O dia em que um 12-0 foi pouco para o Borussia M’Gladbach

Foto: Welt
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Em 1978, o Borussia M’gladbach era a principal força do futebol alemão e dominava o cenário com títulos e goleadas incríveis em rivais de menor expressão. Se hoje parece difícil ver o Bayern de Munique longe da hegemonia local e o Borussia Dortmund levando uma sapecada histórica, naquele ano isso aconteceu de uma só vez. E foi chocante.

O M’gladbach lutava pelo seu quarto título consecutivo na Bundesliga. Desde 1970, os Potros ergueram cinco vezes a salva de prata, batendo de frente com o Bayern de Munique de Beckenbauer, Breitner e Gerd Müller. Os bávaros foram tricampeões de 1972 a 74 e o M’gladbach de Allan Simonsen e Jupp Heynckes encaixou mais três em cima dos rivais.

Naquela época, uma grande rivalidade foi forjada entre Bayern e M’Gladbach, que se digladiavam pelos troféus do país. Para interromper o reinado da dupla surgiu o Colônia de Dieter Müller. A luta entre Bodes e Potros durou até a última rodada: enquanto o Colônia recebeu o St. Pauli em Hamburgo, o M’Gladbach jogou com o Dortmund no Rheinstadion, já que o seu habitual estádio, o Bökelberg estava em reforma.

O contexto da goleada

Antes do jogo, a tabela marcava o Colônia como líder e o Borussia como vice, somando os mesmos pontos. A diferença residia no saldo de gols e o Colônia tinha vantagem de 10 sobre o concorrente direto. A missão passou a ser quase impossível, mas os então tricampeões alemães resolveram tentar.

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Em 29 de abril de 1978, o jogo entre Borussias colocava frente a frente um candidato ao título e um recém-sobrevivente na primeira divisão. Os aurinegros escaparam do rebaixamento ao vencer o Schalke no clássico do Vale do Ruhr, três rodadas antes.

Como era necessária uma reformulação de elenco, a diretoria do Dortmund achou de bom grado começar a limpeza antes mesmo do fim da temporada. O resultado foi a dispensa de alguns atletas, entre eles o goleiro Peter Endrulat, que soube horas antes da partida contra o M’gladbach que seu contrato não seria renovado.

O massacre

Endrulat pegando a bola no fundo da rede: a cena se repetiu 12 vezes naquele duelo / Foto: Welt
Endrulat pegando a bola no fundo da rede: a cena se repetiu 12 vezes naquele duelo / Foto: Welt

Para ser campeão, o Gladbach precisava vencer e torcer para que o Colônia empatasse ou vencesse por uma margem simples de gol. Quando o juiz Ferdinand Biwersi apitou o início da partida, os Potros começaram a amassar os aurinegros em campo. Logo no primeiro minuto, Heynckes abriu o placar. O atacante ampliou aos 12′ e Nielsen fez o terceiro aos 13′. Aos 22′, Del’Haye anotou o quarto. Heynckes marcou o quinto e Wimmer fechou a conta da etapa inicial: 6-0.

A zaga do Dortmund entrou em colapso. Erravam desarmes, passes e posições de marcação. Com facilidade, o M’Gladbach chegava na área e marcava. Com seis gols contra, o técnico do Dortmund, Otto Rehhagel, chamou os jogadores para uma conversa nos vestiários. Pediu mais empenho e honra para que não levassem mais nenhum. E puxou Endrulat para o canto. O goleiro, no entanto, se recusou a ser substituído. Anos mais tarde, se arrependeu:

O dilema de Endrulat

Foto: 11 freunde
Foto: 11 freunde

“Quando penso nisso hoje, percebo que deveria mesmo ter deixado o campo no intervalo. Pelo menos deste jeito Horst Bertram (o titular que retornava de lesão) teria tomado seis dos 12 gols. Estou certo disso. Muita gente esquece que eu salvei vários chutes naquele jogo. Quer dizer, os que eram defensáveis…”

Ninguém do banco do Dortmund quis entrar na partida. Eles tinham medo de participar do vexame e preferiram deixar que os titulares se ferrassem sozinhos. Endrulat foi o principal culpado pelo resultado.

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Começou o segundo tempo e o M’Gladbach não diminuiu a pressão. Heynckes, Nielsen e Del’Haye fizeram mais três. Neste momento, o técnico Udo Lattek sinalizou para o campo e avisou ao time o que ainda teria de fazer para vencer o campeonato. Levantou as mãos e pediu mais três gols, já que o Colônia vencia o St. Pauli em partida paralela.

Heynckes achou loucura tentar o placar de 12-0, mas seus companheiros continuaram firmes no propósito de serem campeões. Mesmo que isso custasse a humilhação eterna do Dortmund. O atacante guardou mais um e viu Lienen e Kulik passarem a régua no jogo. O placar marcava um incrível 12-0.

O pós-desastre

Foto: RP online-de
Foto: RP online-de

Ninguém no Rheinstadion comemorou o surpreendente placar. Foi a maior goleada da história da Bundesliga, mas não adiantou de nada para o M’Gladbach, já que o Colônia ficou sabendo do que estava ocorrendo no outro jogo e enfiou 5-0 no St. Pauli. A torcida do St. Pauli, aliás, também foi alertada do vexame do Dortmund e passou a torcer pelo Colônia, por desconfiança de uma manipulação de resultados.

O Colônia se sagrou campeão com os mesmos 48 pontos dos Potros, mas com o saldo de gols de 45 contra 42 dos vice-campeões. Já no dia seguinte ao 12-0, cresceram na Alemanha as suspeitas de irregularidade no resultado, visto que o Dortmund não tinha ambições na temporada e podia muito bem ter vendido a goleada. No entanto, as suspeitas nunca se confirmaram e não nenhuma queixa oficial foi registrada.

A Federação Alemã interrogou todos os jogadores do Dortmund presentes na goleada e não puniu ninguém por atitude antidesportiva ou conspiração. No entanto, o clube multou todos os jogadores pela atuação ridícula.

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Herbert Wimmer, do M’Gladbach, que se aposentou naquele dia, preferiu a derrota na tabela do que um título que levantasse dúvidas a respeito de sua legitimidade. Do outro lado, o goleiro Peter Endrulat nunca mais atuou por um time de elite na Alemanha. Foi para o obscuro Tennis Borussia Berlin e se aposentou em 1981.

O Borussia M’Gladbach, assim como o Colônia, nunca mais foi campeão da Bundesliga depois daquele par de anos. A era de ouro dos Potros se encerrou com cinco títulos da Liga, dois da Copa Uefa e duas Copas da Alemanha. Em 1995, o time liderado por Stefan Effenberg venceu a Copa da Alemanha pela terceira vez na história. Desde então, a torcida espera uma nova glória.

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