Quando Muricy deu um tempo no futebol e virou dono de farmácia

Foto: Placar
O atleta Muricy, nos anos 70, ao lado de seu Chevette / Foto: Placar

Muricy Ramalho estava cansado do futebol profissional. Em 1988, atuava apenas em amistosos, jogos festivos com veteranos do São Paulo, os Milionarios. Três anos antes, o talentoso meia parou de jogar, por problemas físicos, no América do Rio. Construiu uma carreira elogiável por São Paulo e Puebla, do México. Quando pendurou as chuteiras, acabou se ocupando em uma carreira curiosa: a de dono de farmácia.

Não fazia muito tempo que Muricy era querido como jogador do São Paulo na década de 1970. Atuou com craques como Pedro Rocha e Serginho Chulapa, ícones do Tricolor. A trajetória do cabeludo e arisco Muricy era extremamente promissora, mas lesões graves no joelho prejudicaram a sua evolução. Quando sentiu que poderia estourar, acabou preterido e foi vendido para o Puebla, no México, em 1979.

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Tinha três títulos. Era campeão paulista e brasileiro no São Paulo, em 1975 e 77, sendo de vital importância no primeiro. Por causa de seus cabelos longos e da postura de defender os companheiros, foi taxado de rebelde, fama que sempre negou, décadas depois da passagem pelo Morumbi.

O último troféu que Muricy levantou na carreira veio em 1983, com o Puebla, na Liga Mexicana. Depois disso, viveu alguns anos fora do holofote, até retornar ao Brasil para jogar no América, em 1985. Contudo, sofreu novamente com contusões e abandonou o esporte aos 30 anos.

Nesse intervalo, a vida de Muricy sofreu um abalo: a perda do pai, seu Marinho, em 1985. O retorno para defender o Mecão foi considerado um erro pelo próprio atleta, já que ele não conseguiu desempenhar o seu futebol e decidiu colocar um ponto final na sua vida como futebolista.

Foto: SPFC 1935
“O Omeprazol tá ali, na prateleira do canto esquerdo, ao lado do , meu filho” / Foto: SPFC 1935

No fim da década de 1980, quando já estava novamente morando em São Paulo, Muricy pôde cuidar da família e do negócio da vez: uma farmácia, que administrava com o irmão. A Drogaria Estádio ficava próxima ao Morumbi e era uma chance para os torcedores mais velhos terem contato com o ídolo.

Quem se acostumou a vê-lo como balconista ou caçando medicações com um jaleco branco não conseguia projetar que ali estava um ex-atleta, aposentado há pouquíssimo tempo. E que em uma situação dessas a opção por não seguir como técnico devia ser uma aberração. Como podia um jogador se afastar tanto do que construiu na sua principal ocupação?

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Ô, me pega um Dramin aí, meu filho. Tá ali na terceira prateleira, não tá vendo? Tá loco, meu.” “Balconista de farmácia pra mim é assim, tem de saber de cabo a rabo onde tá a medicação, saber aplicar injeção e também marcar o faturamento da loja, né? Dá licença“, frases possíveis para o Professor Muricy enquanto dono de uma drogaria.

A resposta é simples: Muricy estava passando por uma fase de transição. Como Tostão e Sócrates que cursaram e praticaram Medicina, como outros que encontraram em várias profissões diferentes a satisfação para viver a segunda vida, aquela longe dos holofotes, da fama e do dinheiro fácil.

Mas aqui é trabalho, meu filho

Foto: Estadão
Foto: Estadão

Entre caixas e mais caixas, comprimidos e bulas, Muricy viveu sem alarde o seu renascimento, antes de retornar ao futebol como treinador. Voltou ao México e teve o Puebla como seu primeiro emprego no cargo. Não demorou muito tempo e o São Paulo lhe chamou outra vez.

O técnico inicialmente pegou times juvenis e ajudou na formação de jovens talentos, para depois ficar como auxiliar de Telê Santana, por quase dois anos. Quando o Mestre saiu de licença para tratar de sua saúde, Muricy foi quem herdou a bucha. Nada de novo para ele até então, já que eram frequentes as ocasiões em que ele treinava o profissional e o ‘Expressinho’ tricolores na ausência do chefe.

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Os 22 anos de carreira como treinador mostram que apesar do período sabático na Drogaria Estádio, Muricy sabia que teria de continuar vivendo para o esporte. E quem é do São Paulo, do Santos, ou até dos outros times pelos quais o professor foi campeão, acaba tendo de reverenciar um dos grandes nomes da sua geração. Os títulos brasileiros não mentem.

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