Como o ensanguentado Butcher virou um ícone do futebol aguerrido

Foto: The FA
Foto: The FA

Derramar sangue é do jogo. Você já deve ter visto inúmeros exemplos de jogadores que abrem o supercílio ou fazem cortes na testa, mas continuam em campo, derramando sangue pra caramba, manchando o uniforme, aquela coisa que remete o esporte às batalhas, coisa e tal. Entre estes sangrentos cavaleiros está o zagueiro Terry Butcher, protagonista de um dos melhores (e mais assustadores) retratos do futebol.

O inglês sempre foi de nível diferenciado. Alto e forte, tinha o porte físico ideal para um defensor. Mas as aparências enganam: Terry não era um brucutu qualquer que sentava a perna nos rivais para levar a bola. Nem mesmo o sobrenome criou em torno dele uma fama de violento. (Butcher significa açougueiro em inglês)

LEIA TAMBÉM: O homem que pediu para trocar a Juventus pelo rival Torino

Pois em 1989, pela seleção inglesa, Butcher virou o centro das atenções ao deixar o campo completamente manchado de vermelho, depois de uma ferida em sua testa. A partida em questão foi contra a Suécia, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1990. Antes disso, o defensor teve uma longa carreira por Ipswich, Rangers, Coventry e Southampton.

Terry nasceu em Cingapura e foi ainda menino para a cidade de Suffolk, no leste da Inglaterra. Quando começou a trilhar sua carreira no futebol, poderia ter começado no Norwich, mas recusou uma proposta dos Canários e foi para o rival Ipswich, seu time de coração.

Foto: World Sports Cards
Foto: World Sports Cards

Por dez anos, de 1976 a 86, Butcher jogou no Ipswich e ganhou fama sob o comando de Bobby Robson, incontestavelmente o maior treinador que já passou pelo banco de reservas dos Tractor Boys. No alto de seu 1.93m, o inglês era fortíssimo na bola aérea e na marcação. Foi crucial na campanha que resultou em título da Copa Uefa em 1981, quando o Ipswich ousou ir longe com um elenco “operário”. Fez dupla com Russell Osman e com a taça, virou presença constante na seleção inglesa.

O período de sucesso continuaria para o zagueiro, que ficou para o rebaixamento do Ipswich e acabou vendido para o Rangers em 1986, logo após a Copa do Mundo no México. Curiosamente, foi um dos defensores humilhados por Diego Maradona no histórico gol das quartas de final daquele Mundial. 

Foi tricampeão escocês e bicampeão da Copa da Escócia com o Rangers, que dominou o país na época. E foi exatamente nestes tempos que Butcher ganhou o noticiário e a admiração de muitos fãs do futebol aguerrido. Terry ainda se recuperava plenamente de uma fratura na perna que o tirou da Eurocopa de 1988, na Alemanha.

O dia sangrento

Foto: South Wales Argus
Foto: South Wales Argus

O dia 6 de setembro de 1989 marca dois eventos importantíssimos na história da seleção inglesa: o primeiro é a classificação para a Copa de 1990 e o segundo, claro, a atuação segura de um encharcado Butcher. Em duelo contra a Suécia, em Estocolmo, a Inglaterra precisava apenas de um ponto para conseguir a vaga ao Mundial. E este ponto veio com contornos de drama.

LEIA TAMBÉM: A complexidade do homem: um ensaio sobre Paul Gascoigne

Como o esporte não era exatamente obcecado com a segurança dos atletas, era possível atuar com anéis, brincos, correntes e até mesmo coberto de sangue. Butcher provou esta tese ao conseguir um corte na testa ainda no primeiro tempo. Ele teve tempo para receber pontos e fazer uma bandagem no local, a fim de estancar o sangramento. No entanto, as constantes cabeçadas e jogadas de força abriram a ferida e o que se viu na etapa final foi um espetáculo de raça e determinação.

Capitão da Inglaterra, Butcher não queria deixar o gramado. Assim que o corte na testa começou a sangrar, a faixa na cabeça saiu da cor branca para um vermelho vivo. Nem isso intimidou Terry e ele continuou subindo para tirar a bola da zona de perigo. O tempo passava, o placar seguia zerado e o drama se instalava.

Foto: The Gear Page
Foto: The Gear Page

No fim, a Inglaterra conseguiu o ponto desejado e impediu que a Polônia pudesse alcançar a sua soma no grupo 2 das Eliminatórias. Na saída após o apito final, todos os fotógrafos foram para cima de Butcher, completamente tomado pelo vermelho do seu sangue, em contraste com o branco do uniforme. Até o calção dele ficou sujo, lembrando muito um filme de terror envolvendo um massacre.

LEIA MAIS: A vida de refugiado que colocou Kubala no Barcelona

Com os olhos saltados e comemorando intensamente a vaga, Terry posou para os cliques e se surpreendeu com o assédio. A cara de alguém satisfeito com o próprio esforço imediatamente virou um clássico. Em alguns retratos como o exposto acima, é possível ver um quê de loucura, facilmente atribuído ao momento. Mas o capitão só estava cansado e agitado depois de um dia difícil.

A Suécia liderou a chave e terminou no primeiro lugar, seguida pelos ingleses. Na Copa, o time foi até a semifinal, quando lutou bravamente e caiu para a Alemanha, nos pênaltis. Butcher se aposentou da seleção após o torneio. Já com 32 anos, foi para o Coventry City, mas pouco jogou. Pendurou definitivamente as chuteiras em 1993, após passagens por Southampton e Clydebank, da Escócia. Por este último, Butcher fez apenas três partidas.

Sangue na camisa é raça, entrega, guerra e em alguns casos, imortalidade. Butcher não precisou agredir ninguém para ficar marcado com a vermelhidão em seu uniforme. Bastou só um corte na testa e um bocado de teimosia para que ele entrasse para a história.

2 pensamentos em “Como o ensanguentado Butcher virou um ícone do futebol aguerrido”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *