Dener, o nosso James Dean

Foto: IG
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Jovens, audaciosos, extremamente talentosos no que faziam e mortes trágicas em acidentes automobilísticos. James Dean e Dener deixaram o mundo de forma brusca e sempre que lembramos dos dois, fica a sensação de um legado incompleto. Mas afinal, quem é que cumpre a missão de vida aos 24 anos?

O mundo ainda estava conhecendo as principais necessidades de seus jovens nos anos 1950. Diferentemente de seus pais, os adolescentes não queriam mais permanecer aprisionados em uma vida linear e tediosa no escritório. Aquela geração que vivia em função do trabalho e pouco tinha tempo de se divertir estava ficando para trás. O retrato dos rebeldes certamente foi James Dean.

O ator americano nasceu em Indiana em 1931. Com 20 e poucos anos já estourava no mundo do cinema por suas inconfundíveis características: o cabelo bagunçado, as jaquetas de couro e a revolta com a sociedade que sugava a sua juventude. James foi a face de um sentimento de liberdade que tomou o coração de meninos e meninas, inconformados com a arbitrariedade vinda dos pais.

Foto: Warner
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Eles queriam festas, menos obrigações e mais tempo para aproveitar o que a vida tinha a oferecer. Eles precisavam encarar de frente e com peito todas as pequenas opressões que viviam. E de quebra, desafiavam a morte como se ela fosse apenas um passeio indesejado, não uma sentença final.

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Nos filmes de Hollywood, Dean ficou marcado como um menino temperamental que queria a todo custo dobrar as regras vigentes para viver da forma que bem entendesse. Encantou milhões com a sua beleza e com a facilidade de comover usando de seus dramas e aflições. Colocava um cigarro na boca e virava um mito. Era como se dissesse que o mundo era seu. E foi mesmo, naqueles cinco anos.

James adorava velocidade e corria sempre que possível. A Warner, ainda durante a produção de “Assim caminha a humanidade”, impediu que ele disputasse competições de carro, temendo perdê-lo em um acidente. Mal foram encerradas as gravações, o ator voltou às pistas. Estava dirigindo o seu Porsche 555 de Los Angeles a Salinas, onde disputaria uma prova.

30 de setembro de 1955, Califórnia

Na estrada, chegou a ser multado por ultrapassar os limites de velocidade. Duas horas depois, acelerando ao máximo, viu um Ford Tudor vindo na direção oposta. A única saída de James era entrar bruscamente à esquerda em uma bifurcação, mas sem tempo hábil para desviar do outro carro, colidiu de frente e capotou algumas vezes até cruzar a estrada e parar no acostamento. James, com 24 anos, morreu quase que instantaneamente com as lesões adquiridas no acidente. O outro passageiro de seu Porsche, o mecânico Rolf Wütherich, foi arremessado do veículo na batida, mas sobreviveu.

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O fenômeno do Canindé

Foto: GloboEsporte.com
Foto: GloboEsporte.com

Dener Augusto de Souza surgiu como um intenso meia na Portuguesa em 1991, com o título dos juvenis na Copa São Paulo de Juniores. O seu talento era raro: driblador e veloz, fazia parecer fácil a arte de passar por vários adversários e entrar no gol. Nenhum zagueiro tinha a capacidade de anular a sua eficácia durante um jogo inteiro.

Visado por muitos defensores, o atacante chegou ao estrelato com algumas virtudes parecidas com as de James Dean. Não era bonito, não era astro de cinema e nem passava um recado da juventude com as suas caras e bocas. Mas sabia executar com primor o seu ofício e isso bastou para que fosse imortalizado. Tanto é que muito cedo foi comparado aos maiores do esporte. O que ele fazia, com a facilidade que fazia, era referencial para os mais habilidosos. E Dener só aceitava parar dentro do gol ou deixando um companheiro em condição de marcar.

O golaço contra o Santos

Em 1993, aprontou a maior traquinagem de sua carreira, aquela que foi lembrada até pelo juiz que apitava a partida, Oscar Roberto Godói. No ataque, o atleta da Portuguesa meteu uma caneta em Índio, acertou uma cotovelada em Silva para proteger a bola e humilhou o goleiro antes de dar um carrinho para o gol, evitando a saída na linha de fundo. Tudo naquele lance foi épico. Do domínio até o drible, a proteção malandra, a arrancada belíssima e claro, a narração visceral de Sílvio Luiz.

Então falei: que se dane o Santos, que se dane o Silva, eles vão me perdoar, porque quero que fique perpetuado esse lance. Deixei passar e foi um gol que entrou para a história. (Godói, ao GloboEsporte, em 2014)

A forma que Dener tinha de se expressar não era nas pistas e nem nos estúdios de filmagem. Era com a bola nos pés, entortando a coluna de zagueiros e servindo a torcida com gols memoráveis e de puro requinte.

Dener não era exatamente um representante de sua geração. Afinal, poucos podiam se dar ao luxo de rabiscar os mesmos dribles que ele. Magrinho, dono de um bigode humilde e um sorriso fácil, tinha todas as qualidades que um craque brasileiro de verdade apresentava. Com o tempo, fez o Brasil se curvar ao seu jeito assombroso de jogar bola.

Por essas razões, falar de Dener e usar a palavra “alegria” pode até ser óbvio, mas é essencial. Não demorou para que ele ficasse incontestável na Lusa. O Brasil também teve a chance de vê-lo com a camisa canarinho em dois jogos, diante de Argentina e Peru, por amistosos internacionais em 1992. Dener desfilou também por Grêmio e Vasco, que viam estrelas a cada vez que ele ciscava com as pernas na frente de um adversário. O destino desses pobres beques era quase sempre o mesmo: a saudade e o vento que passava ao lado de Dener durante a finta.

Adeus, 10

Passaram-se cinco anos da estreia como profissional até o último jogo, pelo Vasco, contra o Fluminense, em 1994. Nesse intervalo, ele cresceu, amadureceu e estava a um passo de se consolidar como um dos grandes atletas do país. Campeão gaúcho e da Taça Guanabara, Dener morreu na manhã de 18 de abril de 94, ao lado da Lagoa Rodrigo de Freitas, em um tolo acidente de carro, com apenas 23 anos.

Estava no banco do passageiro, dormindo, quando o seu Mitsubishi Eclipse se chocou com uma árvore. O amigo Oto Gomes, que dirigia, cochilou ao volante e causou o acidente. A ironia divina era que Dener estava pronto para se transferir ao Stuttgart, para jogar ao lado de Dunga e Élber. A transação havia sido concretizada horas antes, em São Paulo, por 3 milhões de dólares.

Diferente de James Dean, entre as coincidências possíveis, Dener não morreu dentro de um carro porque esticou o limite entre a coragem e a loucura. Deixou de existir porque dormia com o cinto de segurança no seu pescoço e o banco reclinado. A crueldade do acidente matou o futuro brilhante que ele teria pela frente.

Hoje em dia, conjecturamos o que teria sido de Dean e se ele poderia ter conquistado o Oscar como melhor ator da Academia. O mesmo ponto de interrogação ainda surge para incomodar, 21 anos depois da morte de Dener: ele seria campeão brasileiro, mundial e vencedor de uma Copa com o Brasil? Tudo fica no campo da suposição. Se tivesse ficado nos gramados, teríamos muitos outros gols dele para apreciar.

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