As duas falhas que abalaram a moral do paredão Kahn

Foto: Tagesspiegel
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O mundo dos goleiros se curvou a Oliver Kahn no fim da década de 1990 e início dos anos 2000. O alemão ganhou status de monstro durante a Copa de 2002 e foi eleito o melhor jogador do torneio… antes da final contra o Brasil. A superconfiança do arqueiro custou caro para a Alemanha e impactou o fim de sua carreira.

Oliver era um herói. Capitão do Bayern de Munique, o gigante de 1.88m fazia com competência o papel de chefe. Lá de trás, comandava o time e era praticamente o segundo técnico do elenco. Na Alemanha não era diferente. Todos respeitavam a autoridade do camisa 1, que se possível gritaria até com o próprio chefe em nome da segurança defensiva.

Foto: Reddit
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Kahn foi diferenciado. Um goleiro com amplo conhecimento da área que concerne a meta, a linha, a pequena área. Dono de reflexos apurados, de defesas milagrosas e frio, extremamente frio. Não tremia em decisões e crescia diante dos adversários mais perigosos. De vez em quando até batia de frente com eles, como na foto acima, em que lança uma voadora no suíço Chapuisat, do Borussia Dortmund.

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O que estamos tentando deixar mais claro é que Kahn era o melhor do mundo na posição. Com tanto prestígio quanto o atual titular do Bayern e da Alemanha, Manuel Neuer. Sabia-se que Oliver, o “Titã”, era quase um ciborgue, o mais robótico possível para um ser humano.

Então como é que um cara deste tamanho virou tão falível? Como o robô alemão pifou e deixou de ser o melhor da história para se tornar um homem mortal? Como o titular absoluto em 2002 falhou até perder a vaga para o mundial seguinte?

Sete jogos e uma falha

Foto: AFP
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A tragédia da decadência de Kahn começa na sensação de que ele era imbatível, mesmo contando com um time fraco à sua frente. A Alemanha que chegou à decisão da Copa de 2002 era extremamente inferior aos esquadrões de anos anteriores. Que dirá em relação ao Brasil. Até que a bola rolasse na decisão, o capitão havia levado um simples gol, contra a Irlanda, na segunda rodada da fase de grupos. Dali em diante, fez 1-0 em três jogos eliminatórios, incluindo o parto contra a anfitriã Coreia do Sul.

As atuações seguras fizeram de Kahn antecipadamente o melhor jogador do torneio. Mas um chute crucial de Rivaldo, já na segunda etapa, o arqueiro soltou a bola e permitiu que Ronaldo fizesse o primeiro. Ao fim, o Brasil abria 2-0 no placar de forma irreversível. Ali, caía o mito, o paredão que caminhava para ser o imortal dono da taça e da braçadeira de capitão na seleção alemã.

Consolado por Ronaldo, Oliver viu seu mundo desabar. A Alemanha foi vice e a superioridade de seu camisa 1 foi castigada com um frango imperdoável na decisão. Naquele momento, o histórico pelo Bayern, o título europeu e o respeito internacional praticamente foram por terra. Mas quem dera para Kahn que aquele dia fosse o último desastre de sua vida.

Segura, Oliver!

Pela Liga dos Campeões de 2003-04, o Real Madrid enfrentava o Bayern nas oitavas de final. Em Munique, empate em 1-1, com gols de Makaay e Roberto Carlos. O brasileiro bateu uma falta de longa distância e por alguma razão não explicada, Kahn caiu mal demais e deixou a bola passar por baixo dos seus braços. Graças a este gol, os espanhóis puderam sair em vantagem para o jogo de volta, no Santiago Bernabéu.

Cem defesas de Kahn foram soterradas pelo novo frango, curiosamente pelos pés de outro brasileiro que estava em campo na final de 2002. Mesmo com a falha diante do Real, o capitão bávaro se reergueu e fez grande temporada com o Bayern. No ano seguinte, foi campeão alemão, o sexto de sua carreira.

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A luta do Titã passou a ser contra o próprio azar. Eventualmente, ele se sentiria pressionado demais e poderia falhar, como todo goleiro. Não existe um homem nesta posição que nunca tenha sido alvo de chacota por um lance específico. O problema para o alemão é que a má fase ficou recorrente. Tanto é que depois do fiasco na Eurocopa de 2004, o arqueiro passou a faixa de capitão para Michael Ballack. Os germânicos caíram ainda na primeira fase.

A bolada, a solidariedade e o fim

Foto: AFP
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O reserva atrapalhado

Constantemente apontado como ranzinza, arrogante e competitivo demais, Kahn foi protagonista de uma situação bizarra na temporada 2005-06, pelo Bayern. Ao se aquecer antes dos jogos com o reserva Michael Rensing, que chutava bolas ao gol, uma dessas finalizações atingiu em cheio o seu olho esquerdo. Com o rosto inchado, o capitão precisou ficar de fora da partida do Arminia Bielefeld, minutos antes do pontapé inicial. Rensing, o autor do chute, foi para o gol.

A chegada de Klinsmann ao comando da Alemanha gerou uma mudança sensível para Kahn. Depois de muito tempo como titular indiscutível, ele teria de disputar posição com Jens Lehmann, que vivia grande fase com o Arsenal. Lehmann levou a melhor e ocupou com segurança a vaga na Copa de 2006. Os donos da casa terminaram o torneio na terceira posição.

Um momento marcante da campanha foi durante a disputa de pênaltis contra a Argentina, nas quartas de final, quando Kahn foi dar apoio emocional a Lehmann. O ato pegou o mundo de surpresa, já que esperava-se que Oliver estivesse enciumado pelo fato de perder a posição para o colega.

Foto: Bild
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Kahn ainda jogou dois anos pelo Bayern, até se aposentar em 2008. A última campanha europeia do time bávaro acabou de forma brusca em derrota para o Zenit de Arshavin e Pogrebnyak, na Copa Uefa. Os russos fizeram 4-0 nas semifinais e ficaram com o título depois de passarem pelo Rangers na decisão.

O melhor jogador do Mundial de 2002 encerrou a carreira por baixo, coisa que até a semifinal daquela Copa parecia improvável. O futuro de Kahn daquele ponto em diante foi amargo e os dias trataram de remoer o pesadelo que foi deixar aquela bola escapar nos pés de Ronaldo.

Aos 39 anos, o homem saiu do palco que o consagrou. O monstro deixou a cena que teve o recorde de jogos sem levar gols no Campeonato Alemão, em um total de 197. Kahn era antes do estrelato de Neuer o goleiro definitivo do Bayern e de seu país. Todavia, os seus feitos e sobretudo as suas loucuras em campo estão arriscadas pelo atual dono da meta na Alemanha.

Para não perder o lugar como principal goleiro da competente escola alemã, resta torcer para que Neuer encare uma decadência tão amarga quanto a sua. O que por agora parece impossível.

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