A relação conturbada entre Lothar Matthäus e a Liga dos Campeões

Foto: Getty Images
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Lothar Matthäus foi o capitão da Alemanha na Copa de 1990 e ficou marcado para sempre por sua participação em três finais consecutivas de mundiais. Além do vigor físico que lhe permitiu atuar em alto nível por 20 anos na seleção, o meia era lembrado pela liderança em campo. Contudo, nem mesmo o talento e a predestinação puderam fazer dele um campeão europeu por clubes.

Nas duas chances que teve para levantar um título da Copa dos Campeões da Europa/Liga dos Campeões, Matthäus falhou. Não individualmente, diga-se. Era o capitão de duas equipes distintas do Bayern de Munique que fracassaram na hora H para conquistar a taça. Em 1987 e 1999 o clube bávaro foi derrotado em finais europeias e Lothar acabou amargurado pelas situações.

Resumindo Matthäus

Foto: T-Online.de
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Para que se tenha uma noção do que o ícone Matthäus representava, vamos a um resumo de sua carreira até 1987.

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Revelado em 1979 pelo Borussia M’Gladbach, o atleta se descobriu muito cedo como um volante incansável que saía com grande qualidade para o ataque. Capaz de atuar como líbero e homem da linha defensiva, Matthäus pegou o fim da fase gloriosa dos Potros na Alemanha.

Foto: Bild
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Em 1984, assinou com o Bayern, com quem ganharia sete vezes a Liga alemã, três Copas da Alemanha e a Copa Uefa em duas passagens. Convocado pela Alemanha desde 1980, o prodígio disputou as finais das Copas de 1982, 1986 e 90 pela seleção. Venceu apenas a terceira. Assinou pela Internazionale em 1988 e ficou na Itália até 1992, quando retornou ao Bayern. Jogou até 2000 e foi para o NY Metrostars (hoje atende por NY Red Bulls), se aposentando nos Estados Unidos. Isso tudo você já sabe e pode encontrar em qualquer texto sobre ele.

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Já partindo para uma análise do ídolo alemão, é fácil descrever Lothar como um atleta extremamente dedicado, a face do esporte em seu país. Obcecado pela perfeição e pela excelência, o meia marcou época e atravessou gerações como titular. Só perdeu espaço no fim da década de 1990 por encrencas com companheiros e técnicos. Tecnicamente, continuava muito bem até mesmo em sua passagem pela MLS.

As passagens pelo Bayern

Voltemos a 1984-85. Logo em sua primeira temporada com os bávaros, Lothar ergueu a taça de campeão alemão. Fundamental tanto na defesa quanto no ataque, terminou o ano com 17 gols em 44 partidas.

Três anos depois, o Bayern caminhava até a final da Copa dos Campeões da Europa, em 1987. Já nomeado capitão, Matthäus atuou e marcou quatro gols em sete dos nove compromissos do seu time na competição. Incluindo a semifinal em que os germânicos detonaram o Real Madrid. Neste confronto em especial, o atacante Juanito agrediu duplamente o camisa 10 com um chute nas costas e um pisão no rosto.

Na decisão contra o Porto, que chegava de forma surpreendente à decisão, os alemães entraram com a sensação de que seria mais um passeio. Contudo, o Bayern de 87 não era brilhante como a geração de 72/74 liderada por Beckenbauer, Breitner e Müller. Em Viena, os lusitanos levaram a melhor, de virada, com gols de Madjer e do brasileiro Juary.

Viena, maio de 1987

Foto: DFB.de
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As coisas até que começaram bem para o Bayern em 25 de maio de 1987. Pressionando no ataque, o selecionado bávaro abriu os trabalhos na Áustria com um gol aos 25 minutos marcado por Ludwig Köhl. Numa jogada originada de um lateral, o goleiro portista Mlynarczyk saiu mal e estava fora do gol na cabeçada do atacante adversário.

Caiu do cavalo quem pensou que os azarões do Porto se renderiam. Os portugueses lutaram e seguraram firme até o fim da segunda etapa, quando se concretizou a remontada e a glória. No intervalo, os atletas do Dragão se reuniram com o técnico Artur Jorge, que conseguiu motivar cada um deles até a reviravolta que deu o primeiro título europeu ao clube da Cidade do Porto.

Foto: Uefa
Foto: Uefa

Futre carregou a bola pela direita e marcado, rolou para trás. O argelino Madjer viu que não conseguiria completar o lance e resolveu dar de calcanhar na bola. Com apenas um defensor do Bayern em cima da linha, o gol saiu aos 77 minutos, para delírio da massa portista presente no Praeterstadion. Quatro minutos depois, o mesmo Madjer rabiscou a defesa bávara pela esquerda e cruzou. O brasileiro Juary apareceu na hora certa para finalizar e só completou para o alto da meta de Jean-Marie Pfaff. Era o gol do título.

Barcelona, maio de 1999

Foto: DFB.de
“Ja, ja, prrata no me enterrêssa!” Foto: DFB.de

A final mais emocionante da história da Liga dos Campeões certamente é a da edição 1999. Manchester United e Bayern duelavam no Camp Nou em 26 de maio de 1999. Assim como no jogo diante do Porto, o Bayern saiu na frente no primeiro tempo. Em uma falta bem cobrada por Basler, a bola foi no cantinho do goleiro Schmeichel logo aos quatro minutos.

Confiante, a equipe treinada por Ottmar Hitzfeld não deu chances e martelou demais um perdido United de Alex Ferguson. Por grande parte da final, os alemães mereceram a vitória, mas desperdiçaram chances demais para tal.

A coisa começou a mudar para o United quando o campo virou. O goleiro Schmeichel fez algumas defesas e contou com a sorte para manter o placar do jeito que estava. Nos minutos finais, ou se preferir, no Fergie Time, Sheringham e Solskjaer viraram para os ingleses, aos 91 e 93 minutos. Matthäus, que saiu restando 10 para o apito final, foi visto enquanto esperava ansioso pelo título. A cada gol dos Red Devils, a câmera focalizava no capitão bávaro, incrédulo no que passava diante dos seus olhos.

A frustração foi tão grande que Matthäus tirou a medalha de prata do peito assim que passou pelo então presidente da Uefa, Lennart Johansson. Destroçado emocionalmente, jogou só meia-temporada pelo Bayern e saiu em maio de 2000 para o Metrostars. Seu último jogo foi contra o Real Madrid, pela fase de grupos da Champions, vencendo por 4-1, assim como na noite em que foi pisoteado por um insano Juanito. Os madridistas acabaram campeões da temporada, se vingando da goleada anterior e eliminando os rivais nas semifinais.

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Para que a coincidência fosse ainda mais cruel com o interminável capitão, assim que Lothar saiu para os Estados Unidos, o time engrenou. Na Champions, o Bayern arrancou até a decisão, tirou o Real Madrid nas semifinais e bateu o Valencia, nos pênaltis, para vencer o seu quarto título na história do torneio. Diferentemente do que planejava Matthäus, o dono da faixa e responsável por erguer a taça foi Effenberg, cérebro da formação de Hitzfeld.

Matthäus parou com 39 anos sem saber o gostinho de levantar o troféu mais prestigiado do futebol europeu de clubes. Pode até ter vencido a Copa do Mundo, a Copa Uefa e outros campeonatos, mas passou em branco na Champions, com duas derrotas em finais, as duas de virada.

Tente explicar para uma pessoa extremamente competitiva que ela simplesmente não nasceu para vencer um campeonato específico. Essa equação jamais vai entrar na cabeça do alemão, que não conseguiu completar o circuito de conquistas possíveis na carreira. Uma das pequenas e irônicas facetas do futebol.

(Recomenda-se que o áudio seja desligado antes da execução do vídeo abaixo)

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