O longo campeonato que coroou o primeiro Santos campeão sem Pelé

Foto: Botões para Sempre
Foto: Botões para Sempre

Por Caio Ruscillo e Felipe Portes

Clássico valendo taça. Estádio lotado, torcida presente em massa. Esperança de um novo período de glórias após o fim de uma geração que ganhou o mundo. Garotos da base resolvendo os problemas financeiros do clube. O primeiro Santos campeão sem Pelé indicou uma tendência fortíssima para os anos seguintes: a aposta em jovens, pratas da casa. Essa é a história da primeira leva de ‘Meninos da Vila’.

Quando a temporada de 1978 começou, a situação no Santos não era muito animadora. Sem dinheiro, o clube se viu obrigado a apostar em jovens promessas da base. A sugestão de promover a meninada da base veio de Zito, que atuava como gerente de futebol. Visando cobrir o estrago nos cofres, o presidente Rubens Quintas pretendia inicialmente tornar o Santos em uma agremiação saudável financeiramente. Para isso, era preciso fechar a torneira de gastos. E isso, Quintas fez com primazia.

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O clima de terra arrasada não durou muito tempo na Vila Belmiro, já que os garotos provaram que tinham bola para bater de frente com os profissionais concorrentes no Paulistão. O técnico, Chico Formiga, aceitou o conselho de Zito e promoveu Juary, Pita, João Paulo e Nílton Batata ao elenco principal.

Tudo estranho

Foto: Placar
Foto: Placar

Os tempos no futebol paulista eram diferentes. O Guarani foi campeão brasileiro em 1978, derrubando o Palmeiras na final. A Ponte Preta era muito forte e bateu de frente com o Corinthians na decisão estadual de 1977 e liderou grande parte do Paulistão de 78, vencendo até o segundo turno.

Aquele Paulistão em especial foi muito extenso. Em agosto de 1978, a competição começou a valer no formato de três turnos com grupos e mata-mata, empurrando a verdadeira decisão para junho de 1979. No primeiro, o Corinthians venceu o Santos por 1-0, gol de Palhinha.

A Ponte buscou a conquista do segundo turno contra o Guarani, em jogo atrasado que aconteceu antes da decisão entre São Paulo e Santos. Na prorrogação, empate sem gols para consolidar a vitória da Macaca, que tinha melhor saldo de gols na fase anterior.

Mas o Santos se ajeitou e foi buscar a vaga até a final. Pelo terceiro turno, ficou na vice-liderança do grupo 2 e se classificou com o Palmeiras para as quartas de final, as últimas de um campeonato extremamente cansativo. Depois de 47 jogos, ainda restava o derradeiro mata-mata, e aí os vencedores foram forjados. Da outra chave, vieram Guarani e São Paulo, com o Bugre pegando o Peixe e o Tricolor enfrentando o Verdão nas semifinais.

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Pita estava voando. Levando o número 10 nas costas, o menino de 21 anos mostrou personalidade e competência para guiar o time e criar várias oportunidades de gol. Juary, então, nem se fala. Artilheiro do elenco, aproveitava cada espaço no campo e era perigosíssimo quando partia com a bola. Além de tudo, comemorava de forma curiosa, correndo ao redor da bandeirinha.

Derrubando os favoritos

O Guarani chegava às semifinais credenciado pelos seus ótimos jogadores e pelo título brasileiro conquistado meses antes. Mas no Morumbi, o Peixe detonou o adversário e fez 3-1, com dois gols de Juary e outro de João Paulo. Zenon diminuiu tarde demais para os bugrinos e os santistas avançaram à final. Era uma equipe muito ofensiva e com futebol atrativo, bem como os últimos anos de Pelé.

O jovem esquadrão do Santos tinha como pilar o experiente Clodoaldo, no início. Outro craque da campanha foi Aílton Lira, mas os dois ficaram de fora da fase final por lesões. No gol, o arqueiro Flávio. Na zaga, Joãozinho e Antônio Carlos. Nas laterais, Nelsinho Baptista e Gilberto Sorriso, Zé Carlos, Toninho Vieira e Pita (Rubens Feijão) no meio e Claudinho, Juary e João Paulo no ataque.

Um time fino no trato da bola. A sintonia era tão grande que os cobras podiam se encontrar em campo sem mesmo estar de olhos abertos. Eram ricos e constantes os lances de genialidade, passes de calcanhar, deixadinhas, dribles desconcertantes. Ver aquele Santos devia ser mesmo muito bom, encantador, marcante.

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Para a decisão, equilíbrio em um San-São inesquecível. Em três partidas, Santos e São Paulo mediram força, para a satisfação dos alvinegros praianos. Os jogos foram realizados no Morumbi de 20 a 28 de junho, sempre com mais de 70 mil pessoas. O recorde de público foi no segundo, quando mais de 100 mil estiveram nas bancadas para ver o clássico.

Sem medo de campeões

Juary, um dos craques que vieram da base santista / Foto: Terceiro Tempo
Juary, um dos craques que vieram da base santista / Foto: Terceiro Tempo

O Tricolor de Rubens Minelli vinha com a base do time campeão em 1977. Waldir Peres, Chicão, Darío Pereyra, Zé Sérgio, Edu Bala e Muricy, apenas alguns dos monstros que estiveram em campo nas finais contra o Peixe. O primeiro confronto terminou em 2-1 para o Santos, de virada. Serginho abriu o placar na etapa inicial, mas Juary empatou com um petardo de dentro da área e Pita virou, já no segundo tempo.

Um novo embate aconteceu quatro dias depois, no mesmo local. Desta vez, um empate em 1-1 equilibrou as coisas entre os rivais. Célio fez de forma esquisita o primeiro do Santos. Recebeu passe primoroso de Pita e tocou por cima de Waldir, deu um chute acrobático e a bola bateu na trave, quicou na linha e entrou. Quase mágica. A festa estava pronta até os 44 do segundo tempo, o título pertencia ao Santos, mas Zé Sérgio igualou o marcador para dar sobrevida ao time tricolor.

O São Paulo apostou todas as fichas em uma reação no embate final. Precisando vencer e ainda marcar na prorrogação, o escrete de Minelli exibiu força e paciência para tentar cansar a meninada do Santos. Zé Sérgio fez um gol monumental em um chute de foda da área e abriu o caminho para os tricolores. Neca, de cabeça após uma cobrança de falta, aumentou: o placar ficou preocupante para os santistas. Caso o bombardeio tricolor continuasse, o risco de uma reviravolta no tempo extra poderia ser fatal.

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Mas foi aí que a jovialidade santista fez a diferença. Com mais fôlego e pique, o time de Chico Formiga encarou o São Paulo e quase marcou o gol para liquidar o rival. Juary perdeu uma chance de cara para Waldir Peres, com intervenção incrível do guarda-metas são paulino. A cada contragolpe que ia pela linha de fundo, o camisa 1 tricolor se desesperava para repor a bola em jogo. Na última vez que tentou sair rápido, o árbitro João Leopoldo Ayeta colocou fim no confronto. O Santos era campeão outra vez, com uma nova geração extremamente talentosa.

A sassaricada de Juary nas comemorações se repetiu 29 vezes ao longo do torneio. O matador terminou no topo da artilharia e dividiu os louros do reconhecimento com os colegas. Pita também ganhou muita reputação com a conquista. Foi um desfecho que encheu de esperanças o coração santista, em um torneio extenso que deixaria qualquer crítico de calendário careca de tantas partidas. Na exaustão dos adversários, o Peixe deixou o saudosismo para trás, afim de viver novas alegrias com a sua molecada. A Folha de São Paulo cravou no dia seguinte a manchete:

Foto: Reprodução/Acervo Folha
Foto: Reprodução/Acervo Folha

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