Oleg Salenko, o maior one-hit-wonder do mundo

Foto: ESPN
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Toda vez que o nome Oleg Salenko vem à tona, é fácil associar com a lembrança da Copa de 1994. Nela, o russo se consagrou fazendo cinco gols em uma só partida, contra Camarões. A Rússia caiu ainda na primeira fase, mas a atuação serviu para que o camisa 9 fosse colocado na história como o recordista de gols em uma mesma partida, além de ter sido artilheiro ao lado de Hristo Stoichkov daquela competição. E é mais ou menos nisso que se resume a sua carreira de 14 anos.

Mas antes de contarmos o fim da história, é preciso que voltemos no tempo, para 1986, quando o atacante teve sua primeira chance pelo Zenit. Dois anos e boas partidas renderam uma transferência para o Dynamo Kiev. Suas atuações garantiram uma convocação para o Mundial sub-20, disputado na Arábia Saudita, em 1989. Defendeu a seleção da União Soviética, meses antes da dissolução, e terminou o torneio como artilheiro, marcando cinco gols, mas a URSS perdeu para a Nigéria nas quartas de final.

Saiu em 1993 para o obscuro Logroñes, onde teve seu auge marcando 16 gols pela primeira divisão espanhola em 1993-94. Era um bom valor, mas, de certa forma, ainda subestimado. Ninguém sabia do que Oleg era capaz. Veio a Copa do Mundo nos Estados Unidos e assim como grandes astros do futebol local, teve seus minutinhos de fama.

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Os cinco gols

A estreia da Rússia no Mundial foi contra o Brasil. Segura, a seleção treinada por Carlos Alberto Parreira fez 2-0 e ganhou confiança. No duelo seguinte, os russos pegaram a Suécia e perderam de 3-1. O gol de honra, marcado por Salenko, foi seu primeiro com a camisa da Rússia. Curiosamente, em 1992, ele jogou por uma terceira seleção, quando defendeu a Ucrânia em um amistoso contra a Hungria, passando em branco.

Foto: Copa em 3x4
Foto: Copa em 3×4

Corta para 28 de junho de 1994. A Rússia pegava Camarões, com poucas esperanças de classificação para a segunda fase, mesmo sendo uma das melhores terceiras colocadas. Este confronto, em especial, reserva dois recordes: o de maior número de gols de um mesmo atleta e do jogador mais velho a marcar.

O abatimento geral e a falta de empolgação da Rússia não tiraram a vontade do seu camisa 9 de fazer uma última boa atuação. Logo aos 15 minutos, debaixo de forte calor na Califórnia, ele fez o primeiro. E o segundo, o terceiro (de pênalti), o quarto e o quinto. Dmitri Radchenko ampliou e restou a Roger Milla fazer o solitário tento camaronês.

Foi o último jogo de Milla em Copas, aos 42 anos. Sua última partida pela seleção camaronesa foi em dezembro de 1994, num amistoso contra a África do Sul. A sensação de despedida naquele Rússia e Camarões não era só do africano. Mesmo sem saber, Salenko também dizia adeus ali. Os únicos dois jogos em que ele balançou as redes pela Rússia foram exatamente os da fase de grupos da Copa de 1994. Ele nunca mais foi convocado.

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A explicação é que Oleg Romantsev, técnico da Rússia após a Copa, se sentiu incomodado com o estrelismo do atacante e resolveu sacá-lo das convocações. Como Salenko nunca mais teve uma fase tão boa, ficou mesmo de fora das listas daquele ponto em diante.

Como profissional, os cinco gols contra os camaroneses são indiscutivelmente o único grande feito de Oleg no esporte. A façanha virou motivo de brincadeira entre ele e Hristo Stoichkov quando se enfrentaram pelo campeonato espanhol, depois do Mundial-94. No seu currículo, consta e sempre constará a chuteira de ouro da Copa nos EUA. Mesmo que ele não tenha feito nada digno de nota nos anos seguintes, seu momento de glória ninguém pode tirar.

Uma eterna lembrança

Ninguém questiona o mérito dos cinco gols. Entretanto, o que parece difícil de entender é como alguém que balança as redes seis vezes, em duas partidas pela competição mais importante do futebol, não consegue manter um futebol de nível razoável pelo resto da carreira. Não estamos falando de um zé mané que acha cinco gols de canela ou está na hora certa e no lugar certo. Não foi só sorte. Salenko quis mesmo fazer aquilo. O que aconteceu depois é que é um mistério.

Foto: Diario Che
Foto: Diario Che

Logo após a Copa, Salenko assinou com o Valencia. Chegou junto com o técnico Carlos Alberto Parreira. Apesar dos retrospectos opostos na Copa, ambos foram mal na temporada 1994-95 e seguiram outros caminhos. Oleg, por exemplo, saiu para o Rangers, enquanto Parreira assumiu o São Paulo, depois de Telê Santana.

Quando teve a chance de voltar à seleção da Rússia, com a troca no comando em 1996, o atacante se lesionou e ficou de fora. Seguiu silenciosamente para o ostracismo e, quando é lembrado, é só pela proeza de 1994. Mas quem pensa que isso é um fantasma para o russo, está muito enganado. Ele mesmo trata de dizer o quanto é feliz com a estatística:

“Todo dia alguém me lembra disso. É a grande coisa da Copa do Mundo, todos estão acompanhando. Se você faz algo espetacular, será lembrado para sempre. Viajo muito pela Europa e pelos Estados Unidos, e muita gente ainda vem falar comigo. Quando fiz aqueles gols, não senti que estava fazendo história, porque quando você está jogando, sempre pensa que pode fazer melhor”. (Salenko, ao site da Revista Four Four Two)

Ainda atuou pelo Rangers, Istambulspor, Córdoba e Pogón Szczecin. E nem pista do prolífico centroavante que chocou o mundo. Acumulando os troféus de Chuteira de Ouro do Mundial sub-20 e da Copa de 1994, Salenko é o único a conseguir tal mérito. E ficou só nisso. Aposentou-se em 2003, completamente esquecido pelos noticiários.

Aliás, a última vez em que Salenko se destacou, foi quando desmaiou ao vivo em um programa de TV na Ucrânia, comentando a rodada.

A questão é: se você pudesse saber quando fará uma última aparição em alto nível, continuaria jogando ou encerraria as atividades por cima da carne seca, aclamado e saudado por seu único momento espetacular? Essa pergunta só Salenko pode responder.

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Daqui 20, 30, 50 ou 100 anos, o russo ainda será lembrado apenas pela artilharia naquela Copa, graças ao inspirado dia 28 de junho, contra Camarões. Este é o futebol. Que segue sem dar aos heróis a chance de encerrar a carreira antes da decadência.

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