Como Henry deixou a vida no subúrbio em Paris para ser uma estrela

Foto: AS Monaco
Foto: AS Monaco

Para ser um atleta de nível mundial no futebol, não basta só nascer com talento e mostrá-lo em dias inspirados. É preciso querer aprender e evoluir, ter vontade de vencer e acima de tudo, uma mente tranquila para não se perder no turbilhão da fama e da insanidade pertinente ao estrelato. No caso de Thierry Henry, vários fatores contribuíram para que ele virasse um craque, algo em que ele tentou desde muito jovem se transformar.

Por alguns minutos, tentemos olhar para o contexto ao redor de Henry para entender o que é que fez dele um iluminado. O que sabemos de pronto é que ele foi o artilheiro francês na Copa de 1998, decisivo na Eurocopa de 2000, líder do maior Arsenal da história e campeão com o primeiro Barcelona de Pep Guardiola como técnico.

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Thierry é um vencedor, de fato, e seus méritos só enfatizam o tamanho do personagem que pintou e bordou em campos ingleses. Mas que antes disso, percorreu um longo caminho de dificuldades até a plena adaptação em Londres. O francês veio de um panorama complicado nos subúrbios parisienses e apesar do fato de demonstrar aptidão muito cedo, demorou a ter interesse na vida de futebolista.

O menino era um pouco maior do que os coleguinhas. E certamente jogava uma bola muito superior a deles. Thierry Daniel já era observado por técnicos de equipes de várzea antes mesmo de completar 10 anos. Jogou por times do bairro de Les Ulis, onde cresceu, passando por Viry-Chatillon e Palaiseau. Com 12 anos e bom porte físico, passou a ser disputado por clubes de alto escalão na França. E o Monaco levou a promessa para as suas equipes juvenis, depois de um impasse na escola do menino, a academia Clairefontaine. Lá, conheceu nomes como Louis Saha, William Gallas e Nicolas Anelka, todos eles seriam seus companheiros no futuro.

As más notas quase ameaçaram o futuro do jovem Thierry no esporte, mas com insistência, os monegascos atraíram-no. E com o tempo, ele passou a se dedicar mais aos estudos. Ele tinha 15 anos e já estava na mira dos olheiros desde os 13. Em um amistoso em especial, o time do garoto venceu por 6-0 e todos os gols foram dele. Ali, conseguiu uma vaga nos juvenis do Monaco sem nem precisar de um teste: a apresentação era de um craque pronto para os testes entre profissionais no futuro.

O jovem que valia ouro

Foto: France Football
Foto: France Football

Aos poucos, a equação de Henry fica mais clara. Talentoso desde menino, empenhado a ser um atleta, não um peladeiro, focando na educação. Poderia ser uma fórmula para um jogador de sucesso, mas a verdade é que além desses elementos somados, é preciso ter uma pitada (grande) de aptidão para o esporte. Desnecessário dizer que isso o francês já tinha desde moleque.

Pelo Monaco, estreou aos 17 anos, diante do Nice, pelo Francês. A questão de desenvolvimento para um craque se tornou quase que exclusivamente uma busca pela confiança. Como era muito novo e ainda não estava preparado para ser uma estrela, precisou encarar o futebol como uma montanha. Assim que tivesse a sensação de que poderia escalar até o topo, o faria em curto espaço de tempo. No entanto, não foi fácil enfeitiçar adversários e driblar todos eles até o gol.

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A genética favoreceu a família Henry e do alto de seus 1m88, Thierry aprendeu rápido a usar o corpo para levar vantagem sobre os oponentes. Daí então, somaram-se o talento, a predestinação, a capacidade física, a habilidade e a velocidade. Pode e vai soar clichê, mas com essas qualidades, Henry se tornou imbatível ao cultivar uma mentalidade voltada para a sua carreira, não para as nuances da juventude.

A única má fase

Foto: Avalona FC
Foto: Avalona FC

De menino a goleador, Henry foi ganhando respeito na França. Fazia seus golzinhos no Monaco e em 1997, com 20 anos completos, recebeu seu primeiro chamado para a seleção. Pouco menos de um ano depois, foi o artilheiro da equipe na Copa de 1998, mas acabou preterido por Christophe Dugarry na decisão, em uma escalação questionável até hoje por parte do técnico Aimè Jacquet. A França detonou o Brasil, mas Henry festejou como reserva. Destas incoerências históricas que os treinadores por vezes cometem.

O desempenho na Copa serviu de atrativo para outros grandes europeus. Em 1999, o atacante foi parar na Juventus, mas uma má escalação sua como meia destruiu completamente o que havia sido feito nos anos anteriores. Disputou apenas a segunda metade da temporada 1999-00 pela Juve e foi para o Arsenal, onde encarou novo período de adaptação. Quando se firmou, chegou longe.

O maior Henry possível

Foto: Premier League
Foto: Premier League

O estilo de Henry se tornou inconfundível. Ao lado de Bergkamp, fez uma das grandes duplas de seu tempo e se destacou como o principal nome de um time repleto de estrelas, treinado pro Arsène Wenger, seu velho chefe no Monaco. Pois Wenger sabia em quem estava apostando desde o primeiro dia.

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Ao reaprender o futebol como atacante, Henry roubou a cena e esteve no auge enquanto vestiu a camisa dos Gunners. E todas as manobras e grandes momentos que teve no clube foram sempre pensando no conjunto. Thierry não era um individualista, mesmo com a plena capacidade de driblar um batalhão, se quisesse. Era um gênio coletivo, que não pensava antes de fazer o último passe ou largar um companheiro na cara do gol.

E assim foi pelo Arsenal, por Barcelona e New York Red Bulls. Para quem julgava que Les Ulis não seria a terra propícia para o crescimento de alguém importante, os passos longos de Henry provaram que no esporte não há ciência exata e nem uma fórmula a ser seguida rigorosamente. Há sim a dedicação unida ao dom.

Foto: Reuters
Foto: Reuters

Henry terminou em 2014 uma carreira em que nada lhe faltou. Nem o reconhecimento, nem os maiores títulos, que dirá o restante que vem no pacote. Ganhou o Francês, o Inglês, o Espanhol, a Copa do Mundo, a Eurocopa, a Liga dos Campeões, o Mundial de Clubes, a Copa do Rei, a Copa da Inglaterra, a Conferência Leste da MLS. Por onde passou, foi campeão, conquistou quase todos os torneios que disputou.

Fato é que o francês chegou longe por conciliar o talento à educação. Pode ser que a maioria dos craques que estouraram no futebol não tenham essa consciência e conseguiram vingar mais por competência física e esportiva do que propriamente mental. Henry uniu os dois e teve sucesso. Cada um faz uma limonada com os limões que tem.

3 pensamentos em “Como Henry deixou a vida no subúrbio em Paris para ser uma estrela”

  1. Ti ti ti ti ti ti ti ti ti ti ti ti… HEEEEEENRRRRRYYYYY…! A narração do narrador no Real 2X6 Barcelona em 2009, no quinto gol do francês é hilária!!!

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