Por que Owen foi o melhor jogador jovem que a Inglaterra já teve

Foto: Metro.co.uk
Foto: Metro.co.uk

Michael Owen tinha tudo para ser o grande atacante da sua geração na Inglaterra. Com a camisa do Liverpool, o pequeno atacante viveu seus melhores momentos da carreira antes de sofrer com lesões que prejudicaram o  seu desempenho. Desde muito jovem ele causava assombro nas categorias de base, mas o que poucos sabiam era que o ídolo dos Reds cresceu torcendo para o rival Everton.

Assim como Ian Rush, goleador de um período dourado do Liverpool, Owen era dos Toffees quando criança. E em outra similaridade com o galês, acumulou vários gols e recordes na base. Aos dez anos, pelo colégio primário de Deeside Area, Owen conseguiu a marca incrível de 97 gols em uma única temporada. Rush, que cursou a mesma escola duas décadas antes, havia feito 72.

A cada ano que passava, Owen deixava todos de queixo caído. Mais novo que os colegas, se portava como se tivesse 11 anos ao invés de oito. Tanto é que frequentou a categoria sub-11 por três temporadas, desde que conseguiu liberação para atuar com os mais velhos. Encarar adversários mais experientes, fortes ou maiores nunca foi um problema para Michael, que se revelou um prodígio.

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Os professores viram que Owen era imparável. Pelo Mold Alexandra e na Hawarden High School, o talento do menino ficou evidente. Ele colocava os adversários no bolso, pertencia a uma classe diferente dos demais. Destoando desta maneira, continuou marcando seus gols, afinal, havia nascido para fazê-los.

A chegada ao Liverpool

Foto: Guardian
Foto: Guardian

Observado por Steve Heighway, ex-atacante dos Reds e responsável pelo setor de desenvolvimento da base, o menino foi disputado por Chelsea, Arsenal e Manchester United antes mesmo de fazer 13 anos, mas uma carta escrita por Heighway à família de Michael resolveu a questão: o Liverpool seria o seu destino. O pai de Owen, aliás, relata que o encanto pelo seu filho aconteceu logo no primeiro jogo que o garoto fez na presença de Heighway nas bancadas.

Michael alternava aparições pelos times escolares de Lilleshaw e pelo juvenil do Liverpool. Aos 15, ganhou oportunidades pelas seleções infantis da Inglaterra. Se dividia entre os fatigantes jogos e os estudos. Quando completou o segundo grau, se decidiu que seria jogador. E com a camisa do Liverpool, o rival que aprendeu a odiar quando criança.

O estrago na Copa Juvenil da Inglaterra

Foto: David Rawcliffe/Propaganda)
Foto: David Rawcliffe/Propaganda

Enquanto os adversários de 18 anos brigavam por vagas e chances no profissional, o menino de 16 anos passeava e jogava como se fosse tudo apenas uma brincadeira. Quando levava a sério, podia causar estrago. Como na semifinal da Copa Juvenil da Inglaterra em 1995-96, contra o Crystal Palace. Depois de marcar três gols na partida de ida, o goleador fez mais dois no jogo de volta, que terminou em 7-5. O Palace chegou a estar com 3-0 de vantagem na segunda etapa. Acabou 4-2 para os Reds.

O Liverpool foi até a final e bateu o West Ham de Frank Lampard e Rio Ferdinand por 2-0 e 2-1, sem dar chances aos Hammers. Michael precisou perder o primeiro confronto porque estava em excursão com a Inglaterra. Atuou no último e fez um gol, sendo aclamado como grande jogador da competição, marcando 11 vezes em cinco aparições. Aquele também foi o fim melancólico da sequência de 24 jogos sem perder do West Ham.

Lampard e Ferdinand antes da final da Copa Juvenil / Foto: The Wild Bunch
Lampard e Ferdinand antes da final da Copa Juvenil pelo West Ham / Foto: The Wild Bunch

Já na temporada 1996-97, esperava-se que o novato pudesse estrear na equipe titular. Prestes a completar 17 anos, assinou contrato com os Reds. Em breve, seria um dos principais atletas da equipe. Fez de fato a sua estreia em maio de 1997, já colocado como o melhor de sua idade no país. A primeira atuação e o primeiro gol vieram contra o Wimbledon, em Selhurst Park.

Ao entrar no lugar do tcheco Patrik Berger, na etapa complementar, Owen também ingressava e pedia passagem para fazer história. Marcou minutos depois, o “novo Ian Rush” recebeu uma bola perfeita na área, abriu espaço e puxou para finalizar. O arremate foi no canto inferior da meta. Mas o Liverpool perdeu por 2-1 e acabou se distanciando do título inglês, que ficou mais uma vez com o Manchester United, pela quarta vez em cinco anos.

Uma geração promissora

Logo, os meninos que faziam parte dos quadros juvenis ganharam chances como profissionais na elite inglesa. Na época, o jovem Robbie Fowler também impressionava em seus primeiros anos no Liverpool. Como Fowler perdeu o lugar por estar lesionado, Owen foi catapultado aos 11 iniciais do técnico Roy Evans. E para enfatizar a crença de que se tratava de um fenômeno, Michael anotou 18 gols na Liga, sendo o artilheiro da competição. Na tabela, os Reds terminaram em terceiro. O Arsenal foi o campeão.

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A grande temporada de estreia também fez Owen ser popular com o comandante da seleção principal, Glenn Hoddle. Os gols saíam com tanta facilidade que em fevereiro de 1998, meses antes da Copa do Mundo, ele estreou com a camisa da Inglaterra. Aos 18 anos e 59 dias, era o mais novo daquele século a ganhar uma convocação pela equipe nacional. Estar no Mundial já não seria nenhuma surpresa.

Foto: Daily Mail
Foto: Daily Mail

Com a camisa 20, Owen já era um queridinho da nação quando participou como substituto das duas primeiras partidas da Inglaterra na Copa da França. Marcou contra a Romênia (em derrota por 2-1) e bateu outro recorde: era o inglês mais novo a marcar em um Mundial. Como deu resultado a sua participação, foi titular no embate que fechou o grupo G, contra a Colômbia.

A Argentina passou por momentos de sufoco com o atacante. Nas oitavas de final, Batistuta abriu o placar aos seis minutos e deu esperanças ao seu povo. Contudo, a Inglaterra empatou com Alan Shearer e virou com Owen, em um gol épico, um dos mais bonitos daquela Copa. (Nada vai superar o de Bergkamp nas quartas contra a mesma Argentina)

Um passe de David Beckham ainda do campo de defesa foi a chave para uma jogada memorável: Owen dominou com velocidade e partiu correndo em direção à área. Quase foi desarmado, mas puxou para a direita e ganhou espaço até finalizar no canto superior de Carlos Roa. Um chute com classe, quase no limite do erro. O sonho só não foi melhor para Michael porque Beckham acabou expulso e desfalcou a equipe de Hoddle. A Argentina empatou com Zanetti e nos pênaltis, superou os rivais ingleses para avançar às quartas. A queda não abalou a honra do jogador do Liverpool, eleito em votação popular como o esportista do ano na BBC.

Em outros prêmios, Owen terminou em quarto na votação de melhor jogador do mundo em 1998, vencida pelo imparável Zinedine Zidane, astro francês campeão mundial. Já a revista inglesa World Soccer apontou o seu estimado filhote como o segundo melhor do planeta, também atrás de Zidane.

Os problemas físicos começaram a perseguir o jogador na terceira temporada. O excesso de jogos e o esforço exagerado cobraram a conta na reta final de 1998-99. Marcou 18 gols em 30 duelos, mas teve de abandonar o time após uma contusão séria que lhe tirou por cinco meses de combate. A rotina de visitas ao departamento médico foi uma triste realidade para Owen, que também acabou alijado da disputa em 1999-00, quando ficou quase dois terços da temporada encostado.

A consagração e as dores

Fpto: World Soccer
Fpto: World Soccer

O Liverpool estava esperando por seis anos por um título relevante. E Owen estava de volta para mostrar o seu poder de fogo. Com 24 gols, foi o artilheiro do time na temporada 2000-01, em que os Reds foram verdadeiros bichos-papões. A “varrida” do esquadrão de Gérard Houllier terminou com títulos na Copa da Inglaterra, Copa da Liga e Copa Uefa, em cima do Alavés.

As conquistas da Copa Uefa e da Inglaterra vieram com contornos dramáticos e certa dose de heroísmo por parte de Owen, o grande nome nas duas decisões. Contra o Alavés, em Dortmund, um insano 5-4, com direito a prorrogação. O camisa 10 passou em branco, mas viu Babbel, Gerrard, McAllister, Fowler e Geli (este contra, o gol de ouro) marcarem para assegurar o terceiro título dos ingleses na competição.

Por falar em insanidade, o Millennium Stadium de Cardiff recebeu um grande clássico entre Arsenal e Liverpool valendo pela Copa da Inglaterra. Os Gunners atiraram primeiro e fizeram com Ljungberg, aos 72 minutos. Quando tudo parecia perdido, Owen resgatou aquela icônica atuação de 1996 e resolveu a parada, marcando dois gols aos 83 e 88. Não houve resposta dos rivais e os Reds beijaram o caneco.

O tempo foi passando e o Liverpool não conseguia o tão desejado título da Liga. A obsessão, somada à instabilidade física de Owen, resultou em frustração. Ao fim de 2003, o atacante recusou uma renovação de contrato e queria buscar novos ares. Como nem a vaga para a Liga dos Campeões veio ao fim da temporada 2003-04, Houllier foi demitido. O francês era um grande admirador do futebol de Michael e isso culminou em duas coisas para o astro: decepção e uma transferência para o Real Madrid.

Acabou, Owen

Foto: Daily Star
Foto: Daily Star

Ao pisar fora de Anfield pela primeira vez em 25 anos, o inglês se transformou em Galáctico. Teve a chance de jogar com monstros como Ronaldo, Beckham, Zidane, Figo, Roberto Carlos, Raúl e Casillas. Por 8 milhões de libras, foi apresentado aos sorrisos com o presidente madridista Florentino Pérez. Contudo, o queridinho da Inglaterra nunca conseguiu render o esperado no Santiago Bernabéu.

O começo, com lesões, foi complicado. Depois Michael se acertou, mas é seguro dizer que nunca se encaixou no perfil estelar que se criou em cada atleta titular. As cobranças foram altas e os 18 gols em 41 partidas não foram o suficiente. Atrás de novos craques, o Real se desfez de Owen após uma simples temporada. Ele foi para o Newcastle, contratado por valor recorde para os Magpies, por 16 milhões de libras.

Em 31 de dezembro de 2005, uma fratura no pé arriscou o resto da carreira do atacante. E o físico começou a sofrer cada vez mais com músculos estourando, ossos frágeis e um bom bocado de má sorte. Na Copa de 2006, recuperado, se quebrou contra a Suécia, na primeira fase, rompendo ligamentos do joelho e ficando um ano fora. Era o fim de Owen, com 26 anos.

Dali em diante, falhou em repetir os bons tempos, tornando-se a sombra de si mesmo. Jogou pelo Manchester United e pelo Stoke City, se aposentando em 2013. Apesar dos anos perdidos de 2005 até abandonar o esporte, ficaram os grandes feitos: duas vezes artilheiro do Inglês, 40 gols e 89 convocações em 10 anos pela seleção, três aparições em Copas do Mundo e duas em Eurocopas no currículo. Seis títulos pelo Liverpool e três pelo United.

Lá atrás, quando fazia seus gols em torneios escolares, Owen apenas sonhava com a fama que conseguiu. E encerrou a carreira com muito respeito, mesmo perdendo meia década no estaleiro. O menino foi o grande jogador que se esperava até o início de seus 20 anos. Mas o fator lesão pesou para que ele despencasse de rendimento. Nenhuma outra promessa inglesa cumpriu tanto o que prometeu quanto Michael Owen. Agora, se ele teve tempo suficiente para encher ainda mais a sala de casa de troféus, é outra discussão que podemos ter qualquer dia desses.

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