensou demais e tocou a bola com o peito, em direção ao gol. Martorelli, que não sabia como resolver a sinuca em que se meteu, saiu feito louco e não chegou a tempo de espalmar o chute de Tato: 2-0 para a Inter.

Para aumentar o fator dramático, o goleiro Silas resolveu pegar tudo que vinha dos pés do Palmeiras. E quando não pegava, era amparado pela trave. Amarildo fez de cabeça o gol de honra alviverde, já aos 29 do segundo tempo. Entretanto, o Palmeiras estava atordoado demais para buscar a virada, o único resultado possível para curar a ressaca de 10 anos de espera. Kita quase sacrificou o sofrido animal palmeirense ao passar por Martorelli e ficar de cara para o gol, mas exagerou no preciosismo e meteu na trave. Aos 47 minutos e 53 segundos de jogo, a zebra se consolidou, a Inter virou a primeira equipe do interior a ser campeã paulista na história.

Soluçando, o torcedor palmeirense bateu e quicou no fundo do poço. Não era só decepção, era mais um corte de adaga na pele, um caminho de sangue feito pela lâmina. Não era possível perder naquele dia, mas o Palmeiras perdeu. Na década anterior, quantas glórias, craques, taças e doses exageradas de alegria. Como em tão pouco tempo o time virou um miserável na sarjeta?

Antes era o XV de Jaú, depois foi a Inter de Limeira. Ferroadas ardidas na autoestima de um clube que se afundou na crise e na lama, com contratações equivocadas e desgraçando a vida de jogadores que teriam sido ídolos absolutos em outros tempos. Há quem, ainda hoje, pense em uma forma de voltar o relógio o bastante para descer outra vez no 2 de setembro de 1986, com a única missão de tirar Denys do jogo ou quem sabe neutralizar a ameaça do goleador Kita.

Jogos como este ensinaram uma dura lição ao torcedor. Que só a camisa não é garantia de vitória e todo erro em final de campeonato será punido. Dali em diante, foram mais sete anos de lamúrias, pessimismo e total abalo da fé que um dia levou cada apaixonado ao estádio para ver o seu time ganhar. A ferida pode até ter cicatrizado, mas ninguém que viu a queda para a Inter de Limeira se esquece da dor, do trauma irremediável a que foram submetidos no Paulistão de 1986. Ali, a esperança perdeu para o medo.

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