Quando a Guerra das Malvinas forçou Ardiles a jogar pelo Paris Saint-Germain

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Ardiles posa com Georges Peyroche e o meia Safet Susic / Foto: Pinterest

Craque argentino e lenda do Tottenham, o meia Osvaldo Ardiles precisou passar uma temporada fora de Londres para se preservar. Depois de quatro anos nos Spurs, a Guerra das Malvinas forçou o armador a assinar com o Paris Saint-Germain em nome da sua segurança.

Atuar na França no início da década de 1980 representava muito pouco prestígio em relação a hoje, quando o PSG monta seu elenco baseado em estrelas do mundo. Atrair um craque como Ardiles, que vivia grande fase pelo Tottenham podia ser uma manobra ousada dos dirigentes de um dos maiores clubes do país. Mas a verdade é que o período de Ossie em Paris foi apenas uma forma de refúgio.

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Antes disso ele tinha sido um dos principais atores do título mundial da Argentina em 1978. Ao lado de Mario Kempes, ajudou o time treinado por Cesar Menotti a alcançar o topo contra a Holanda. O ótimo desempenho do meia colocou os ingleses do Tottenham na sua cola e poucos meses após a consagração no Monumental de Núñez, o atleta do Huracán tomou os rumos de Londres.

Foto: John Varley / Offside.
Foto: John Varley / Offside.

Poucos estrangeiros davam certo na Inglaterra naqueles tempos. Apenas britânicos e europeus vingavam nos principais clubes. Coube a Ardiles e Ricardo Villa (que estava no Racing e foi para o Tottenham junto com o Ossie) mudarem o panorama. É verdade que os Spurs não contavam com o poder de fogo necessário para vencer a Liga, mas em Copas, a dupla argentina foi crucial para o sucesso em duas edições.

Com dois títulos da Copa da Inglaterra, em 1981 e 82, Ardiles e Villa colocaram seus nomes na história do clube de White Hart Lane. Em 1981, aliás, o golaço de Villa na final contra o Manchester City marcou época. Quando a temporada 1981-82 se encerrou, a Guerra das Malvinas já ganhava grandes proporções.

A síntese e as implicações históricas da guerra

Britânicos e argentinos se confrontaram pela soberania do território das Ilhas Malvinas (Ou Falklands, para os ingleses), que desde 1833 pertenciam ao Reino Unido. O que o governo argentino fez foi reclamar sua autoridade sobre as Ilhas, causando assim um conflito armado que durou de abril a junho de 1982, com vitória do exército britânico. Do lado argentino, 649 soldados morreram, 1068 ficaram feridos e mais de onze mil foram aprisionados. Os britânicos saíram de combate com apenas 255 baixas, 777 feridos e 115 feitos de prisioneiros.

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Terminada a guerra, o governo argentino regido por militares acabou perdendo força e deu espaço a uma abertura para a democracia. Raúl Alfonsin, um civil, liderou o país depois da ditadura. Partir para a briga com os britânicos em 1982 foi uma forma que os militares encontraram para despertar o sentimento de nacionalismo em cada argentino, tentativa que caiu por terra com as mais de 600 baixas nas trincheiras.

Por outro lado, o partido de Margaret Thatcher devia muito aos combatentes que venceram nas Malvinas: graças ao triunfo bélico, a ‘Dama de Ferro’ conseguiu ganhar as eleições de 1983, recuperando a moral que havia perdido em anos anteriores. Thatcher ficou até 1990 no cargo de primeira-ministra e criou medidas impopulares para o povo inglês como a “poll tax”, política que fazia com que as classes inferiores recolhessem mais impostos do que os mais ricos, em proporção.

Margaret também é odiada pelo público do futebol por ter responsabilizado exclusivamente os hooligans pela Tragédia de Hillsborough em 1989, evento que causou 96 mortes durante uma partida entre Liverpool e Nottingham Forest. Várias vítimas morreram pisoteadas ou asfixiadas por superlotação do estádio que recebia o duelo. Relatórios posteriores comprovaram negligência policial e não ação criminosa de torcedores como a razão do incidente.

A volta para Londres

Foto: Pinterest
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A Copa do Mundo de 1982, na Espanha, não foi tão boa para Ardiles. A Argentina caiu no triangular semifinal com uma derrota para o Brasil. Um mês após o encerramento da guerra armada nas Malvinas, o meia precisava retornar à Inglaterra.

Como tinha pedido para sair antes e se juntar ao elenco que disputou a Copa, não esteve na decisão contra o Queens Park Rangers, ao fim de maio, em Wembley. O Tottenham empatou a primeira em 1-1 e venceu o replay por 1-0, gol de Glenn Hoddle. Mesmo sem ser convocado para o Mundial, Villa preferiu não atuar em virtude da tensão envolvendo o seu país.

Ardiles perdeu um primo na guerra e viu complicações para a sua volta ao clube. Chegou a abandonar o Tottenham por medo de hostilidade por parte dos ingleses para com os argentinos. Como solução temporária, pintou a chance de defender o Paris Saint-Germain, que se interessou em abrigá-lo na temporada 1982-83.

Foto: Canal Historique
Foto: Canal Historique

Ardiles não teve tantos companheiros à altura para uma temporada de grande sucesso. Mas mesmo assim, o PSG foi longe. Ao lado de Luis Fernandez, Dominique Rocheteau e o bósnio Safet Susic, o time parisiense chegou em terceiro no Francês e levou o bicampeonato na Copa da França.

Pela Liga Francesa, o Nantes do artilheiro Vahid Halilhodzic arrancou na frente e terminou com 10 pontos de vantagem sobre o segundo colocado, o Bordeaux de Alain Giresse.

Na Europa, o PSG caminhava bem na Recopa Uefa, mas foi eliminado pelo belga Waterschei, com uma incrível virada no agregado, pelas quartas de final. Em casa, os adversários fizeram 3-0 e reverteram o 2-0 sofrido no Parc des Princes na ida. Naquela edição, o Aberdeen de Alex Ferguson surpreendeu o continente e venceu o Real Madrid na final.

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Ardiles eventualmente conseguiu voltar para o Tottenham e viveu o resto da sua boa fase em White Hart Lane. Esteve no elenco vencedor da Copa Uefa em 1984, como reserva na segunda partida da decisão contra o Anderlecht. Saiu só em 1988 para o Blackburn e ainda atuou pelo Queens Park Rangers, Fort Lauderdale Strikers e Swindon Town antes de se aposentar em 1991.

Qualquer torcedor do Tottenham que se preze tem em Ardiles um monumento de tempos felizes. Ao lado de Hoddle e Villa, o argentino ganhou seu lugar no coração dos Spurs, mesmo como um ‘inimigo da pátria’ durante a Guerra das Malvinas. Abaixo, uma síntese em vídeo do que o pequeno era capaz de fazer.

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