Se a feiúra pesasse para um jogador, Stiles seria o melhor do mundo

Foto: Allsport Hulton/Archive
Foto: Allsport Hulton/Archive

Toda criança passa por um período de provações até o dia em que aprende a lidar com a ironia alheia. Em algum momento da vida, essa criança vai perder os dentes da frente (pode ser que não ao mesmo tempo) e virar chacota entre os coleguinhas de escola ou de bairro. O volante inglês Nobby Stiles passou sua carreira inteira jogando sem os dentes da frente e usou isso a seu favor para intimidar adversários. Certamente uma vitória dos desacreditados.

Norbert Peter Stiles nasceu em 18 de maio de 1942 em Collyhurst, na cidade de Manchester, na Inglaterra. Passou a melhor fase de sua trajetória profissional jogando pelo United, seu clube de coração. Ganhou notoriedade depois de participar da Copa do Mundo de 1966, vencida pelos ingleses, e comemorar segurando a taça em uma mão e a dentadura na outra.

Parece inconcebível ter um volante baixinho que imponha respeito aos adversários e, ao mesmo tempo, tenha excelente saída de bola e dureza nas divididas. Pois Nobby Stiles ficou famoso por essas qualidades quase que excludentes e pela sua dentadura móvel, marca de um homem que pouco se importou em sorrir sem os quatro dentes da frente.

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Ícone do Manchester United nos anos 1970, foi um dos principais jogadores da Inglaterra na campanha do título da Copa em 1966. Venceu duas vezes o campeonato inglês e uma vez a Copa dos Campeões Europeus, feitos mais do que suficientes para consolidar sua reputação como jogador internacional.

Stiles, Best e Charlton: Nobby só usava a dentadura para posar para fotos. Foto: Wales Online
Stiles, Best e Charlton: Nobby só usava a dentadura para posar para fotos. Foto: Wales Online

Jogou por dez anos no United (de 1960 a 71), disputou duas Copas (1966 e 70) e participou de um dos períodos mais gloriosos da seleção inglesa, que esteve competitiva como nunca. Depois da era em Old Trafford, saiu para defender o Middlesbrough de 1971 a 73 e encerrou sua carreira no Preston North End, em 1975.

Muito além do banguela

Foto: Evening News
Stiles ergue orgulhoso a taça europeia em 1968 / Foto: Evening News

Verdade seja dita: não estamos falando de um ás da volância, de um craque de classe mundial ou de um futebolista extremamente talentoso. Stiles serviu para ser volante e cão de guarda em tempos duros, pois era um atleta que jogava de forma ríspida.

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Como não tinha cara, jeito e muito menos modos de um cavalheiro, aproveitou  para sentar a bota em quem tentasse humilhá-lo. E em 15 anos, não foram poucos os que saíram de campo reclamando de sua chegada. Enquanto George Best, Bobby Charlton e outros craques se notabilizavam por deixar o jogo mais belo, Stiles era o cara que fazia o serviço sujo, pois alguém haveria de fazê-lo de todo modo.

A fama não mexeu em nada com a vida de Nobby. Nem se quisesse teria sido um mulherengo ou um conquistador, já que a genética não lhe foi nada favorável. Sua imagem lembra mais a de um contador, gerente bancário ou oficial do governo que propriamente a de um boleiro. Mesmo sem nada bonito para oferecer, Nobby encontrou uma qualidade que seria sua marca registrada: a perseverança. Para ele não existia chance ou bola perdida.

Contudo, como estamos falando de um esporte coletivo e não de um concurso de beleza subjetivo e cruel, Stiles teve seu espaço. Precisou ser mais bruto do que o normal em algumas ocasiões, só para impor respeito. Ele aprendeu essa lição muito cedo. No começo da carreira, levou uma cotovelada na boca que arrancou seus dentes da frente. Daquele ponto em diante, adotou dentaduras, mas se sentia muito mais confortável e autêntico sem elas. Afinal, que outro campeão do mundo exibiria com tanto desembaraço tão poucos diante das câmeras?

A dureza e o jogo rústico de Nobby viraram um clássico na Inglaterra. O camisa 4 do United se acostumou a avacalhar com a festa alheia, neutralizar os mais talentosos criadores de jogada e ser o fim da linha para dribles e ofensivas com estilo. Tudo que chegava diante de Norbert era destruído, era um trator de 1.68m, com valentia muito maior do que a sua estatura poderia sugerir.

A taça é sua também, banguela! Foto: Daily Mail
A taça é sua também, banguela! Foto: Daily Mail

Uma das maiores provas de sua capacidade de neutralizar um jogador fora de série foi a partida semifinal da Copa de 1966, quando colocou Eusébio no bolso. A Inglaterra eliminou a melhor seleção portuguesa que o mundo já viu e conquistou o direito de disputar a final do Mundial diante de sua torcida, em Wembley. O final, bem, foi polêmico, mas o que consta é que os ingleses foram campeões e isso é o que importa no fim.

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Stiles ainda teve outro duelo crucial com Eusébio, na final da Copa dos Campeões Europeus em 1968: o United venceu por 4-1 e derrubou o grande Benfica do Pantera Negra.

Foto: Express
Foto: Express

Para o técnico Alf Ramsey, comandante da Inglaterra em 1966, o perfil de Stiles era o de um cachorro bravo. Com a ordem certa, ele avançava com raiva em direção aos adversários. Se engana, no entanto, quem pensa que Nobby encerrou a carreira com fama de açougueiro ou de colecionador de ossos. Não há nenhum relato de jogador que tenha sido quebrado por ele.

A reputação que ficou é a de cara valente e peça-chave da Inglaterra e do Manchester United dos anos 1960. Stiles é mais lembrado pela sua dentadura falsa do que pelo que fez em campo. Não que importe para ele, um legítimo campeão do mundo e da Europa. E aí, vai encarar?

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