Como o “Disque Marcelinho” ajudou o Corinthians a ser campeão mundial

Foto: Estadão
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O ano era 1998. O Corinthians estava prestes a atingir seu ápice na década de 1990, montando um dos esquadrões mais vitoriosos de sua história. Com a ajuda da Federação Paulista, o Timão conseguiu repatriar Marcelinho Carioca, que estava desprestigiado no Valencia. A transferência curiosa alavancou a equipe alvinegra ao bicampeonato brasileiro e ao Mundial de Clubes em 2000.

As coisas não foram tão boas para Marcelinho no Valencia. O meia não se adaptou ao futebol espanhol e depois de menos de um ano, voltou ao Brasil. Até aquele momento, o ‘Pé de anjo’ havia conquistado três títulos no time de Parque São Jorge: os Paulistões de 1995 e 97 e a Copa do Brasil em 95.

O futebol brasileiro era novamente um lugar atraente para seus ídolos. Tanto é que Romário voltou da Europa como o melhor do mundo para jogar no Flamengo, em 1995. A algazarra teria sido completa se Edmundo não tivesse saído do Vasco para jogar na Fiorentina, depois de um 1997 brilhante como artilheiro e campeão do Brasileirão.

A interferência da Federação

Foto: O Povo
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Marcelinho não caiu nas graças da torcida valenciana, mas certamente era querido pelos corintianos. Suas cobranças de falta e atuações decisivas deixaram saudade em cada coração da Fiel. Foi aí que a Federação Paulista presidida por Eduardo José Farah resolveu montar o esquema do ‘Disque Marcelinho’, de 14 a 25 de janeiro de 1998, que envolvia uma votação por telefone e ampla divulgação na imprensa, pela TV Bandeirantes.

A FPF fez barulho semelhante ao comprar o passe do centroavante Evair, em janeiro de 1998. No ano anterior, o camisa 9 esteve na campanha vitoriosa do Vasco no Brasileirão. Contudo, a intenção dos cartolas era ceder o atacante a clubes menores como Portuguesa ou Guarani. O Bugre passou perto de ter Evair novamente, mas foi a Lusa que levou a melhor.

Marcelinho era mais midiático. Em campanha, a Federação deixou o torcedor escolher para onde o meia iria. Quer dizer, pelo menos fingiu que deixaria. O Corinthians saltou rapidamente à liderança da votação e ficou muito perto de recuperar o seu ídolo. Foram onze dias de batalha até que o Timão levasse a melhor com 62,5% dos votos computados.

O dinheiro que nunca apareceu

Havia um pequeno problema nessa história. Os cartolas da FPF contavam com o sucesso absoluto da empreitada para arrecadar 15 milhões de reais. Foram investidos 7 milhões na compra de Marcelinho junto ao Valencia. A expectativa de lucro, na metade de janeiro, passou a ser de apenas 30% do valor arrecadado por todas as partes. A Band, que cuidava da divulgação, ficaria com 20% e a Sercom, que fornecia a estrutura para o sistema do 0800 que recebeu as ligações, com 10%. A promoção previa também o sorteio de cinco carros da Audi avaliados em 300 mil reais cada.

Para piorar a nebulosidade do esquema, o Corinthians venceu de lavada. O que em si não representou nenhuma mentira, visto os alvinegros desde o início ligaram em peso para pedir o craque no Parque São Jorge. O que configurou uma fraude nessa história foi uma falsificação das parciais, que indicavam mais equilíbrio entre Timão, São Paulo e Santos, os principais concorrentes. A mentira é facilmente explicada: se o torcedor achasse que havia disputa, continuaria telefonando para tentar mudar o resultado. Já na primeira semana o Corinthians disparou e levou. Dali em diante, a estratégia foi apenas alcançar as três milhões de ligações planejadas. Mas isso nunca aconteceu.

O faturamento bruto da campanha, segundo a Folha, foi de apenas 1,5 milhão de reais. FPF, Band e Sercom perderam a chance de ganhar dinheiro na ocasião. Mas alguém se beneficiou dessa história mesmo sem ter movido um dedo: o Corinthians.

A superação

Foto: UOL
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Nas semifinais do Paulistão de 1998, o Corinthians passou pela Portuguesa de Evair, em jogo polêmico. Muito se discutiu na época sobre a péssima arbitragem de Javier Castrilli, mas em programa de mesa redonda na noite daquele domingo, o próprio Evair reconheceu que um dos gols da Lusa foram mal marcados, já que ele estava impedido no começo da jogada. A arbitragem do argentino foi uma grande lambança, mas para os dois lados, ao contrário do que se diz sobre ‘roubo para o Corinthians’.

Na decisão estadual, o São Paulo acabou ficando com o título: Raí, outro craque que voltava ao Brasil, foi escalado a tempo de jogar a segunda partida, no Morumbi. E fez toda a diferença, já que  o Tricolor reverteu a desvantagem no agregado e ficou com a taça. 

A superação corintiana aconteceu no Campeonato Brasileiro. O time de Vanderlei Luxemburgo fez grande campanha na primeira fase e terminou na liderança. Valendo pela fase de mata-mata, o Timão eliminou Grêmio e Santos antes de bater o Cruzeiro na decisão. Era o segundo título brasileiro desde 1990. Marcelinho foi o craque do torneio e vice-artilheiro, com dois gols a menos do que Viola, do Santos. 

A coroação como bicampeão

Foto: UOL
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Quem pensava que 1999 era um ano inteiramente palmeirense, se enganou. Outra vez o Corinthians chegou com força e varreu o país. Venceu o Paulistão em duelos duros com o Verdão e depois renovou o título do Brasileiro, com igual imponência sobre os demais.

No nacional, a equipe sobrou. Voando em campo, o Corinthians liderou a fase inicial, bateu Guarani, São Paulo e Atlético Mineiro nos jogos eliminatórios até a taça. O Galo não facilitou e lutou até o fim, mas não conseguiu fazer gols na última partida, jogada no Morumbi.

Marcelinho também teve muito destaque naquela campanha ao servir a dupla de ataque formada por Edílson e Luizão. Só o meia anotou 15 gols. Luizão, melhor marcador do time de Oswaldo de Oliveira na competição, deixou 21, mas ficou longe do artilheiro Guilherme, do Galo, com 28.

O Mundial no Maracanã

Foto: Folha
Foto: Folha

A saga de Marcelinho como grande craque alvinegro continuou no Mundial de 2000, quando no início do ano, o Coringão levantou um esquadrão para levar a taça no Maracanã, contra o Vasco.

Ainda se discute a participação do Corinthians na competição, já que os convites da Fifa foram feitos para os dois representantes sul-americanos de 1998, não de 1999, temporada anterior ao Mundial.

Independente da polêmica, Corinthians e Vasco foram os representantes brasileiros no Mundial. O Timão foi como anfitrião e os vascaínos como campeões da Libertadores de 1998. A dupla acabou fazendo a final, surpreendendo a quem esperava que os gigantes Real Madrid e Manchester United (campeões europeus de 1998 e 99) ficassem com o troféu.

No Maracanã, um empate equilibrado em 0-0 provocou penalidades. Era um duelo entre dois times recheados de estrelas. Oswaldo lançou a seguinte formação em campo: Dida, Fábio Luciano, Adílson, Kléber, Índio, Rincón, Vampeta, Marcelinho, Ricardinho, Luizão e Edílson. Fernando Baiano, Edu e Gilmar Fubá entraram ao longo da segunda etapa e da prorrogação. O Vasco de Antônio Lopes foi com: Hélton, Odvan, Mauro Galvão, Felipe, Gilberto, Amaral, Paulo Miranda, Juninho Pernambucano, Ramón, Romário e Edmundo. Donizete, Viola e Alex Oliveira foram os substitutos que entraram durante a partida.

Marcelinho poderia ter sido o vilão do dia 14 de janeiro de 2000, exatos dois anos depois de ser o protagonista de uma trama confusa que permitiu a sua volta ao Corinthians. O Disque Marcelinho acarretou uma série de conquistas para o Timão que quase foi encerrada em um pênalti perdido, o último dos cinco que os paulistas bateram naquela tarde. Só que Edmundo chutou mal e deu de bandeja a taça aos corintianos, que 12 anos depois repetiram o feito ao derrotar o Chelsea no Japão.

Marcelinho saiu em 2001, brigado com o clube e com Ricardinho, para jogar no Santos. Foi o fim dos seus anos no topo, coincidindo também com um declínio corintiano no início da década. O meia ainda defendeu o clube em 2006 e 2010, mais como homenagem aos seus feitos do que exatamente uma contratação de um jogador importante e capaz de desequilibrar. Fica, no entanto, o reconhecimento do craque que ganhou quase tudo que disputou em sua segunda passagem.

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