A vida de refugiado que colocou Laszlo Kubala no Barcelona

Foto: Sports Keeda
Foto: Sports Keeda

Laszlo Kubala deixou seu nome na história do Barcelona e foi um dos mais notáveis de uma maravilhosa geração da Hungria, mesmo sem participar da seleção que assombrou o mundo. O maior time do mundo no início dos anos 1950 trouxe para o esporte craques como Ferenc Puskas, Zoltan Czibor e Sandor Kocsis. Até que o fugitivo Kubala conseguisse se firmar como jogador profissional, foi preciso lutar bastante para sobreviver.

Um pouco de história e geopolítica

Antes que se conte a fundo a caminhada de Kubala até a fama, é preciso contextualizar um contraste entre os anos 1940 e 2015. Atualmente, milhares de imigrantes passam pela Hungria em busca de condições melhores de vida. Sírios e muçulmanos são constantemente hostilizados por nativos e sobretudo pelo governo nacionalista do partido Fidesz, que está no poder da Hungria.

Fronteiras foram fechadas, refugiados acabaram atacados por oficiais e o drama continua com ampla repercussão internacional. É seguro dizer que hoje o governo húngaro é contra a passagem de imigrantes pelo seu território, além de contribuir para que a estadia deles seja a pior possível. A política do Fidesz tem base na xenofobia e na conduta anti-imigração.

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Nos anos 1940, a questão era um pouco diferente. O país do leste europeu vivia a sua segunda década após o Tratado de Trianon, que ratificou a perda de dois terços do território do país, causando também a exclusão social de cerca de 10 milhões de húngaros étnicos.

Sabe-se também que na metade dos anos 1930, o regime húngaro corroborou com a filosofia e as práticas nazistas. A Alemanha invadiu a Hungria em 44 e passou a ser tutelada por um governador nazista, Edmund Vessenmeyer. Em meio a casos de deportação de judeus, o Exército Vermelho conseguiu render as forças alemãs e assumiu o controle da capital Budapeste.

Quando chegou o ano de 1948, a Hungria atravessou uma transição de poder e o comunismo passou a reinar. Uma grande parte de cidadãos opostos ao regime fugiu do país. Anos depois, foi a vez de Laszlo.

As fugas

Foto: Sefutbol
Foto: Sefutbol

Kubala, filho de um polonês/eslovaco e uma húngara/eslovaca, era menor de idade quando começou a sua trajetória no esporte. Passou por uma equipe de operários antes de estrear no Ferencvaros, em 1945, aos 18 anos. Durou apenas um ano lá, onde conheceu o jovem astro Sandor Kocsis. Como não compartilhava dos ideais comunistas e não queria de forma alguma fazer parte do exército, Laszlo fugiu para a Tchecoslováquia em 1946 para jogar no Slovan Bratislava. A vida no país vizinho gerou uma grande mudança no destino do atacante.

Em solo tchecoslovaco, casou-se com a filha do técnico da seleção da Tchecoslováquia, Ferdinand Daucik, iniciando ali uma parceria duradoura com o comandante. Como estourou com a camisa do Slovan, Kubala acabou convocado por Daucik para defender o país eslavo. Voltou à Hungria em 1948 e se viu outra vez obrigado a fugir do serviço militar. Atuou até 1949 pelo Vasas, de Budapeste, antes de escapar novamente. Desta vez se escondendo em um caminhão.

A viagem clandestina teve uma escala na Áustria, onde Laszlo ficou na zona ocupada pelo Exército Aliado, controlada pelos Estados Unidos. Da Áustria, o jogador foi para a Itália, a fim de defender o Pro Patria. Fontes dizem que o ponta-esquerda atuou por Milan e Roma, mas a informação nunca foi confirmada. Ainda em 1949, aceitou participar de um amistoso pelo Torino, em Lisboa, mas em virtude da doença de seu filho, ficou na Itália. Na volta para Turim, o avião que trazia o elenco se chocou com a Basílica de Superga e dizimou a equipe conhecida como ‘Grande Torino’, que dominava os campeonatos nacionais naquela década.

O Hungaria e a histórica excursão pela Espanha

Czibor, Daucik e Kubala, os três estrangeiros que fizeram história no Barça a partir de 1951. Foto: SK Slovan
Czibor, Daucik e Kubala, três estrangeiros que fizeram história no Barça a partir de 1951. Foto: SK Slovan

Depois de três jogos pela Hungria, a Federação local optou por punir Kubala pelas fugas do serviço militar e a quebra de contrato com o Vasas. A Fifa endossou a suspensão e o húngaro ficou um ano sem poder disputar partidas oficiais. De 1950 a 51, o atacante viajou pela Europa em excursão com um clube fundado por ele e Daucik, o Hungaria. Nesta agremiação, outros refugiados de países distintos formaram o elenco, que em 1950 passou pela Espanha para amistosos contra seleções de Madrid, da Espanha e o Espanyol.

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Em um destes confrontos, o dirigente e ex-meio-campista Josep Samitier, do Barcelona, se encantou com o que viu e quis contratar Kubala. No entanto, o húngaro estabeleceu uma condição para o seu acerto: que Daucik fosse apontado como treinador do time catalão. Assim foi feito e assinado em junho de 1950 por clube e atleta, mesmo com a sanção da Fifa imposta ao artilheiro. O húngaro só estreou no ano seguinte.

Outra sanção da Fifa

Curiosamente, em 2015, o Barça vive situação parecida: o meia Arda Turan e o lateral Aleix Vidal, recém-contratados, não podem estrear com a camisa blaugrana por um embargo da Fifa. Em 2014, os catalães foram punidos por transferências ilegais envolvendo jogadores da base.

A colônia húngara no Camp Nou

Foto: Tempofradi.hu
Kocsis, Kubala e Czibor / Foto: Tempofradi.hu

Kubala era um jogador completo. Exímio driblador e finalizador, só faltou fazer chover em seus tempos no Barcelona. Por uma década, vestiu a camisa 9 e proporcionou vários sonhos aos torcedores, era um tempo bom para ser blaugrana. Ao longo destes anos como craque no Camp Nou, Laszlo facilitou a chegada de dois conterrâneos ao clube: Kocsis e Czibor. Puskas, o mais talentoso da geração e apelidado de ‘Major Galopante’, era uma das estrelas do Real Madrid, multicampeão europeu nas décadas de 1950 e 60.

Em campo, a formação era estupenda: Ramallets, Olivella, Brugue, Segarra, Luís Suárez, Gensana, Tejada, Kocsis, Evaristo, Kubala, Czibor, entre outros monstros. Com eles, o Barça foi tetracampeão espanhol, pentacampeão da Copa del Generalísimo (uma exaltação ao General Francisco Franco, que mais tarde seria rebatizada de Copa do Rei), duas vezes a Copa das Feiras (que deu lugar à Copa Uefa) e a Copa Latina.

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Feitos como este colocaram Kubala entre as figuras mais memoráveis do Barcelona. Laszlo se autoproclamava um “cidadão do mundo” e o rótulo era plenamente justificado pelo fato dele ter brilhado em dois países diferentes e defendido três seleções.

Teria sido um genial atleta da Fúria, mas se lesionou antes da Copa de 1962 e perdeu o torneio, assim como o argentino naturalizado espanhol Alfredo Di Stéfano. Nunca disputou uma competição grande pela Espanha, mas era considerado um cidadão do país pelos barcelonistas e até mesmo alguns madridistas enfeitiçados pelo seu jogo.

Foto: Site oficial Barcelona
Foto: Site oficial Barcelona

Simpático à causa da Catalunha, também vestiu a camisa da seleção local em quatro amistosos, entre 1955 e 56. Anos mais tarde, quando saiu do Barça, jogou no Espanyol ao lado de Alfredo Di Stéfano, ambos em fim de carreira. Kubala ainda vestiu a camisa do Zurich e do Toronto Falcons antes de se aposentar em 1967. Uma eleição entre torcedores do Barça em 1999 colocou Laszlo (ou Ladislao, para eles) como o maior jogador da história blaugrana.

Na frente do Camp Nou, uma fachada faz alusão aos ídolos atuais do clube, em fotos. Perto deles, há uma estátua imponente de um homem forte se preparando para um chute. Ele é Laszlo Kubala, dono e protagonista de uma lenda que foi criada com base no improvável e na perseverança. No museu do Barça, um capítulo foi dedicado exclusivamente a ele. Para quem queria só fugir do serviço militar, o húngaro se saiu bem. Muito bem, diga-se de passagem.

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