O título paranaense que consagrou Sicupira e quebrou o jejum do Atlético

Foto: Gazeta do Povo
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Sicupira pode não ser para o resto do Brasil a lenda que representa para os torcedores do Atlético Paranaense. Mas em 1970, o meia atuou em alto nível e ajudou o Furacão a levantar o Campeonato Paranaense depois de dois títulos do rival Coritiba e uma longa fila de 12 anos.

Para que a história de 1970 fique mais clara, precisamos voltar no tempo, para o fim de 1967. O Atlético fez péssima campanha no Estadual e acabou rebaixado, enquanto vivia uma grave crise financeira. No entanto, quando o advogado Jofre Cabral e Silva assumiu o cargo de presidente, na virada para 1968, as coisas mudaram. O mandatário promoveu uma tentativa de devolver o seu clube à elite, coisa que só foi conseguida graças a uma mudança emergencial na fórmula do Paranaense.

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O aumento no número de clubes de 12 para 14 desencadeou um mini torneio para definir os classificados para a edição de 68. Seis equipes disputaram uma vaga. A outra já era do Atlético, visto que a presença dos rubro-negros na primeira divisão garantia o prestígio da competição. Em outras palavras, uma virada de mesa permitiu que os atleticanos jogassem a primeira divisão em 1968. O momento foi emblemático, já que Jofre aproveitou o momento e rasgou o regulamento do campeonato anterior em público, durante um programa de TV que reunia cartolas paranaenses  e o presidente da federação local, José Milani.

O timaço de Jofre

Djalma Santos e Bellini: bicampeões do mundo no Atlético em 1968/Foto: Tardes de Pacaembu
Djalma Santos e Bellini: bicampeões do mundo no Atlético em 1968/Foto: Tardes de Pacaembu

Jofre não queria só disputar a elite. Trouxe vários nomes para fazer isso com excelência. Entre eles o zagueiro Bellini, ex-Vasco; o lateral Djalma Santos, que vinha do Palmeiras, os meias Zé Roberto e Sicupira, este comprado do Botafogo-SP, além do atacante Nilson Borges, com passagem pelo futebol europeu e pelo Corinthians. Bellini e Djalma conquistaram o bicampeonato mundial com o Brasil em 1962. O time montado causou impacto no futebol paranaense, que não era acostumado com grandes estrelas.

O primeiro campeonato do Atlético com um esquadrão foi memorável, ainda que sem o título e pelas razões erradas. Jofre Cabral sofreu um infarto durante uma partida contra o Paraná de Londrina, em junho de 1968. Morreu antes mesmo de chegar ao hospital. Meses depois, o Coritiba levou o caneco em um clássico emocionante com o Atlético, decidido no último lance. Marcado pelas suas atitudes e pelo fanatismo ao rubro-negro, Jofre deixou um legado e uma frase icônica: “Não deixem nunca morrer o meu Atlético”.

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Veio 1969 e o Coritiba novamente levou o caneco do Paranaense. O Atlético já não vencia o rival desde 1966 pelo Paranaense. O troco demorou a vir, só em 1970, quando o Coxa esfregava as mãos para levar o tri.

O craque da 8

Sicupira em ação contra o Colorado / Foto: Blog do Tutty
Sicupira em ação contra o Colorado / Foto: Blog do Tutty

Barcímio Sicupira Júnior nasceu em 10 de maio de 1944 na cidade de Lapa, no Paraná. Apesar de ter feito testes na base do Coritiba, a carreira do futebolista começou mesmo no Ferroviário de Curitiba. Lá, ele ganhou fama e foi parar no Botafogo, onde foi reserva de Garrincha, Gérson, Jairzinho, Zagallo e o goleiro Manga. Sem espaço como titular e ainda muito novo, foi para o Botafogo de Ribeirão Preto. Chegou como um dos grandes nomes em 1968, quando tinha 24 anos. Jogou pelo Atlético até 1972, quando foi para o Corinthians jogar o Campeonato Brasileiro. Mas voltou no mesmo ano e encerrou com a carreira com a camisa rubro-negra em 1975, somando 158 gols e liderando a lista como maior artilheiro do clube, marca que não foi superada até hoje.

Os cabelos e o bigode faziam Sicupira lembrar fisicamente o craque Rivellino, ídolo do Corinthians e do Fluminense, campeão mundial em 1970 com a Seleção Brasileira. Mas não era só na aparência que o atleticano lembrava o “Patada Atômica”. Habilidoso e exímio finalizador, o meia do Furacão se consolidou como artilheiro e armador de jogadas, um verdadeiro garçom.

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Outra coisa que chama atenção na sua história é a capacidade de fazer gols bonitos e acrobáticos. Na sua estreia, pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão, em 1968, Sicupira fez um de bicicleta contra o São Paulo. A partida aconteceu no estádio Durival de Brito e terminou empatada em 1-1.

O tão esperado título

Foto: Gazeta do Povo
Foto: Gazeta do Povo

Já sem Bellini, que se aposentou ao fim de 1969, o Atlético continuou forte. Naquele momento, o presidente atleticano era Rubens Passerino Moura, que conseguiu recuperar a saúde financeira do clube para a disputa do Estadual de 1970. A gana por um novo título estava consumindo a energia da torcida e dos cartolas. Desde 1958 o Atlético não era campeão paranaense.

As primeiras três partidas foram um balde de água fria nas expectativas. Com derrotas para o União Bandeirante, Londrina e Seleto, o Furacão largou mal e foi buscar em uma goleada contra o Cianorte a motivação para continuar lutando. Um 6-2 no Joaquim Américo despertou o time, que voltou a se apresentar em alto nível. No jogo seguinte, vitória no Atletiba por 1-0, quebrando um jejum de quatro anos no torneio. Zé Leite foi o autor do gol.

O primeiro turno foi desastroso, incluindo uma derrota em casa por 4-1 para o Grêmio Maringá. Mas do segundo em diante, a reação foi visível. Pelo segundo Atletiba, empate em 2-2. No restante, boas e seguras vitórias diante dos adversários, culminando na liderança. A terceira e decisiva fase reunia seis times, os melhores dos grupos, para um último hexagonal que decidiria a taça. Avançaram Atlético, Coritiba, Grêmio Maringá, União Bandeirante, Seleto e Grêmio Oeste.

O Coxa eventualmente acabou se vingando no primeiro turno da terceira fase, vencendo por 1-0 e roubando a liderança do arquirrival. Mas a disputa foi dura e o Atlético tomou de volta o posto  no início do returno, vencendo o Grêmio Oeste por 2-0. Duas rodadas depois, novo Atletiba e empate em 0-0. O Furacão seguia em vantagem na tabela.

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O título veio depois de duas vitórias consecutivas. A primeira, contra o União Bandeirante, por 2-1 e a segunda contra o Seleto, por 4-1, selando a conquista e o fim da fila para os atleticanos, em Paranaguá, no estádio Orlando Mattos. O dia 13 de setembro ficou marcado para sempre na história rubro-negra como o perdão por anos duros de aturar e pela única conquista de Sicupira com a camisa 8. O meia acabou como artilheiro do Paranaense, com 20 gols.

Ali, Barcímio Sicupira Júnior colocava seu nome entre os grandes atletas que passaram pelo Atlético. Mesmo sem vencer outro título até parar de jogar, em 1975, aos 31 anos, ele está lá eternizado como o homem que mais balançou as redes vestindo a camisa atleticana. Se o título de 1970 deixou o meia saudoso, não sabemos, mas aquele também foi o último troféu na carreira do gênio Djalma Santos, que se aposentou em 1972. O lateral morreu em 2013.

O Atlético não aprendeu muito bem a lição e passou mais 12 anos sem renovar a prataria de seu salão nobre. Apenas em 1982 o time voltou a ser campeão paranaense, desta vez com a força da dupla Washington e Assis, com um elenco que também deixou muita saudade, assim como o de 1970.

Um pensamento em “O título paranaense que consagrou Sicupira e quebrou o jejum do Atlético”

  1. Mais um ótimo texto. Vale lembrar que em 82, o craque do time foi o atacante Joel, que acabou não vingando como se esperava. E o Sicupira é até hoje um dos craques da crônica esportiva paranaense.

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