A derrota que selou a despedida de Liam Brady no Arsenal

Foto: Daily Mail
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O irlandês Liam Brady jogou por sete anos no Arsenal e apesar da sua capacidade de resolver partidas, o meia saiu com apenas um título no currículo. Antes de partir para a Itália, em 1980, para jogar na Juventus, o camisa 7 dos Gunners teve a chance de conquistar um troféu internacional, mas o seu time acabou derrotado pelo Valencia.

Depois do título da Copa da Inglaterra em 1979, com contornos dramáticos, o Arsenal se qualificou para disputar a Recopa Uefa da temporada seguinte. Brady, que estava no Highbury desde 1973, teve naquela conquista a única de sua carreira pela agremiação londrina.

Com 15 anos, ele se mudou de Dublin para Londres e passou pelas categorias de base dos Gunners até se consolidar como profissional, a partir de 1973. Em 1979, aos 23 anos, era o principal nome de um elenco consistente treinado por Terry Neill. No ataque, a memorável dupla de ataque entre Alan Sunderland e Frank Stapleton era municiada pelos passes primorosos de Brady.

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Liam Brady Arsenal
Foto: Arsenal

Nos sete anos anteriores, Liam havia conquistado fama e respeito dentro da Inglaterra. Era um craque incontestável. A nobreza com que conduzia a bola, usava o espaço ao redor e procurava um companheiro livre fez dele um artista do esporte. Quando não tentava alçar a bola em um traçado impossível, acertava chutes que desafiavam a física, como este aqui contra o rival Tottenham.

Desde que Brady chegou aos Gunners, a melhor campanha na Liga Inglesa foi o quarto lugar em 1979-80, que calhou de ser a mais promissora. Nesta mesma temporada, o voo europeu do Arsenal chegou até a decisão da Recopa Uefa. O adversário foi o Valencia de Mario Kempes e Rainer Bonhof, treinado por Alfredo Di Stéfano.

Naquele ponto, poucos acreditavam que o Arsenal de Neill perdesse a taça, mesmo com nomes de respeito do outro lado. Quando a delegação dos londrinos desembarcou em Bruxelas, a vitória estava a um passo. Eles só não sabiam que o passo seria maior do que as pernas.

O interesse por Brady fora da Inglaterra era crescente. Um atleta interessantíssimo e presença constante na seleção da Irlanda, o meia precisava de um impulso para continuar acreditando que faria bem levar a carreira até o fim em Highbury. Mas o impacto do dia 14 de maio de 1980 talvez tenha sido um argumento a desistir da ideia.

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 O adversário

Foto: Marca
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O goleador Mario Kempes era a referência ofensiva de um Valencia perigosíssimo. Dois anos antes, o argentino foi o craque da Copa do Mundo que deu o primeiro título ao seu país. Junto com ele, o alemão Rainer Bonhof, que havia sido vencedor com a Alemanha em 1974 e vinha de bons anos no Borussia M’Gladbach. A formação titular dos Che contava com vários atletas de renome dentro da Espanha, como o capitão Miguel Tendillo, que atuou muito tempo pela seleção nacional; o meia-atacante Enrique Saura e o atacante Pablo Rodríguez.

A caminhada até a decisão

O Arsenal não teve vida fácil até chegar no duelo contra o Valencia. Derrubou Fenerbahce, Magdeburg, Gotemburgo e Juventus pelo caminho. Diante da Juve, aliás, empatou em casa por 1-1 e venceu fora por 1-0, pela margem mínima no agregado. O Valencia, por outro lado, teve mais facilidade contra o Boldklubben, Rangers, Barcelona e Nantes, todos eles com uma vantagem confortável na contagem geral.

O palco para a partida foi o estádio de Heysel, que anos mais tarde, seria manchado por um desastre que tirou a vida de 39 pessoas antes de uma final entre Liverpool e Juventus, pela Copa dos Campeões Europeus.

Cerca de 40 mil pessoas estiveram presentes para ver o duelo entre Arsenal e Valencia. Com experiência internacional, o time espanhol se orgulhava do bicampeonato na antiga Copa das Feiras, vencida em 1962 e 63. O Arsenal também ergueu uma vez a taça da Copa das Feiras, em 1970. Essa malícia dos Che faria diferença no resultado final.

Foto: Goal.com
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No tempo normal, o Arsenal marretou os espanhóis, com Stapleton e Brady. O irlandês carregou uma bola até o espaço aberto na área e soltou um canhão, mas o goleiro Pereira foi buscar. Esperto, o Valencia preferia apostar em contragolpes. Num deles, Bonhof carregou e entrou na área inglesa, bateu rasteiro mirando o vão das pernas de Jennings. Por sorte, o goleirão gunner salvou a pátria e desviou para escanteio.

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A prorrogação colocou os dois times exaustos para lutar pelo gol que definiria a competição. Sem grandes chances, os adversários acabaram mesmo chutando pênaltis. Como as duas finais anteriores precisaram de jogos extras para a definição do campeão, a Uefa optou por alterar o método de desempate, forçando penalidades em caso de igualdade até depois dos 30 minutos de prorrogação.

Na primeira série, falharam os craques. Praticamente donos de seus times, Kempes e Brady desperdiçaram suas cobranças, instaurando um drama ainda maior para o restante da série. Jennings e Pereira fizeram defesas importantes.

Os cinco batedores do Valencia que vieram depois, não titubearam. O mesmo não se pode dizer sobre Graham Rix, que chutou baixo no canto direito do gol, facilitando para o elástico Pereira. O arqueiro valenciano já havia salvo o tiro de Brady e brilhou outra vez. O Valencia se sagrava campeão.

Foto: Mirror
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Três vezes eleito melhor jogador do ano no Arsenal, Brady fazia ali a sua despedida. Foram 307 jogos, 59 gols e várias assistências em sete anos. Saiu para a Juventus por modestas 500 mil libras, um valor que para a época já era pouco, sobretudo quando falamos  de um atleta de calibre como o de Liam.

A classe do irlandês dali em diante só pôde ser vista na Itália. Por Juve, Sampdoria, Internazionale e Ascoli, o armador conquistou duas vezes a Liga Italiana pela equipe bianconera e assinou com a Samp. Foi substituído por ninguém menos que Michel Platini, um dos melhores camisas 10 que os juventinos puderam ter.

Brady encerrou a carreira em 1990, pelo West Ham, depois de sua segunda temporada. Na primeira, os Hammers foram rebaixados. Contudo, o craque ficou e foi crucial no retorno dos londrinos à primeira divisão. Poderia muito bem ter jogado a Copa do Mundo na Itália, estreia da Irlanda em Mundiais, mas recusou convocações durante as Eliminatórias. Quando quis voltar, recebeu um não do técnico Jack Charlton.

Liam é o que podemos chamar de jogador subestimado, em virtude de suas escassas conquistas como profissional. Contudo, basta perguntar a qualquer torcedor do Arsenal, especialmente os mais velhos, e eles dirão que viram no camisa 7 um dos maiores de seu tempo. Uma injustiça que a seca de títulos dos Gunners ajudou a construir.

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