O dia em que até os ateus palmeirenses comemoraram um gol espírita

Foto: Estadão
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Os jornais e suas narrativas cada vez mais engessadas não dão conta de relatar com precisão histórica e sobretudo emocional o que aconteceu no Morumbi no dia 30 de maio de 1998. Às vésperas da Copa do Mundo na França, os olhos do país estavam todos voltados para Ronaldo e a Seleção em busca do Penta. Mas neste meio-tempo, o Palmeiras fez um milagre coerente com o seu perfil no fim dos anos 1990: venceu um título aos 44 minutos do segundo tempo com um gol espírita de Oséas. Roteiro que nenhum ateu ousou questionar.

O Palmeiras nunca havia vencido aquele torneio. Não era uma obsessão como a Libertadores viraria anos depois. Não era uma questão de vida ou morte. Isso, claro, até chegar a decisão. Quando o Verdão eliminou o Santos e o Cruzeiro tirou o Vasco, então campeão brasileiro, uma revanche se desenhava.

Dois anos antes, o Palmeiras mais fascinante da década demolia um a um de seus adversários, até que o Cruzeiro acabou com o sonho do título ao apresentar eficiência e anular os talentos do time de Wanderley Luxemburgo, conhecido como ‘A Máquina Palmeirense’. No Paulistão-96, o desempenho foi de assombrar, com uma campanha irretocável, recheada de goleadas e recordes. O Verdão de Djalminha, Rivaldo, Muller, Luizão e outras feras terminou com 83 pontos, uma mísera derrota e 102 gols marcados, tudo isso em 30 jogos.

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A força do bigode

Foto: Folha
Foto: Folha

Muita coisa mudou de 1996 para 1998. Felipão, menos artista e mais pragmático do que Luxemburgo, assumiu o comando da equipe. Eram tempos de riqueza, já que a Parmalat estava por trás, injetando alta quantia de dinheiro em troca de exposição da sua marca, e claro, resultados. O Palmeiras passou 1997 em branco, perdendo o Brasileirão para o Vasco de Edmundo e Evair. Em 1998, o Paulistão foi decidido entre São Paulo e Corinthians, com vitória do Tricolor, que eliminou os alviverdes na semifinal. No Rio-São Paulo, igual decepção diante os rivais do Morumbi.

Enquanto a barca seguia, Felipão queria aquela taça para chamar de sua. Trouxe Arce e Paulo Nunes do Grêmio, dois titulares incontestáveis e de suma importância para o plano de dominação. Felipão queria mesmo aquele troféu. Ele e toda a massa palmeirense. A cada rodada, o futebol botinudo apresentado ia ganhando terreno. CSA, Ceará, Botafogo, Sport e Santos ficaram pelo caminho. O Palmeiras foi finalista outra vez, contra o Cruzeiro. Ah, o Cruzeiro, entalado na garganta.

Como dizíamos, dois anos antes, a Raposa queimou a fotografia que traria a máquina palmeirense perfilada e vencedora na mesma Copa do Brasil. No primeiro jogo, no Mineirão, empate em 1-1. Mas o encardido Cruzeiro de Levir Culpi armou uma arapuca e rasteirou o Palmeiras dentro de seu alçapão, vencendo por 2-1. Roberto Gaúcho e Marcelo Ramos espetaram os mandantes e fugiram para Belo Horizonte com o troféu. Aquilo ficou como ferro quente na pele dos palmeirenses, que incrédulos, viram a queda de um time imbatível no papel. Só no papel.

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O roteiro para a vingança

Oséas e Gottardo, um duelo particular na finalíssima de 98/Foto: Agliberto Lima/Agência Estado
Oséas e Gottardo, um duelo particular na finalíssima de 98/Foto: Agliberto Lima/Agência Estado

Muita coisa mudou de 1996 para 1998. O Palmeiras largou a sua camisa verde com finas listras brancas para adotar um desenho mais moderno e em dois tons diferentes. As listras continuavam ali, mas contrastavam levemente, num retrato fiel ao que o time se submeteu nas mãos de Felipão. O gaúcho fez o Grêmio campeão da América com muito mais coragem e dureza do que técnica. A fórmula foi repetida no Verdão, com outras peças de elenco.

Velloso, um gigante debaixo das traves. Na zaga, a confiança das muralhas Cléber e Roque Júnior. Neném (Arce serviu a seleção paraguaia na Copa do Mundo e ficou de fora do segundo jogo) e Júnior, o baiano arretado, faziam as laterais: perigo pelas alas. Galeano era o firme volante que permitia a livre atuação de Zinho, Alex e Rogério mais à frente. No ataque, Paulo Nunes e Oséas empurravam a bola para o gol.

O Cruzeiro era campeão da Libertadores em 1997 e levantou o Mineiro contra o Atlético. Levir Culpi voltou ao comando para substituir Paulo Autuori. O time era igualmente sagaz e podia aprontar para cima dos paulistas.

Em Belo Horizonte, o Cruzeiro deu o primeiro tiro: Fábio Júnior marcou o único gol e deixou os mineiros em vantagem. Tudo seria decidido na frieza dos 90 minutos com penalidades. Uma vitória simples do Verdão chamaria pênaltis. Se vencesse por 2-0, seria campeão.

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Quem esteve no Morumbi naquela tarde fria e chuvosa de São Paulo viu que o 30 de maio de 1998 não seria para iniciantes. Só os de coração resistente resistiram às provações de uma final de campeonato. O título virou um desejo louco para os torcedores. Os mais pessimistas (palmeirenses clássicos) temiam a saída do aporte financeiro da Parmalat no ano seguinte em caso de mais uma derrota. De repente, a obrigação de vencer e se classificar para a Libertadores acrescentou ainda mais drama à jornada que se iniciou no meio da tarde e acabou com a lua como plano de fundo.

O clima, para jogadores e torcida em geral era de confiança, marca dos trabalhos mais antigos de Felipão. Eram imponentes as credenciais apresentadas na final: um campeão internacional contra um técnico de arsenal afiado e preparado para decisões, jogos grandes. O Palmeiras podia até ter dominado o Brasil anos antes com Evair e Edmundo, mas a Copa do Brasil ainda permanecia inexplorada pelas mãos palmeirenses. Coube a Scolari e seus cachorros acabarem com a espera.

Briga de cachorro grande

Foto: Gazeta Esportiva
Foto: Gazeta Esportiva

Os cães foram libertados do cativeiro por Sidrack Marinho dos Santos: o Palmeiras entrou para matar. Não faltou garra e entrega nos desarmes, nem nos passes, que dirá nas ofensivas ao gol defendido por Paulo César. Aos 12 minutos, Roque Júnior conduziu a bola até a faixa central e ousou meter um passe longo para a intermediária direita.

Marcado por Gottardo, Oséas foi mais esperto e deixou o experiente zagueiro comendo a grama que voava de suas chuteiras. O camisa 9 então foi ao fundo, entrou na área e cruzou. A bola foi à meia altura e Paulo Nunes a encontrou com o pé direito. O arremate voou para balançar o barbante: gol do Palmeiras.

Com a vantagem logo cedo, os ânimos se acalmaram um pouco. Mas ainda era preciso mais um para evitar o drama e as complicações cardíacas dos pênaltis. Anos se passaram até que o primeiro tempo acabasse e o segundo alcançasse seus momentos derradeiros. O dia caiu e anoiteceu em São Paulo. O Palmeiras não queria dar chance ao azar. Quando o relógio do senhor Sidrack marcava 44 minutos, os acréscimos já pediam passagem no Morumbi. O fim iminente deixou a massa alviverde interligada por uma só frase: mais um gol.

Oséas, 44′

Almir cometeu falta perto da meia-lua, enquanto o Palmeiras desenrolava uma trama interessante com troca de passes rápidos. O goleiro Paulo César se sentiu em um dia de sorte quando o seu travessão foi abalado por um chute de Zinho, minutos antes. Mas quando o capitão palmeirense ajeitou a bola para a cobrança, algo se deslocou no mundo para fazer aquele momento acontecer.

O roteirista daquela noite não queria mais sofrimento além dos 90 minutos. Ele pensou em um desfecho com traços de heroísmo e com uma religiosidade quase infame. Colocou nos pés de Oséas a missão de botar um ponto final naquela história. A saga se arrastou até que a pelota, molhada pela chuva que caía, percorresse o caminho até os braços do pobre Paulo César. A chance da sua vida estava ali. Num rabisco desleixado de destino, o objeto mais desejado em campo escapou sorrateiro e escorregou até o canto, quase saindo para o escanteio.

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Oséas correu em seu último pingo de fôlego, talvez na última arrancada possível. Se atirou com a perna estendida, sem ângulo para uma finalização propícia. A bola subiu, e cretina, achou o alto, balançou a rede do topo e foi estilingada para o fundo do gol. Ninguém ouviu mais nada dali em diante. Todos ficaram surdos em uma catarse, quando o suor uniu-se com a chuva e os pulos ficaram involuntários. Não se saltava mais por conta própria, a vibração do estádio gerou um efeito dominó.

O gol foi sobrenatural, chocante, catalisador e espírita. Católicos, protestantes, Testemunhas de Jeová, evangélicos e ateus palmeirenses perderam o resto de sanidade e lucidez que ainda havia em seus corpos. Graças a Oséas.

Em estado de graça

Foto: Verdão Web
Foto: Verdão Web

O Cruzeiro ainda tentou a reação. Atacou pela direita e foi atrapalhado pela malandragem de Felipão, que atirou uma bola ao campo, tudo para gastar tempo e esfriar o adversário.

A traquinagem deu resultado e enervou os mineiros, que precisavam ter cabeça para buscar um milagre ainda maior. Oséas, por sua vez, deixou o campo e deu lugar ao zagueiro Agnaldo. Puro terror e retranca do Palmeiras, que contava os segundos para ser campeão pela primeira vez na Copa do Brasil. E foi.

Aquilo que aconteceu aos 44 minutos do segundo tempo abriu as portas para o que viria na Copa Mercosul (outra forra em cima do Cruzeiro) e na Copa Libertadores, em 1999, dentro do Parque Antárctica. Tudo possível apenas pelo gol espírita. Aquele gol espírita. O único gol espírita imaginável.

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