Quando o Botafogo venceu o Flamengo e o medo no Maracanã

Foto: Fala, Glorioso
Foto: Fala, Glorioso

Por 21 anos o Botafogo esperou a hora para ser campeão novamente. Desde os tempos de Jairzinho, Paulo César Caju e Gérson o Alvinegro não sabia o que era chegar lá. Duas décadas se passaram, times lamentáveis vieram, mas em 1989, a agonia se encerrou contra o Grande Flamengo de Zico, no Maracanã. Do jeito que o povo gosta.

Esperar é mesmo uma porcaria. Quando se trata de futebol, então, pior ainda. Passamos uma vida esperando aquele título vir, para então soltar toda espécie de grito preso lá dentro do peito, alguns até guturais, dependendo do tempo que se passou. E a grande coisa que há no esporte é essa libertação, essa redenção de todos os males quando o juiz apita e o seu time termina como vencedor em uma final.

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Quem sente uma alegria dessa fica viciado. Todo ano é preciso estar lá, disputando ponto a ponto. No entanto, não são todos os clubes que conseguem ser competitivos com frequência. O Botafogo provou disso ao longo dos anos 1970 e 80. De 1968 até 1989 se passaram 20 anos e alguns meses.

A verdade é que o Botafogo se preparou bem para a tarefa de encarar o Carioca como a grande chance de resgatar a sua grandeza. Contratou bem e tirou do Bangu o zagueiro Mauro Galvão e o atacante Paulinho Criciúma. Pode até ser que o título fosse um sonho distante, mas o investimento do presidente Emil Pinheiro foi de alguém que queria chegar longe.

Por uma série de fatores, o Botafogo foi longe, de fato. Seja pela raiva de não aturar mais campeonatos frustrantes ou pelo talento e união do elenco formado em 1989. Tanto na Taça Guanabara quando na Taça Rio, o Glorioso foi muito bem. Perdeu a primeira (disputada em turno) só por um ponto para o Flamengo de Zico e venceu a segunda, sem sofrer uma só derrota em 22 confrontos.

Quando veio a final, contra o mesmo Flamengo que vencera a Taça Guanabara, o Maracanã pulsou à espera de um jogo épico. E ele aconteceu, mas com um desfecho um pouco diferente do que o óbvio, que seria Zico levantando taças aos sorrisos com seus colegas.

Foram dois jogos até que o campeão fosse conhecido pelo grande público. Apesar de não estar em lotação máxima, o estádio teve bom número de torcedores nos duelos. Em 21 de junho de 1989, a consagração botafoguense veio com um gostinho especial. Na ida, um 0-0 frustrante. Foi o último momento em que a palavra ‘frustração’ se encaixou nesta epopeia da turma de General Severiano.

Separando homens de meninos

Foto: Fala, Glorioso
Foto: Fala, Glorioso

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Chegou a hora e o Botafogo sabia o que fazer. O time não perdeu nenhuma nas fases anteriores entrou com valentia e dominando as ações, encurralando o temido Flamengo. Motivado pela chance de sair do buraco, o time alvinegro treinado por Valdir Espinosa cresceu. Os heróis daquele dia foram: Ricardo Cruz, Josimar, Wilson Gottardo, Mauro Galvão e Marquinhos; Carlos Alberto Santos, Luisinho e Vítor; Maurício, Paulinho Criciúma e Gustavo (Mazolinha).

O primeiro sinal de que havia algo diferente foi a lesão de Zico. O meia saiu para dar lugar a Marquinhos e o Fla perdeu uma grande referência em campo. Do outro lado, empenho, garra e suor, mas acima de tudo, muita atenção. Afinal, era um gigante lutando por um único gol que poderia selar o destino. A cada defesa de Ricardo Cruz, o coração alvinegro palpitava, quase que saindo pela boca. Seriam capazes de resistir à pressão?

Foto: O Globo
Zico, pouco antes de sentir a lesão que o tirou do clássico / Foto: O Globo

Num lance definido no detalhe, o reserva Mazolinha armou o lance capital da noite: aos 12 minutos da segunda etapa, ele correu pela esquerda e cruzou para o meio da área. Maurício vinha de trás e deslocou o lateral Leonardo com um toque pelas costas. Fora da disputa, o flamenguista só pôde sentir a bola passando até a rede de Zé Carlos. Outra vez um camisa 7 botafoguense brilhou para a alegria da torcida. Uma voadora na bola acertou o cantinho da meta flamenguista.

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Mas o medo, unido àquela sensação de incapacidade, ainda estava ali. Agarrado a cada camisa alvinegra que contava ansiosa quanto tempo restava no relógio do juiz. O gol de Maurício saiu com 12 da segunda etapa, deixando mais meia hora e descontos para que os do Botafogo roessem as unhas de nervosismo, tensão, pavor de que aquela vitória tão bonita lhes fosse arrancada.

A cada minuto que passava, a vantagem animava. E o medo dos 21 anos de solidão se tornarem 22 latejava na cabeça, no peito, nas mãos trêmulas. Conforme a areia do tempo se esgotava na ampola rubro-negra, o sonho do rival ganhava cor. Maurício driblou dois na ponta direita e cruzou, Paulinho Criciúma meteu a cabeça e acertou o travessão. Não é possível, esse jogo não morre. Só 1 a 0?

Foto: Acervo O Globo
Foto: Acervo O Globo

30, 35, 40, 45 minutos, mais acréscimos. Muito botafoguense envelheceu três ou quatro décadas no aguardo daquele maldito gesto do apitador. E ele chegou. Assim que trilhou o apito de Válter Senra, a massa da Estrela Solitária correu para o abraço e fez do Maracanã o palco de suas lágrimas. Pelo menos naquele dia, quem chorou pelo Botafogo, chorou de felicidade e realização. Um dia marcante para o torcedor e para o esporte.

Diz o sábio que tabus foram feitos para serem quebrados. E no Almanaque dos destruidores de filas está o Botafogo de 1989, de Maurício, autor da grande voadora que permitiu o doce sabor da noite carioca ao alvinegro em 21 de junho daquele ano. Qualquer vídeo que retrate esta final exprime a tensão do Glorioso em sua totalidade. A tensão dos que rezaram, pediram aos céus ou até fecharam os olhos por temer o perigo, todos foram redimidos no pé de Maurício e no balançar da rede de Zé Carlos.

Heróis foram forjados. Uma lembrança foi construída com concreto na cabeça dos alvinegros que puderam presenciar ou ver de alguma forma a história se desenrolar. Ali estava escrita e completa a história de um campeão invicto que venceu um rival com um pé na fantasia e outro no medo.

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