Leonardo foi muito mais do que a cotovelada em Tab Ramos

Foto: Vírgula
Foto: Vírgula

4 de julho de 1994. Os Estados Unidos estão em festa por dois motivos: é feriado nacional, o Dia da Independência, e a seleção do país entra em campo contra o Brasil, valendo uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo. Daquele momento em diante, a relação do americano com o futebol (com a bola correta, no caso) mudou em definitivo, para melhor. Contudo, a vitória brasileira com gol de Bebeto acabou manchada por um episódio isolado envolvendo Leonardo e Tab Ramos.

O relógio marcava 43 minutos do primeiro tempo. No Stanford Stadium, um forte calor castigava os mais de 84 mil torcedores presentes. O jogo estava duro, truncado, sem grandes chances. Até o fim, a tendência foi essa. Eis que antes das últimas voltas do ponteiro para o intervalo, Leonardo acerta uma violenta cotovelada no rosto de Tab Ramos, em um lance despretensioso na lateral. O brasileiro já tinha perdido a bola, mas resolveu punir o uruguaio naturalizado americano com um golpe cruel.

LEIA MAIS: O dia em que Raí voltou para o São Paulo e castigou o Corinthians

Tab foi ao chão e o árbitro imediatamente veio com o cartão vermelho para expulsar Leonardo. O lateral ainda tentou se desculpar com Ramos pelo lance, mas o camisa 9 dos EUA estava ocupado demais se contorcendo de dor. Leo não entrou mais em campo naquele Mundial, suspenso por quatro partidas.

O Brasil foi campeão e Leonardo viu toda a ação de fora. Era atleta do São Paulo na ocasião e quando voltou ao país, foi negociado pelo Tricolor com o Kashima Antlers. Sua carreira por um instante pareceu entrar em declínio, afinal, como poderia um atleta de nível internacional, com 25 anos, rumar para o Japão? É verdade que ele não pretendia gastar muito tempo lá e ficar longe dos holofotes parecia uma boa ideia para apagar a imagem de violento que ficou daquele jogo contra os Estados Unidos.

A passagem de Leo pelo Japão foi quase de todo positiva. Apesar de não ser acompanhado com frequência como merecia, o lateral encontrou Zico (com quem foi campeão brasileiro de 1987) e reeditou uma parceria memorável em uma das equipes mais fortes do país. Quando o Galinho se aposentou, ao fim do ano, Leonardo ficou incumbido da tarefa de vestir a camisa 10 do Antlers. E não decepcionou.

Arigatô, Leonardo-san

Foto: Youtube
Foto: Youtube

Campeão japonês de 1996, protagonizou alguns lances incríveis e foi reverenciado pelos locais. Em dois anos, acumulou 30 gols em pouco menos de 50 partidas. Claramente destoando dos demais, saiu para o Paris-Saint Germain a fim de recuperar o bom futebol em um grande centro da Europa. Antes de partir, deixou algumas boas memórias para os torcedores do Antlers:

Um ano de amor

Foto: Ligue 1
Foto: Ligue 1

Assim como nos tempos de Kashima, Leonardo reencontrou um velho companheiro. Ao lado de Raí, teve boa fase e conquistou três campeonatos em apenas uma temporada no clube: a Copa da França, Copa da Liga da França e a Recopa Europeia, contra o Rapid Viena, em 1996-97. Já adaptado como meio-campista, conseguiu se destacar e chamou a atenção do Milan, onde viveu a melhor fase de sua carreira.

A sombra da cotovelada ainda estava ali, mas Leo conseguiu mostrar que tinha muito futebol para deixar o episódio para trás. Por outro lado, Tab Ramos teve alguns problemas em decorrência da agressão. O americano sofreu uma fratura no rosto e ficou sob observação durante boa parte do segundo semestre de 1994.

O camisa 7 do PSG conseguiu em um ano a idolatria de uma torcida apaixonada. Raí ficou para contar mais histórias, enquanto Leonardo seguia para retomar a grande fase de sua carreira com a camisa milanista. Disputou apenas algumas partidas em 1997-98 antes de se transferir para a equipe rossonera.

LEIA TAMBÉM: A primeira e a última partida da carreira de Maldini

O Milan estrelado

Foto: UOL
Foto: UOL

No San Siro, Leo dividiu espaço com grandes nomes do futebol na década. George Weah, Oliver Bierhoff, Dejan Savicevic, Marcel Desailly, Roberto Donadoni, Patrick Kluivert, Zvonimir Boban, Paolo Maldini, Alessandro Costacurta e outras feras.

Ao conseguir se firmar no time titular de Fabio Capello, o brasileiro se tornou uma peça crucial no esquema. Apesar dos bons jogos, o time foi mal no Italiano e acabou em décimo lugar. Na Copa da Itália, derrota na final para a Lazio. Mesmo os insucessos não tiraram de Leonardo a vontade de vencer. Ele havia feito uma grande Copa América em 1997 pelo Brasil e voltou a disputar um Mundial, em 1998, na França.

Foi titular em seis das sete partidas (entrou no segundo tempo da estreia diante da Escócia) e viu um promissor grupo fracassar e levar um 3-0 da França na decisão. No alto de seus 28 anos e com boa experiência, conseguiu evoluir um pouco mais em seu retorno ao Milan depois do fiasco de 1998. Não viveu outros grandes momentos com a Seleção.

A temporada de 1998-99 reservou grande sucesso para o Milan e para Leonardo, um de seus craques. O título da Serie A devolveu o Diavolo ao grupo dos concorrentes à hegemonia italiana. O plantel ia se renovando lentamente e alguns dos astros de antes se despediram, como Desailly, Savicevic e Kluivert.

Foto: Tempo de bola
Foto: Tempo de bola

Leo ficou mais duas temporadas no Milan antes de um breve retorno ao Brasil em 2001. Jogou no São Paulo e no Flamengo, revivendo o início da década de 1990, mas não repetiu o sucesso das passagens anteriores. Lesões tiraram a chance de uma sequência maior pelo Tricolor e pelo Fla. Apesar da má forma física, o meia foi bem no Rio e cogitou se aposentar. Pendurar as chuteiras, na verdade, pendurou em outra passagem pelo Milan.

Mal entrou em campo e viu o time ser campeão europeu, já que parou em março de 2003, antes da dramática vitória nos pênaltis contra a Juventus, na Champions. As poucas atuações credenciaram Leonardo a estar no elenco que conquistou também a Copa da Itália contra a Roma.

VISITE A NOSSA LOJA OFICIAL: Canecas e camisetas dos seus craques favoritos

Leonardo encerrou seu ciclo como um atleta completo, ídolo em grandes clubes por onde passou. É claro que é fácil lembrar do fatídico capítulo com Tab Ramos, mas os títulos e as grandes atuações e o histórico devem mesmo falar mais alto do que um momento de descontrole.

Um pensamento em “Leonardo foi muito mais do que a cotovelada em Tab Ramos”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *