Como Almir Pernambuquinho viveu e morreu com coerência

Almir nos tempos de Vasco. (Foto: Ne10/UOL)
Almir, ao centro, nos tempos de Vasco. (Foto: Ne10/UOL)

Almir Pernambuquinho teve trajetória meteórica no futebol brasileiro. Profissional por 12 anos, deixou para trás um rastro de talento e de um temperamento mais do que explosivo. Craque de gênio difícil, ficou marcado pelas brigas dentro e fora de campo, que um dia culminaram no seu assassinato em um bar de Copacabana.

Mas antes de construir um fácil personagem de pavio curto, é preciso falar sobre o jogador Almir. Um homem que saiu jovem de Recife aos 19 anos para jogar no Vasco da Gama. Antes disso, foi revelado pelo Sport, campeão pernambucano em 1956, mostrando que tinha bola para atuar nos grandes do país.

Almir ao lado de Garrincha em áureos tempos de clássicos cariocas. Foto: Tardes de Pacaembu
Almir ao lado de Garrincha em áureos tempos de clássicos cariocas. Foto: Tardes de Pacaembu

O seu estilo de jogo era parecido com o que ele fazia quando erguia os punhos em direção a adversários na briga. Rápido, furioso e letal, Almir se transformou rapidamente em uma promessa para a Seleção Brasileira. Pelo Vasco, ganhou uma vez o Carioca e vários torneios amistosos em turnês europeias.

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Contra a cavalaria uruguaia

Teria sido um dos campeões mundiais em 1958 com o Brasil, não tivesse escolhido seguir excursão internacional com o Vasco, na época uma ofensa grave aos valores atléticos nacionais. Só foi convocado efetivamente a partir de 1959, quando disputou o Sul-Americano e causou uma enorme confusão contra o Uruguai, por cometer falta em Leiva e desencadear uma briga histórica.

Os jogadores envolvidos trocaram socos, tapas, voadoras e pontapés. Até mesmo o ídolo Leônidas da Silva, que comentava a partida em uma rádio, desceu ao gramado para separar. O Brasil bateu o Uruguai por 3-1 e mais de 50 pessoas entre jogadores, membros da comissão técnica e dirigentes saíram no braço no gramado do Monumental de Núñez, em Buenos Aires. Não é qualquer um que se mete à besta contra uma equipe uruguaia. Almir ousou desafiar a escola celeste naquele dia.

O “Pelé Branco” levou trovões para a Argentina

Foto: Veja Rio
Foto: Veja Rio

Em 1960, o atleta deixou São Januário para jogar no futebol paulista. Pelo Corinthians, Almir ganhou a alcunha de ‘Pelé Branco’, embora nunca tivesse tempo suficiente para comprovar o seu talento. Ficou apenas um ano no Timão antes de emprestar seu futebol ao Boca Juniors.

Pela equipe xeneize, protagonizou um verdadeiro sururu ao reagir a xingamentos de atletas do Chacarita Juniors. Expulso de campo, foi vaiado e socou a cara de um terceiro jogador do Chacarita a caminho dos vestiários. Não se intimidou nem com um bolo de adversários que vieram para tomar as dores do colega agredido. Acima de tudo, Pernambuquinho era um homem que não aceitava levar desaforo para casa. Depois de passar pela Argentina e mostrar a valentia dos brasileiros que jogavam pela América do Sul, ganhou a Itália jogando por Fiorentina e Genoa, antes de voltar ao seu país natal em 1963, assinando pelo Santos.

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O Peixe vivia grande fase, a maior de sua história. Venceu em 1963 o Paulista, a Taça Brasil, o Rio-São Paulo, a Libertadores e o Mundial, este último contra um poderoso Milan, em três partidas dificílimas. Na terceira, dentro do Maracanã, o visceral atacante foi o substituto de Pelé e sofreu o pênalti que deu origem ao gol de Dalmo, coroando o bicampeonato mundial do alvinegro.

Porradas e bolinhas

Entretanto, o enredo deste título não é tão simples e fantástico para Almir como pode parecer. O Milan chegou a estar vencendo por 2-0 e levou a virada com o placar de 4-2, no jogo de volta. Como na Itália o placar tinha sido 4-2 para os milanistas e os brasileiros devolveram com a mesma moeda, fez-se necessário um terceiro confronto em que o Peixe levou a taça ao vencer por 1-0 neste pênalti de Dalmo, sofrido por Almir.

Amarildo, o Possesso, inflamou os nervos dos santistas ao afirmar que “Pelé já era”, em virtude da contusão que tirou o Rei de combate naquelas tensas batalhas contra o Milan. Não bastasse a provocação de Amarildo, o Santos também entrou em campo impulsionado por Almir, alterado por substâncias ilícitas. Quem cometeu o pênalti capital em questão foi o defensor Cesare Maldini, com uma solada na cabeça de Pernambuquinho.

Entrei em campo muito doido. Por que eu não ia querer (usar a droga)? O bicho pela conquista do campeonato era 2.000 cruzeiros: dava para comprar um Volkswagen zerinho. Nós entramos em campo vendo o automóvel ao alcance da mão. Do outro lado estavam os caras que podiam impedir isso. (Almir, sobre a sua atuação dopada no terceiro jogo contra o Milan no Mundial de 63)

Drogas, bebida e mais brigas

Almir com a camisa do Flamengo, onde viveu bons tempos. Foto: Secopa
Almir com a camisa do Flamengo, onde viveu bons tempos. Foto: Secopa

O encrenqueiro dividia espaço com um jogador determinado a vencer e fazer gols. A cada briga que arrumava, o pernambucano ganhava fama de anti-herói na imprensa, fascinada com a sua capacidade de resolver um jogo e mesmo assim colocar tudo a perder na base da porrada.

Fora dos campos, Almir não escondia que era chegado em uma bebida e também fez questão de esclarecer após a sua aposentadoria que muitas vezes se drogou para jogar decisões. Visando o bicho a ser pago por títulos, Pernambuquinho confessou que usou do doping para ter melhor rendimento, mas que isso não era exclusividade sua e vários outros grandes homens do esporte tomavam as famigeradas “bolinhas”. A ocasião principal em que fez uso da droga? A final do Mundial de 1963 no Maracanã. Naquela época ainda não havia nenhum tipo de exame antidoping.

O seu estilo inconfundível era taxado por muitos como o de um “marginal”. Afinal, sempre que podia, resolvia seus problemas ou seu descontrole com socos. Juntando essa tendência com o fato de ser um amante convicto do álcool, Almir não desfrutava de fama tão positiva quanto as feras Pelé, Pepe e Didi, por exemplo.

Atuou por mais dois clubes depois do Santos: Flamengo e América-RJ. Em ambos, foi um retrato da sua própria decadência, da derrota para o seu lado mais incontrolável. Em 1965, ganhou o Carioca com o Flamengo e conquistou a torcida com a sua raça. No ano seguinte, contudo, saiu perdedor de campo no Estadual contra o Bangu, que surrou um desfalcado Fla no Maracanã.

Na bola, vitória incontestável do Bangu, bicampeão carioca. Sem ela, o Flamengo resolveu reagir ao banho de futebol que estava levando. E ninguém sentiu mais o vexame quanto Almir, que fez o possível para melar a volta olímpica dos rivais. O placar marcava 3-0 para o time de Castor de Andrade quando o flamenguista se meteu em uma discussão e saiu distribuindo sopapos.

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Viu-se então uma perseguição intensa e tumultuada entre os jogadores em campo. O juiz perdeu o controle do evento e expulsou cinco do Fla e quatro do Bangu, encerrando a final com apenas 26 minutos da segunda etapa. Pequeno, Almir foi com toda a sua coragem para cima dos adversários e finalmente conseguiu o que queria.

Fim da linha

Almir com a camisa do América, em 1968. Envelheceu rapidamente com o seu estilo de vida inconsequente. Foto: Veja Rio
Almir com a camisa do América, em 1968. Envelheceu rapidamente com o seu estilo de vida inconsequente. Foto: Veja Rio

O craque ia perdendo a cada dia a batalha contra seus vícios. Encerrou a trajetória profissional em 1968, com a camisa do América, longe do brilho de outrora. O Almir que chegou ao Mecão era um rascunho mal-acabado do jovem que estourou no Vasco dez anos antes. Calvo, acima do peso e com um olhar perdido, o craque se entregou e esperou a morte no mesmo ritmo que estava acostumado: desafiando-a em cada gole e a cada discussão acalorada.

Pouco depois de sua aposentadoria, chocou o mundo do esporte com um livro-entrevista à Revista Placar, chamado “Eu e o Futebol”. Nele, revelou vários episódios polêmicos que de certa forma traçaram e acentuaram a sua personalidade controversa. Pobre e lutando contra o alcoolismo, chegou aos seus últimos dias em 1973, meses depois da publicação do livro.

Estava em um bar na região de Copacabana, quando resolveu defender um grupo teatral que estava sendo ofendido por meia-dúzia de portugueses. Os agressores dirigiam impropérios homofóbicos em direção aos atores, o que incomodou Almir, que saiu para peitar os rapazes. Xinga aqui, xinga ali, o ex-jogador começou uma briga. A pancadaria descambou para um tiroteio em plena Avenida Atlântica e um dos portugueses, Artur Garcia Soares, meteu uma bala na cabeça do problemático pernambucano que encantou e assustou o Brasil com o seu perfil furioso.

Ali morria Almir Albuquerque, o famoso e temido Almir Pernambuquinho. Artur, o autor do crime, alegou legítima defesa, saiu impune e nem sequer foi preso pelo homicídio. Com 35 anos, o atacante que ajudou o Santos a ser bicampeão mundial se tornava mais um cadáver frio nas gavetas do IML. A verdade cruel e irônica ficou exposta: alguém que ficou famoso pelas pancadas e sobretudo pela ira, se viu refém e vítima da violência urbana.

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